O caso das sardinhas Coqueiro

27 11 2009

Este já faz tempo  e preserva alguma coisa do projeto original, embora também seja um retrocesso. Acima, vemos o projeto de Alexandre Wollner, artista egresso do concretismo paulista e um dos pioneiros do design no Brasil, para as Sardinhas Coqueiro. O projeto é de 1958 e Wollner aplicou princípios construtivos nas embalagens, popularizando a vanguarda no supermercado, assim como Lygia Pape fez com os biscoitos Piraquê.

A logomarca apresenta as folhas do coqueiro feitas a partir de uma sequência de círculos seccionados. Na lata, o próprio peixe é feito a partir de um triângulo e de um quadrilátero – um losango alongado – que se encontram pelos vértices. Os três sabores dos molhos são comunicados da forma mais simples possível: duas cores primárias – amarelo (azeite) e vermelho (tomate) – e uma secundária, verde (limão), que são facilmente associadas ao ingrediente principal de cada mistura.

O projeto resistiu até 2000, quando a Quaker do Brasil, atual proprietária da marca, adulterou a identidade visual sem sequer consultar o designer. O coqueiro em forma de ícone foi substituído por uma ilustração  e depois desapareceu da lata (veja à esquerda, na versão tomate, e à direita, na versão light). A sardinha virou algo disforme, de geomestria indefinida,  diminuindo assim a rapidez de memorização da marca. É um macete ótico muito usado pelos artistas construtivos: geometria e ícone são de fácil memorização, enquanto um desenho “completo” leva a tempo para ser processado por nossa inteligência visual.

Wollner, um craque, sabia disso quando “limpou” peixe e coqueiro, transformando-os em formas básicas. A lata atual peca ainda na adição de sardinhas no fundo colorido (uma redundância completa) e na profusão de fios e outros elementos que perturbam a absorção de informação.

Ficou muito mais difícil gravar a marca da Coqueiro, prova de que o projeto inicial de Wollner, além de muito mais belo do que o em vigor hoje, também era mais eficiente.


Acções

Informação

24 respostas

25 08 2011
fred coutinho

A lata da Quaker é mais uma. Essa é a diferença.

29 03 2011
Alexandre Wollner: Mestre ou puro ego? « Malon Tomio

[...] de autoria de Wollner, foram taxados por ele de lixo (MIT, Olimpíadas RIO 2016, Boticario, Itaú, Sardinhas Coqueiro). Um achismo constante, que culminou em uma celebre frase que ele soltou em determinado momento: [...]

18 08 2010
ismael

a embalagem tem que ser igual a da gomes facil de abrir

20 07 2010
Marcio

Quanto atavismo gráfico nestes comentários. Com todo o respeito ao mestre Wollner, mas seu design é datado, serviu a uma época com poucas informações visuais. O grafismo mudou, a linguagem visual por conta da era digital mudou, não dá mais pra ficar amarrado à estética formal que fez a personalidade de tantos produtos. Hoje a informação se dá através de outras formas, gostem ou não os puristas dos efeitos e 3Ds, esta é a realidade visual e virtual que os consumidores que nasceram apertando botões e teclando nos MSNs da vida, estão acostumados. E ái de quem não souber fazer design para a nova era (neoclássica?!? – sic…)

20 07 2010
danielaname

Marcio, bom dia! Ninguém se posicionou contra as mudanças e renovações. O problema é que elas mudaram a identidade visual da marca para pior, sem preservar qualquer ligação com a logo original, o que – se você for designer saberá que estou falando – é um crime em termos de identidade visual. Beijos e obrigada por opinar aqui. Volte sempre.

15 03 2010
joana mendes da rocha

Me dá uma tristeza perceber um processo de deseducação do olhar. Pra mim o que fica é uma sensação de emburrecimento, de substituição do design limpo, inteligente, comunicativo por uma mistureba de informações. Reflexo do mundo neoclássico de hoje em dia.

15 02 2010
rogerio gonçalves de barros

pensa com migo se wollner colocasse um coqueiro de um lado e um coqueiro do outro e uma rede de pesca amarrada de coq. para o outo e uma sardinha deitada nesta rede o comsumidor tambem nao deixaria de comsumir o produto porque em 1958 ou seja 10 anos antes do meo nascimento e ate a data de hoje ninguem vai de deixar de comer por um simples desenho geometrico pois em pleno seculo XXl o que volga e preço e qualidade e isto a QUAKER DO BRASIL tem e quanto ao novo desenho que a QUAKER desenhor e segundo as observaçoes que eu li e deixou alguns chateados isso e aguas de mares passada pois outras empresas creio eu faria o mesmo pois se eu comprei paguei entao quem manda sou eu nos meos produtos ok isso e so minha opiniao parabens para as ideias da epoca de 1958 e parabens para os atuais proprietario pois eu sou um simples zelodor de condominio que quando criança e ate criar nossas filhas eu e minha esposa saboremas este produto.FELIZ 2010 COM A PAZ DE DEUS EM SUAS VIDAS Rogerio e familia.

19 12 2009
Pablo Ramirez

O projeto de Wollner pode ter sido bom nos anos 60 mas no mercado atual não tem cabimento. O mercado exige outro tipo de linguagem e a palavra de ordem é entender o consumidor. A embalagem antiga fica bem num museu mas em uma gondola seria sumariamente ignorado.

14 12 2009
Akemi

Alguém diga para o designer que na “tampa” da latinha não cabe tanta informação, ou pelo menos, tanta sardinha nadando

4 12 2009
Maria Mello

Nossa, nunca tinha visto as novas embalagens…Isso já é uma prova de que o desenho do Wollner era muito melhor.
q pena.

1 12 2009
Renato

Ás vezes me pergunto se não estou ficando muito apegado a desenhos antigos, a projetos antigos, mas que, nem pela questão da idade deixo de considerar interessantes.
O que me assusta é a dúvida de estar me tornando saudosista demais.
Acho que o redesenho da lata, como alguns outros casos apresentados, mexe com minha história pessoal (sim, eu comi as sardinhas da lata do Wollner, rsss) e isso sim, esse descaso com a “minha” lata de sardinha é que me deixa triste…
Fica o desabafo de alguém que está tendo a história visual de seus produtos redesenhada pelas novas tendências de mercado…

29 11 2009
Mario Longhi

Perfeito o artigo.

parabéns!

29 11 2009
danielaname

Obrigada, Mario!

28 11 2009
Design feito pra durar « Pitadinhas

[...] « O caso das sardinhas Coqueiro [...]

27 11 2009
Pedro

O problema não é a mudança da identidade em si. É uma mudança cultural dos produtos industrializados no Brasil. Identidade de massa, algo como fazer o que todos os outros estão fazendo. Abusando de formas tridimensionais, exibindo imagens do produto e por aí vai. Não acho q é uma questão de um projeto ruim. Concordo que o projeto original é muito melhor por inúmeros quesitos mas as empresas seguem tendências e esse é o mercado que consome. É o mercado do caos!

29 03 2012
Geraldo Almeida

Estão preocupados com as estampas da lata e outras coisas mais e esqueceram de preservar o sabor do que vem dentro da lata. Antigamente se comia sardinha com gosto e sabor, hoje, colocam qualquer peixe dentro e dizem ser sardinha, estão vendendo gato por lebre, dias desses comprei uma lata e ao abrir, vi dentro da lata, metade de duas pescadas e não sardinha, que pena, o gosto era horrivel. tenho saudedes das sardinhas coqueiro de antigamente.

9 04 2012
danielaname

Oi, Geraldo, acho que a questão do paladar é uma discussão pra outro tipo de especialista. Só me atrevo a discutir o design, já que foi sobre isso que me debrucei como curadora e historiadora da arte. abs.

27 11 2009
Léo Scartezzine

Costumo chamar isto de indignidade..rs. Um desenhista qualquer pega a obra do artista puxa daqui, puxa dalí e mostra a um executivo alienado qualquer. Acaba nisto. As antigas latas são belíssimas e formam um conjuto pragmático e harmoioso. As latas novas parecem um produto qualquer, mais uma marca de sardinhas. Concordo com a apreciação.

27 11 2009
Gerson

Alguém na Quaker não entende nada de memorização de marcas e design intuitivo. As novas (nem tanto) embalagens de aveia requerem esforço de leitura para saber o que está na prateleira. Uma mistura de cores que confunde. A caixa de Aveia em Flocos é quase igual à de Frutas Vermelhas. É preciso procurar, no meio daquele arco-íris que é a caixa, a designação do produto.

Assim como a lata de sardinha: pode ser até bonito (há controvérsias), mas confunde. Se o consumidor se cansar de procurar, vai pra outro.

Mexer em identidade visual requer muita cautela. E competência.

27 11 2009
criss

Eu gosto das antigas latas, que pena, em todo caso nao como sardinha em lada e nao vou ter que engolir a nova lata.

27 11 2009
Ricardo Amaral

As latas novas são iguais a todas outras. Nesse caso, Coqueiro se igualou a Gomes da Costa e outras genéricas.

27 11 2009
danielaname

Concordo totalmente

27 11 2009
André

Eu acho bonitas as latas novas.

27 11 2009
danielaname

é uma opinião, André, que bom que alguém gosta. :-)

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