O caminho do corpo

28 09 2010

"A origem do Terceiro Mundo": caminho real e simbólico para o corpo da mostra

 

 

Este é um texto que ficou grandinho, porque é a adaptação de um trecho da crítica da  Bienal de São Paulo que vou publicar no próximo número da revista Arte & Ensaios, do Programa de Pós-Graduação da Escola de Belas Artes da UFRJ. Tirei as notas e gordurinhas próprias do outro formato. Mas este também pode ser um roteiro para um ponto importante desta edição da mostra. Espero que cheguem até o fim :-)

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Um dos momentos muito felizes da curadoria nesta Bienal de São Paulo está na passagem entre os dois “lados” do terceiro andar do prédio. No projeto arquitetônico labiríntico e fragmentado proposto por Marta Bogéa, outro ponto alto desta edição, há um falso fim de espaço expositivo  na altura do terreiro A pele do invisível, criado pelo esloveno Tobias Putrih, com a instalação A origem do terceiro mundo, de Henrique Oliveira, funcionando como uma das passagens possíveis para o espaço onde estão as obras de Leonilson e Efrain Almeida. Migramos assim do corpo da cidade e da arte para o corpo propriamente dito, com os tecidos bordados por Leonilson e obra de Oliveira funcionando como encruzilhadas entre estas duas vertentes.

 

 

Batizado de Alvorada, o terreiro de Tobias Putrih  faz referência à impressionante fachada criada por Oscar Niemeyer para o Palácio da Alvorada, em Brasília, com uma única coluna, estelar, repetida em série. Este é um espaço dedicado à exibição de vídeos e vai funcionar ininterruptamente na Bienal. O interessante é que o artista esloveno corrompe a visão de Niemeyer com um corpo menos harmônico e menos otimista que nossa arquitetura moderna. Por trás do arremedo de palácio há um revestimento de papelão e fita adesiva, revelando cicatrizes e remendos da cidade.  O nome do prédio, Alvorada, também é digno de nota: um novo amanhecer é também uma esperança e as marcas de fita crepe por trás da beleza de Niemeyer mostram que um dia não começa sem a herança da noite passada.

Metáfora para a urbe, tão presente nesta Bienal, mas também alusão a outros corpos – a arte, a pele – o terreiro tem uma vizinhança que só lhe acrescenta sentidos.  De dentro da estrutura de Putrih se enxerga Faça você mesmo: território liberdade e O país inventado (Dias-de-Deus-dará), dois clássicos de Antonio Dias.

Os dois clássicos de Antonio Dias: território da invenção

A bandeira vermelha do segundo trabalho é feita de um retângulo com o canto superior direito ausente, recortado – marca recorrente na obra do artista – , sinal de uma falta que aponta para a impossibilidade de uma totalidade, de um absoluto, levando territórios e definições para o eixo das mutações constantes. Fincar uma bandeira incompleta relê de muitas maneiras o gesto de demarcação de fronteiras, de apropriação de terreno, de conquista de Oeste. Cigano na vida e na obra, Dias também cria um mapa virtual, mutável, em Território liberdade – há um espaço simbólico a ser explorado.

 

Na sala de Senise, arte erguida a partir de seus próprios restos

 

Se por um lado saímos do terreiro enxergando Antonio Dias, por outro se vê Alvorada de dentro da sala onde está O Sol me ensinou que a história não é tudo, de Daniel Senise.  Desenvolvimento e radicalização de Eva, trabalho apresentado no fim do ano passado no Centro Cultural São Paulo (relembre clicando aqui, aqui e aqui), a instalação reveste as paredes do espaço com a “outra pintura” que caracteriza o trabalho do artista carioca. Placas feitas a partir do processamento de restos de convites, folders e catálogos de exposições constroem e pintam o espaço de arte com os vestígios e os resíduos da própria arte.

Outra aproximação curiosa é a de Skira, trabalho de Senise que fica do lado de fora da sala do artista, com a janela do prédio da Fundação Bienal, outra obra de Niemeyer. Feito de páginas de livros de arte marcadas pela falta de uma imagem, a pintura sem pincel e sem tinta constrói com colagem de papéis de tons diferentes um grande escaninho ou uma típica fachada modernista. Se por uma lado se comunica com Alvorada pela alusão direta à arquitetura,  por outro o trabalho de Senise cria um diálogo com as faltas do território de Antonio Dias.

Como Putrih, Senise está falando de memória e de deriva. Em última instância, ambos discutem também a possibilidade de sobrevivência da arte em um mundo repleto de imagens e transbordando excessos. Esta ideia é ampliada pelo fato de A pele do invisível ser o terreiro da reprodução de outros vídeos, isto é, ser o palco contínuo para o movimento e a efemeridade das imagens. Há uma costura sutil e impressionante feita pelos curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos na construção deste outro mapa que arranja as proximidades entre trabalhos em uma Bienal.

A fachada modernista de Senise, feita em papel, e a janela real, de Niemeyer

 

 

A origem do mundo, de Gustave Courbet

A passagem criada pelo trabalho de Henrique Oliveira é um túnel real e simbólico para os pensamentos da curadoria. Dá corpo, literalmente, a este segmento da exposição. A forma da saída da instalação do artista e o título do trabalho nos levam diretamente para a pintura A origem do mundo, de Gustave Courbet. É interessante pensar numa reinvenção desta vulva clássica, que na obra de agora é revestida com tapumes precários usados em construção. Não estamos falando do mundo, aquele criado biblicamente por Adão e Eva, mas ironicamente do Terceiro Mundo.  O buraco é mais embaixo, com perdão do trocadilho.

De qualquer maneira, há no trabalho do artista paulista uma fusão do corpo orgânico, com seus fluidos, sua pele e sua imperfeição, com as veias e artérias urbanas. E ainda com um outro corpo, quase invisível, que permeia e dá feições aos extratos sociais. É como se Oliveira tornasse os indicadores demográficos mais tangíveis, dando-lhes carne e vísceras. Parindo-os, enfim.

A fenda de Henrique Oliveira: parindo sentidos

 

A fenda de A origem do Terceiro Mundo deságua nos bordados e na pintura de Leonilson. Cor, corpo e diário íntimo reunidos em um só suporte, a obra do artista se relaciona diretamente com o “outro lado” do túnel, não só por questões estéticas, mas também por outras, que tampouco são irrelevantes: as do afeto. Leonilson é contemporâneo de Senise e ambos são expoentes de uma geração que, mais do que retomar a pintura, deu a ela novos alicerces. Os dois foram grandes amigos.

Para o meu vizinho de sonhos (1991) ,  um dos trabalhos de Leonilson incluídos na exposição, é quase uma ponte para a bandeira faltosa de Antonio Dias. Morando fora do Brasil desde os anos 1960, Dias recebeu Leonilson em Milão, quando a carreira do pintor começava a decolar. Também é um grande colecionador do artista, que morreu vítima da Aids em 1993.

 

 

O autorretrato de Efrain e a pintura de Leonilson: homens e artistas

As marcas do corpo, presentes na vida e na obra de Leonilson, também estão nos autorretratos escultóricos de Efrain Almeida. Talhadas em madeira, estas peças têm como título o nome do artista e mostram seu corpo tatuado por motivos da cultura popular brasileira. O que se apresenta aqui, mais uma vez, é um território nublado e intangível entre as figuras do artista e do homem.  Do palácio mendigo de Tobias Putrih às miniaturas que  Efrain cria de si mesmo, o que se vê sempre é uma membrana translúcida e frágil. Ela deveria delimitar arte e vida, mas o que estas obras afirmam é que, quanto mais se tenta separar, mais estas fronteiras se amalgamam.

No lugar do torniquete, o que há é a sangria, o fluxo, a enchente.

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As fotos do terreiro de Putrih e da sala/instalação de Senise são de Vanda Klabin e Nara Reis, respectivamente.  A elas o meu muito obrigada! As outras foram tiradas pela equipe do blog, ou seja, eu mesma…


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Informação

6 respostas

29 09 2010
Affonso Leitão

Monica Tachotte

O post ao qual vc estaria se referindo : ”…que é da aproximação de artistas diferentes, datas diferentes, localidades diferentes,…” não seria o post Pontos Cardeais, de 22/09/10?

E aí, o que vc achou do trabalho de Artur Barrio na Bienal?Algum comentário?

Abs

Affonso Leitão/RJ

29 09 2010
Affonso Leitão

Daniela Name

Bom ter notícias do Franco Terranova através do seu blog.Guardo viva na memória a lembrança das exposições às quais fui na Petite Galerie.Assim como guardo com muito carinho na minha biblioteca o catálogo:Petite Galerie:1954/1988-Uma Visão da Arte Brasileira.Que narra a belíssima trajetória da galeria.Saudades da Petite.Que só era Petite no nome.

Bom tbém ter achado o seu blog.Sinto falta de matérias sobre arte de cunho mais crítico/pessoal nos jornais.O blog supre este espaço,hoje e a meu ver, de uma certa forma neglicenciado pela grande imprensa.

Melhor ainda estar podendo acompanhar a Bienal através dos seus artigos.Claros e concisos.Não é a toa que tenho lido, a exemplo do comentário do Terranova, outros comentários similares a respeito aqui no blog.

Abs

Affonso Leitão/RJ

PS:Jean-Michel Basquiat:A criança radiante, é um ótimo documentário do Festival de Cinema do Rio.Ainda vai ter uma última exibição dia 30/09, amanhã, no cine Glória , às 20hs.O código do filme é GL029.
Vou tentar ir ver Louise Bourgeois: a aranha, a amante e a tangerina.Que vc referencia no post seguinte a esse.Está na minha lista.Vamos ver se vai dar para eu ir.

29 09 2010
Monica Tachotte

Dani gostei muito da relação que você fez em seu texto da obra de Henrique Oliveira com a de Courbet! Tenho que confessar que não foi umas das obras que mais me chamou atenção….
Mas um dos pontos que gostaria de destacar da Bienal é as relações entre as obras, achei lindo quando eu sai do Artur Bairro no finalzinho do terceiro andar e encontrei o Leonilson, nossa, bom demais!!
E depois da minha caminha pela Bienal, fiquei pensando o quanto o evento é importante para o país e lembrando de uma trechinho que eu lí no seu blog (não lembro mais qual é o texto!!!) que é da aproximação de artistas diferentes, datas diferentes, localidades diferentes, mas há dialogo entre os trabalhos e que realmente a equipe de curadores soube manejar muito bem a organização das obras pelo espaço.
Bom, vou parar por aqui!!!

Abraços,
Monica Tachotte

28 09 2010
ana maria santeiro

muito bom seu texto Daniela. Parabéns!

28 09 2010
franco terranova

querida daniela
não foi ainda ver a bienal irei no proximo mes de outubro mas já o resumo
do trecho de seu texto que vai sair em arte e ensaios me está dando uma idéia bem clara de pelomenos parte desta bienal como sempre seu talento em saber ver as coisas e dizer algo significante e intelligivel sobre estas coisas é indiscutível e agradeço você por isto
receba meu abraço afetuoso
franco

28 09 2010
danielaname

Querido Franco, um elogio seu vale por dois. Sou sua fã. Um beijo enorme, Dani

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