PIPA – Cinthia Marcelle

25 10 2010

Cinthia Marcelle durante a execução de "Cruzada"

 

Cinthia Marcelle é a terceira entrevistada dentre os quatro finalistas do PIPA. Antes, tivemos Marcius Galan (aqui) e Marcello Moscheta (aqui). Agora falta apenas Renata Lucas. O resultado do prêmio sai esta semana, no dia 28, quinta-feira, e os trabalhos incluídos nesta primeira final do projeto estão em exposição no MAM do Rio.

Para entender como foi definida a ordem de publicação das entrevistas e ler uma análise do PIPA, clique aqui.

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Frame do vídeo "Cruzada", que concorre ao PIPA

 

‘As fronteiras são reinventadas o tempo todo, tanto na arte quanto no mundo’

A terra de Minas Gerais frequentemente aparece nos trabalhos de Cinthia Marcelle. A artista nasceu em Belo Horizonte, em 1974, mas o solo vermelho não é um índice de demarcação regional, muito pelo contrário. Em Cruzada, vídeo com o qual ela concorre ao Prêmio PIPA, e também em outros trabalhos, a terra é quase a marca de um lugar nenhum, território fugidio que se disputa, se renegocia e se reaprende, rumo a novas fronteiras. Os limites e contaminações entre linguagens distintas norteia esta Cruzada. O título do vídeo se refere à encruzilhada, construída especialmente para o trabalho,onde quatro grupos de instrumentistas vestidos com cores distintas tenta se misturar para tocar uma única música. Mas Cruzada, a palavra, traz em seu baú de significados mil outras histórias. Entre elas a da Guerra da Reconquista, com inúmeras batalhas travadas entre mouros e cristãos, grupos distintos antes fortalecidos na Península Ibérica por longo legado de trocas culturais. A construção de uma linguagem, presente no vídeo, tem seu contraponto na instalação Sobre este mesmo mundo, que está na Bienal de São Paulo. Nela, um quadro negro traz os vestígios de exercícios e palavras apagadas, enquanto diante dele vê-se montanhas de pó de giz lembrando tudo o que já foi escrito. “É como se a muralha da linguagem, todos esses códigos através do qual nos relacionamos com a realidade, estivesse desmoronado”, diz Cinthia.  Nesta entrevista, ela cita Robert Smithson, lista influências como Leonilson e o cinema de John Cassavetes e, é claro, analisa como vivemos no mundo em que as fronteiras estão cada vez mais mutantes e elásticas.

*Cruzada, vídeo que você apresenta na exposição do MAM, mostra um embaralhamento de cores e sons em um cruzamento de uma estrada deserta. Você está, de alguma maneira, falando de linguagem?

CINTHIA MARCELLE: Acho que Cruzada se aproxima de uma outra obra recente minha, Sobre este mesmo mundo, conceitualmente falando. A instalação do quadro negro trabalha o acúmulo e apagamento da linguagem, buscando algo como o grau zero de sentido. É como se a muralha da linguagem, todos esses códigos através do qual nos relacionamos com a realidade, estivesse desmoronado. No vídeo Cruzada, do encontro/confrontação/mistura entre cores e sons surge uma nova língua, uma mesma canção que impulsiona a todos pelos quatro cantos do mundo.  Morte e nascimento da linguagem: penso que não foi por acaso que a obra do quadro negro me surgiu na Europa, o dito Velho Mundo, e o novo vídeo no Brasil. Leia o resto deste artigo »





Barrão

24 10 2010

Vista da exposição na Laura Marsiaj

Evitei escrever no blog nos últimos dias, porque não conseguia pensar em nada diferente do que a pequena-grande exposição de Barrão na Galeria Laura Marsiaj. E, como ele é um dos artistas de meu projeto “Ficções”, no Programa Novos Curadores, não queria que isso fosse interpretado como uma espécie de campanha. Agora, com a votação popular quase no fim, peço desculpas por ignorar o “quase” (menos de uma hora)  e finalmente botar este post no ar.

Peço licença, ainda, pela segunda parte do texto, que é extremamente pessoal. Mas em que outro lugar eu poderia fazer assim, não é mesmo?

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O post é longo. Perdão por isso também. Juro que quem chegar até o fim vai entender a razão.

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Barrão na Laura Marsiaj

As quatro esculturas de Barrão na Laura Marsiaj mais uma vez usam o acúmulo e a associação de ideias presentes na obra do artista desde os 1980, quando ele agrupava óculos, TVs e outros objetos da cultura de massa em trabalhos híbridos, entre a escultura e o vídeo.

Há cerca de seis anos, Barrão começou a estilhaçar objetos de louça – alguns decorativos; outros funcionais – e a juntar estes pedaços de origem diversa em esculturas que buscam uma nova unidade, criam um objeto virgem, fresco, com o refugo dos outros. Esta sobreposição e resignificação de imagens, tão comum em sua geração, no caso do artista não se dá de forma etérea, enviesada, quase virtual. Aproxima-se no plano geral, mas neste ponto específico difere um pouco dos trabalhos de uma “outra pintura” – expandida, heterogênea – que foi amadurecendo entre seus contemporâneos.

Na obra de Barrão, o corpo dos trabalhos é constituído pela própria citação, que transforma a escultura em um Frankenstein lírico, alegórico, clownesco. Como o monstro do romance de Mary Shelley, suas peças são formadas por matéria “morta”, quebrada, destruída, esfacelada, que ganha uma outra vida pelas mãos do criador.

Na exposição da Laura Marsiaj, as peças de parede têm elefantes, símbolo de boa sorte, sabedoria e memória. Nas quatro, o animal é um suporte real e simbólico. Em uma delas, a tromba serve de gancho para um pesado cacho-mandala feito de Budas; sua imagem é uma passagem para a Índia e para equilíbrio quase improvável atingido pelo trabalho. Em outra, é mesclado a abacaxi e cauda de felino em uma euforia barroca, kitsch e tropical.

Garimpeiro de antiquários e feirinhas, Barrão tem como meta a casualidade de seus encontros com as peças. Sua criação nasce deste jogo contrário com o acaso e a destruição.

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PIPA – Marcelo Moscheta

19 10 2010

Marcelo Moscheta em seu ateliê, em Campinas

Marcelo Moscheta é o segundo finalista do PIPA a ser entrevistado pelo blog. A primeira entrevista da série foi com Marcius Galan (veja aqui).  As perguntas dos convidados podem interromper as minhas, que depois retomam seu curso. As dos convidados são identificadas com seus respectivos nomes; as minhas, com o sinal de *.

Leia aqui como foi definida a ordem dos entrevistados.

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Detalhe de "33 montanhas": acúmulo da obra "conversa" com idade do artista

‘A paisagem é um contraponto para o ser humano medir a si mesmo’

Marcelo Moscheta é um expedicionário. Colecionador das coisas do mundo, cataloga montanhas, nuvens, pedras, paisagens via satélite, vazios reais e simbólicos dos mapas. Nascido em São José do Rio Preto, em 1976, ele vive e trabalha em Campinas e tem no desenho a linha fundamental de seu trabalho, mas, nesta entrevista bem humoradíssima, conta que quer “ser escultor quando crescer”. As obras que apresenta no MAM, para a final do PIPA, 33 montanhas e Void, têm no grafite sua matéria-prima básica. Mas realmente já sonham com o espaço, apontam para a terceira dimensão. Enquanto troca as fraldas do segundo filho e passa noites sem dormir, Moscheta saboreia o amadurecimento de uma carreira que não precisou ser gerada nos grandes centros para aparecer. Perseguindo salões e editais de todo o país, ele mostrou que a arte brasileira já sente o poder das cidades periféricas – no melhor dos sentidos. Minucioso, metódico, afirma que o grande prazer da arte é poder reordenar o mundo seguindo os sistemas da própria criatividade. Projetando o futuro para daqui a 5 anos, talvez continue morando em  Campinas, mas quer ter a oportunidade de conhecer ao vivo, em viagens pelo planeta, alguns dos fiordes, cânions e geleiras que retratou pelo que imaginava, sem nunca ter visto.

"Circulo Polar Ártico", de 2007

*Olho para seus trabalhos e sempre me lembro de Tintin, o jornalista viajante que explorou o mundo inteiro nas histórias em quadrinhos. Este lado catalográfico, quase expedicionário, é uma das coisas que te move?

MARCELO MOSCHETA: Certamente, tenho imenso prazer em organizar coisas! A ideia de poder reorganizar, reclassificar, reordenar o mundo segundo meus próprios critérios é fascinante e acho que tem tudo a ver com a origem da obra de arte. O artista é alguém que se propõe a “renomear” as coisas e as relações que há no mundo segundo outros critérios que não os da natureza e da cultura já pré-estabelecida.

E também, é claro, gosto muito da “estética organizacional” usada nos meus trabalhos, um certo cientificismo barato, muito mais gráfico do que investigativo. Tudo isso porque a ideia de completude dentro da obra assume parâmetros mais abrangentes quando adicionado o dado científico/racional, por exemplo, quando insiro uma localização de GPS (latitude/longitude) sobre um desenho, torno-o mais verídico, pois existe um dado objetivo que acrescenta uma certa autoridade sobre a construção da obra pelo artista, que é um procedimento geralmente mais subjetivo.

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Clarice e a Bienal (de Arte)

18 10 2010

Um dos momentos mais interessantes da Bienal de São Paulo em termos de aproximação obra a obra é aquele em que transforma Hélio Oiticica e Clarice Lispector em vizinhos. Ele com Seja marginal, seja herói e o bólide para o traficante Cara de Cavalo, entre outros trabalhos nascidos de sua experiência no Morro da Mangueira. Ela, com um trecho da última entrevista que deu na vida, para Gastão Moreira, da TV Cultura, em 1977.

Com rosto e economia verbal de uma esfinge, a autora de A hora da estrela e Paixão segundo G.H. afirma que o conto Mineirinho, feito a partir da morte deste bandido pela polícia carioca, dividia com O ovo e a galinha o posto de sua obra favorita.

“Mataram Mineirinho com 13 tiros, quando bastava dar um”, diz ela no vídeo abaixo. (O pedaço que está na Bienal começa aproximadamente em 2’10″)

A seguir, você lê trechos de Mineirinho, publicado originalmente no livro A Legião Estrangeira, de 1964. Leia o resto deste artigo »





PIPA – Marcius Galan

18 10 2010

 

Marcius Galan em foto publicada pelo Uol, às vésperas da inauguração da Bienal

A primeira entrevista da série com os finalistas do Prêmio PIPA é com Marcius Galan. Veja como vai ser a série aqui.

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Galan monta seu trabalho "Intersecção" no MAM do Rio

‘Meu trabalho é um desenho incompleto, e que nunca vai se completar’

Estar diante de um trabalho de Marcius Galan é perceber o quanto a matemática, especialmente a geometria, pode nos levar para o campo das sensações e para um estado de suspensão, próximo da espiritualidade. Nascido em Indianápolis, nos Estados Unidos, em 1972, Galan foi criado em São Paulo e participa da exposição de finalistas do PIPA com a instalação sonora Intersecção. Ao apresentar o som de um lápis sobre o papel, o artista investiga novas possibilidades para o desenho, um motor quase invisível para sua obra desde sempre.  Nesta entrevista, ele fala da relação com a arquitetura e a cidade, presente em seus trabalhos na Bienal de São Paulo; do enfrentamento com o espectador no ambiente que acaba de ser inaugurado em Inhotim; e da influência de artistas como Waltercio Caldas, Gordon Matta-Clark, Cildo Meireles e Lúcia Nogueira.

Em seu trabalho para a final do PIPA, em que duas caixas de som amplificam a tarefa silenciosa de fazer círculos a lápis, o desenho volta a aparecer como em outros momentos de sua obra: de maneira enviesada, indireta. O desenho é um bom fantasma que sempre te assombra?

MARCIUS GALAN: Apesar de muito poucas vezes ter apresentado desenhos como trabalho final, meu trabalho lida quase o tempo todo com a ideia de desenho. O desenho é também importantíssimo para o meu processo, faço muitos cadernos que são pensamentos soltos, rabiscos sem muito sentido e de tempo em tempo redesenho sobre as coisas antigas. É um exercício sem cronologia e isso me ajuda a manter as questões anteriores quase descartadas ligadas ao que estou pensando no momento. Muitas vezes desses encontros saem as coisas que me interessam. Nesse sentido posso dizer que entendo meu trabalho como um desenho incompleto, e que nunca vai se completar. Intersecção, que estou mostrando no prêmio PIPA, veio de um trabalho que apresentei na exposição OIDARADIO, organizada pela Kiki Mazzucchelli e pelo Nick Graham-Smith, que era uma exposição de rádio no Paço das Artes. O meu trabalho chamava-se Desenhos ao vivo, e era uma espécie de performance sonora, transmitida de um estúdio ao vivo onde eu desenhava com um lápis microfonado. Os desenhos circulares tinham um rítimo que ia crescendo. Eu me interessava em tentar propor um reconhecimento do desenho por outro sentido que não a visão.

Intersecção também tenta propor esse mesmo exercício, mas tem um interesse pelo espaço, um lado escultural também, as caixas ficam mais em silêncio do que com os ruídos. Esse silêncio entre duas caixas de som é interrompido por um desenho banal, um círculo no papel, que amplificado ganha força. É um limite que se torna variável, se expande pelo espaço e se dissolve, pretendia dar ao ruído discreto e íntimo do desenho a gravidade de um tremor ou uma força da natureza qualquer, algo que desrespeita a organização espacial, o desenho, o projeto, o planejamento urbano, as fronteiras e os limites das áreas estabelecidas pelo próprio desenho.

Matemática e arquitetura são outras matrizes importantes no seu trabalho. Poderia falar um pouco de cada uma delas?

GALAN: Meu trabalho lida com o básico da matemática, meu interesse está nas operações simples que definem coisas essências. Tenho um conhecimento muito limitado, mas no caso da geometria, me interessava muito pensar como partiu de uma disciplina filosófica e caminhou para uma ciência prática. As falhas desse percurso me interessam como por exemplo as definições de ponto, onde não se atribui tamanho, peso e forma para esse elemento. Porém uma vez que se desenha um ponto ele tem tudo isso, ele passa a ocupar um lugar e ter tamanho e contraria já de partida sua definição. Sobre isso trata meu trabalho da Bienal.

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Nuno Ramos na Folha de SP

17 10 2010

Artigo de Nuno Ramos publicado hoje no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, sobre sua instalação Bandeira Branca, na Bienal de São Paulo. Ilustração de Rafael Campos Rocha.

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Bandeira branca, amor

Em defesa da soberba e do arbítrio da arte

NUNO RAMOS



PROCUREI INTENCIONALMENTE matar três urubus de fome e de sede no prédio da Bienal de São Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, além de espelhos, para que batessem a cabeça durante o voo. Construí túneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para forçá-los a voar, costumo lançar rojões em sua direção.

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Pipas

14 10 2010

Vamos publicar a partir de amanhã entrevistas com os finalistas do Prêmio PIPA, que têm suas obras expostas no piso térreo do MAM.  Ao promover estas conversas, o blog pretende aproveitar-se descaradamente do prêmio, com todo o respeito, para mostrar um pouco do processo de criação e do pensamento de quatro excelentes artistas: Cinthia Marcelle, Marcelo Moscheta, Marcius Galan e Renata Lucas.

A publicação vai obedecer a ordem de resposta dos entrevistados. Todos receberam as perguntas no mesmo dia. Marcius Galan será o primeiro, já que também foi o primeiro a responder. Não necessariamente vai haver uma sequência perfeita entre os posts, que podem ser entrecortados por outros assuntos.

Para realizar estas simpáticas sabatinas, contei com a ajuda de dois convidados especialíssimos, que mandaram cada um sua pergunta para os quatro finalistas: o curador, crítico de arte e professor Marcelo Campos, do Rio de Janeiro; e o jornalista e curador Mario Gioia, de São Paulo. Luxo.

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Autor visitante – 1

13 10 2010

A estreia desta seção é com o jornalista, diretor e roteirista Eduardo Souza Lima,  ou Zé José, editor da revista on line Zé Pereira, que você precisa conhecer. Ele publicou lá – e a gente replica abaixo – uma ótima crítica de Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro, de José Padilha.

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O herói possível

Disseram que o Capitão Nascimento era fascista, mas eu acho que mereci quando ele me deu na cara e me chamou de maconheiro vagabundo. Eu lá deveria esperar respeito ou consideração de quem é obrigado a botar o dele na reta porque não mexo o meu nem para defender um simples luxo? Lembro-me que quando trabalhava no “Globo”, volta e meia a gente tentava emplacar uma matéria sobre a descriminalização das drogas, mas raramente encontrava alguém disposto a se comprometer – papai não quer artista maconheiro no baile de debutante da filhinha. A galera quer mais é ver “Cidade de Deus”; curtir o seu faroestezinho e posar de cidadão consciente sem que nenhum subalterno cometa a indelicadeza de lhe apontar o dedo e dizer “a culpa também é sua”. Alguém já se tocou que o Capitão Nascimento é vilão no asfalto e herói no morro?

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