Mudança de pele*

20 02 2011

"lambe lambe troca troca" na galeria do Espaço Cultural Sergio Porto

Em Eros e Psique, Fernando Pessoa “conta a lenda que dormia/ Uma Princesa encantada/ A quem só despertaria/ Um Infante, que viria/Do além do muro da estrada”. Narra o sono profundo desta bela adormecida, sonhando com alguém que nem sabe quem é. E mostra como o bravo cavaleiro enfrenta o duro caminho a torre, onde  “encontra a hera,/ E vê que ele mesmo era/ A Princesa que dormia”. Eu sou o outro e o outro sou eu, parece dizer o poeta português, que se travestiu de tantos heterônimos, tantas identidades. O mesmo nos afirma a obra do jovem artista carioca Daniel Toledo.

Em lambe lambe troca troca (2010), exposição realizada recentemente no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio de Janeiro, o artista fazia uma síntese de vários trabalhos anteriores ao transformar a galeria em uma sucessão de muros, onde se via o próprio Toledo, alguns de seus companheiros no coletivo OPAVIVARÁ! e outros nomes da cena contemporânea do Rio intercambiando peças de roupa, como se estivessem numa ciranda infinita, ou numa brincadeira de “Escravos de Jó”.

"Interditados em Paris": "roupas" para as esculturas clássicas nuas

A roupa – pele cultural inventada para se sobrepor à pele real, revestimento do corpo – há muito percorre a trajetória de Toledo.  Em 2008, com o trabalho Interditados em Paris, o artista revestiu estátuas clássicas do École de Beaux Arts, na capital francesa, com plástico vermelho e branco, criando para as obras – todas mostravam corpos nus – uma vestimenta inusitada, imaginária. Este ruído, presença contemporânea em obra de outro tempo, seria revisitado no Rio, onde ele fez a performance Cabeção interditado (2009), em que cobria com faixas usadas para isolar áreas em construção o busto gigantesco do ex-ditador brasileiro Getúlio Vargas, instalado no memorial dedicado a ele no bairro da Glória.  A roupa voltaria com força ainda em veste nu (2010), macacões em que o artista imprimia a fotografia do próprio corpo e o da artista Ana Hupe completamente despidos. A conclusão do trabalho se dava no momento em que os dois se vestiam da imagem de seus corpos revelados, cobrindo-os com uma nudez ressignificada.

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