Missa para Paulo Reis

27 04 2011

Detalhe de "Sete Quedas", de Reginaldo Pereira, incluída por Paulo Reis na Paralela 2010, em SP

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir

Fim, de Mário de Sá-Carneiro

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A marchande Paola Colacurcio, da Projetti, marcou Missa de Sétimo Dia para o querido Paulo Reis (1960-2011). O curador, crítico de arte e jornalista faleceu em Lisboa, no último dia 23 de abril. Vai ser lembrado nesta sexta, 29, em cerimônia que começa às 18h na Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na rua do Ouvidor, 5, Centro.

Eu me despeço dele mais uma vez com um detalhe de Sete Quedas, trabalho de Reginaldo Pereira incluído por Paulo na exposição A contemplação do mundo. A mostra, Paralela 2010 da Bienal de São Paulo, impressionava pela relação criada pelo curador entre arte e água. Impregnado pelo mar de Portugal, ele unia artistas de poéticas muito diversas – Marcos Chaves, Sandra Cinto, Laura Vinci, Thiago Rocha Pitta, Pedro Motta, Paulo Nenflídio, Felipe Barbosa, Adriana Varejão, Márcia Xavier – tendo a água como fio-condutor.

Não fui à abertura, queria ver a exposição com calma. Cheguei ao Galpão perto da Luz no dia seguinte ao vernissage e encontrei Paulo atendendo jornalistas. Plácido, feliz. Tentei ficar quieta, para não atrapalhar, mas ele parou o que estava fazendo para vir conversar. Comentamos trabalhos, falamos da vida e ele me deu dicas e conselhos, sem que eu pedisse, como era sua característica. Todos maravilhosos. No fim do papo, uma ordem: “Seja ainda mais rápida que a sua pressa, mas se divertindo. Bota a mala nas costas, se avia, fica um mês em Berlim, vem mais para São Paulo. O mundo é de quem ganha o mundo e você nasceu pra isso, mocinha”.

O “mocinha” foi mais uma generosidade sua, Paulo. Comprei até mala nova em Salvador, pensando em você, dias antes de você partir, dada a minha disposição em te obedecer. Mas infelizmente vou rever Lisboa – esta cidade tão aquática – sem comer contigo o pastel de nata que a gente se prometeu. Eu também lavo meu rosto com lágrimas salgadas ao lembrar deste momento gostoso naquele galpão quase vazio, feliz por ter te conhecido.

Um beijo, querido. A única certeza é a de que qualquer dia a gente se vê.





Curso: pintura no POP

25 04 2011

"Os pensamentos do coração", de Leonilson

Vou dar o curso A pintura brasileira depois do conceitualismo a partir desta quinta-feira, dia 28, no Pólo de Pensamento Contemporâneo (POP), no Jardim Botânico. Adaptação de minha dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da EBA-UFRJ, as aulas vão investigar as estratégias de sobrevivência da pintura como linguagem depois da chamada “desmaterialização da arte”.

Depois de uma introdução a movimentos e trajetórias fora do Brasil, como o Neoexpressionismo alemão, a Transvanguarda italiana e a obra de Jean-Michel Basquiat, analisaremos trabalhos de artistas nacionais, como Daniel Senise, Beatriz Milhazes, Leonilson, Zerbini, Nuno Ramos, Karim Lambrecht, Leda Catunda, Suzana Queiroga e Sergio Romagnolo, chegando até a nova geração de pintores que, no Rio, vem sendo formada majoritariamente pelo Parque Lage e pela EBA.

A ementa completa do curso está aqui, bem como maiores informações para matrículas. Ainda há vagas.

Eu e o POP esperamos vocês, com muita alegria por poder conversar sobre este assunto.





Ele é o rio, ela é a nuvem.*

17 04 2011

O rio cai em ribanceiras da parede, gruda no piso, se divide em afluentes e se multiplica em satisfações ao tingir o branco da galeria com lagos vermelhos, cachoeiras roxas, piscinas de mil azuis naturais, uma Atlântida doce e furta-cor… Ou um Reino das Águas Claras revelando seus palácios, belezas submersas. Há ainda poças prateadas, holográficas, que de relance servem de espelho para a vizinhança. Esta superfície brilhante pode ser uma das maneiras para avistar o horizonte onde ela, a nuvem, já se insinua.

 Ah, a nuvem. Ela parece discreta até que se nota sua capacidade de ganhar todo o ambiente, mais a parte de fora e a de dentro de nossas ideias. Com a cabeça nas nuvens – ela também se ramifica para frutificar – enxergamos seus desenhos de metamorfose. Variam, é claro, de acordo com a imaginação: são mandalas, flores, o peixe e a rede, animais de todo tipo. A nuvem é teia, adere às quinas e às vigas com um trabalho paciente de conquista do espaço. Muda de cor, tira partido da luz, oferece sutilezas ao humor. Vaporosa, às vezes é carneirinho, em outras relampeja… Enquanto se movimenta na direção do rio.

Este é o ponto de encontro: Pedro Varela, o rio; Carolina Ponte, a nuvem. Ela pode chover e engordar o rio. Ele pode evaporar e ampliar a nuvem. Um pode se alimentar do outro sem deixar de ser quem era. A manutenção de cada identidade passa justamente pelo ligeiro abalo que vem do embate com uma potência que é outro estado do mesmo elemento. Luta e cópula com o igual que é diverso.

“Como o rio as nuvens são água,/ Refleti-las também sem mágoa/ Nas profundidades tranquilas”, escreveu um dia Manuel Bandeira. Tão diferentes e tão semelhantes, este rio e esta nuvem. Tão autônomos e tão cúmplices – na carreira e na vida – os dois artistas desta exposição.

De suas pororocas e suas enchentes nascem mais dois encontros. O primeiro entre as obras de Varela e Ponte – dois talentos da jovem geração da arte contemporânea carioca – com o público da CAIXA Cultural de Salvador. Há ainda o cruzamento entre este prédio histórico da capital baiana e os desenhos-pinturas-esculturas (a classificação não importa, são estados da mesma arte). Feitos em papel, adesivos ou crochê, eles se oferecem à arquitetura peculiar e sinuosa da Galeria dos Arcos. A sala, por sua vez, permite que suas curvas se transformem em leito fértil para o rio; em céu de brigadeiro para a nuvem.

A própria CAIXA é o ponto de equilíbrio para esta água boa.

Vai ter colheita.

*Este é o “texto de parede”, como chamamos no jargão da área, que escrevi para apresentar Pontos de encontro, exposição de Carolina Ponte e Pedro Varela, ao público baiano. A mostra será inaugurada terça-feira, dia 19, na Caixa Cultural de Salvador. 

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BASTIDORES DA EXPOSIÇÃO:

Conversa com educativo:

Carolina

Pedro





Hora da vidraça

15 04 2011

Ou: como votei no PIPA 2011

Fui uma das indicadoras do Prêmio PIPA este ano. Agora que a organização já divulgou todos os indicados, sinto-me na obrigação de explicar como cheguei à minha lista de cinco. Jamais vou revelar os nomes em que votei, mas sim os critérios que me nortearam até eles, argumentando sobre como eliminei outros artistas que admiro muito – e com os quais, na maioria dos casos, privava de intimidade maior do que a que mantenho com alguns que ficaram com uma “vaga”. Um de meus indicados nunca vi pessoalmente. Conheço a obra, há anos, e ela sempre me surpreendeu.

Talvez a minha não-escolha tenha significado uma não-escolha do prêmio – isto é, o fato de eu não ter listado determinado nome tenha acabado colaborando para uma não-indicação daquele artista na lista final de 2011. Por este motivo, é ainda mais importante revelar como foi feita a seleção, já que todo prêmio e todo júri têm diante si a responsabilidade de estarem lidando com as expectativas de inúmeros criadores.

A situação fica ainda mais grave se pensamos que vivemos em um país onde os prêmios e salões são praticamente os únicos incentivos, em termos financeiros e de visibilidade, que eles têm para seus trabalhos. Há pouquíssimas bolsas fora do meio acadêmico; não há cursos, não há programas de aprofundamento. Graças a isso, por uma distorção que precisa ser cada vez mais debatida, prêmios e salões viram ao mesmo tempo bússola e vitrine para a nova produção.

A história de um prêmio de arte precisa entrar em consonância com a história do meio em que está inserido. Usei este blog para alavancar um debate a partir da divulgação dos  30 pré-selecionados na última edição do Prêmio Marcantonio Vilaça (lembre aqui). A discussão acabou nos levando ao Banco de Portfolios, ferramenta totalmente gratuita que tem como objetivo diminuir a distância entre o trabalho dos artistas de várias partes do país e críticos, curadores e pesquisadores que moram em outros estados.

Por tudo o que foi dito acima, é importante para mim tentar demonstrar alguma coerência na hora de minha própria escolha. Toda lista é subjetiva, no fim das contas, porque, mesmo quando há critérios – e é preciso que haja -, a escolha desta regra em detrimento daquela é feita sob o crivo imperfeito de nossa humanidade.

Vamos então ao meu código de conduta, neste momento em que preparo minha própria vidraça.  Com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

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Critérios de seleção para o Pipa 2011 – Daniela Name

Este texto é uma adaptação da minha justificativa de voto, enviada ao PIPA de forma espontânea, como um anexo às justificativas (opcionais) que os indicadores são convidados a fazer sobre cada nome que escolhem. Optei por justificar longamente cada um que indiquei e ainda demonstrar como cheguei a eles. É uma adaptação desta segunda etapa que apresento abaixo.

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Carolina e Luiza na Biblioteca

15 04 2011

Uma das fotos da série "Sobre umbrais e afins", de Luiza Baldan

Carolina Ponte: tecendo mundos

O catálogo da individual de Carolina Ponte na Zipper, em São Paulo, e o folder de Sobre umbrais e afins, exposição de Luiza Baldan na Plataforma Revólver, em Lisboa, são as novidades na nossa Biblioteca Virtual. Esta segunda mostra teve curadoria de Felipe Scovino, que assina o texto sobre a artista. O catálogo de Carolina tem apresentação escrita por esta que vos fala.

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Já temos publicações de artistas como Daniel Senise, Suzana Queiroga, Nuno Ramos, Tatiana Blass e Ana Holck em nossa Biblioteca Virual.

Colabore com a ampliação do acervo, mandando sua publicação que teve distribuição gratuita, seja ela folder, catálogo ou livro. Para saber como, clique aqui.





Dose dupla na Cosmocopa

14 04 2011

 

"Garimpo", um dos trabalhos de Rodrigo Oliveira na Cosmocopa, a partir de hoje

A galeria Cosmocopa, no Shopping dos Antiquários, inaugura hoje a exposição do artista português Rodrigo Oliveira.  Entre os trabalhos está Garimpos – Posicionamentos estratégicos, em que a pintura aplicada sobre pratos de madeira faz referência às pedras preciosas de Minas Gerais.

Junto com a abertura, a partir das 19h, a galeria sedia o lançamento de Pintura como ato de fronteira (Editora Apicuri, R$ 25), livro de Hugo Houayek (capa à esquerda). Com prefácio de Marisa Flórido, a edição corresponde à dissertação de mestrado do artista e faz parte da Coleção Pensamento em Arte. O preço de capa, bem camarada, é um estímulo à difusão dos textos escritos sobre arte no país.

Houayek, que trabalha com infláveis e superfícies reflexivas em seu trabalho como pintor, investiga as estratégias que a pintura contemporânea precisou usar para conseguir se manter no mundo como uma linguagem possível.





Convite para amanhã

12 04 2011

Ouvir o artista sobre seu próprio trabalho é sempre o melhor negócio para um crítico ou curador. Depois é possível falar ou escrever melhor, discernindo, coando, realizando suas própria conexões. Por isso fiquei tão contente ao ser chamada para participar deste papo com Álvaro Seixas. Vou “entrevistar” o jovem pintor junto uma ótima colega, a Luiza Interlenghi.

Quem quiser ir para o papo precisa confirmar com a Amarelonegro, no e.mail amarelonegro@amarelonegro.com ou nos telefones que estão no convite, abaixo:





Pausa para nota cabotina

12 04 2011

Já podemos divulgar o elenco de Mapas invisíveis em São Paulo. A versão paulistana da exposição, com  inauguração prevista para o dia 30 de agosto, na CAIXA Cultural da Paulista, vai exigir muito fôlego desta curadora que vos fala:

 

 

 

Cinthia Marcelle & Marilá Dardot

Laerte Ramos

Lenora de Barros

Lucia Koch

Marcelo Moscheta

Marcius Galan

Paulo Nenflídio

Tatiana Blass

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Não é brinquedo, não.

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Em breve o blog da mostra será atualizado com o processo dos trabalhos em São Paulo. Há artistas com os mapas escolhidos. É o caso de Galan, que vai se debruçar sobre a Avenida Paulista. E das mineiras Cinthia e Marilá, que, em dupla, vão mergulhar na Sé.








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