Este blog entrou em polvorosa quando a Piraquê começou a alterar o design de suas embalagens de biscoitos e massas, jogando fora o projeto pioneiro realizado pela artista Lygia Pape nos anos 1960 (lembre aqui e aqui). Os últimos três produtos que tinham ficado com o desenho de Lygia – Maria, Maizena e Goiabinha – já começaram a ter suas embalagens pioradas, como mostra a foto tirada hoje pela manhã, em um supermercado no bairro carioca do Arpoador. A troca acontece justamente no momento em que eu e Felipe Scovino nos preparamos para dar um curso sobre o lado designer de artistas concretos e neoconcretos. A partir de sexta-feira, na Casa do Saber, Diálogo concreto vai fazer um panorama do construtivismo brasileiro a partir de produtos como os da Piraquê e as latas de sardinhas Coqueiro, estas últimas projeto do paulista Alexandre Wollner. (leia no fim deste texto).
Na foto xereta acima, você vê que a embalagem do Maizena ganhou imensa tarja, que adultera o efeito óptico e bailarino proposto por Lygia, que antes envolvia toda a embalagem; a do Goiabinha ganhou mais área branca e tarja em volta da imagem dos biscoitos, cuja pilha seriada (quatro biscoitos deitados e um em pé) também sugere movimento, usando um recurso próprio do construtivismo. O Maria ganhou um vermelho mais vivo, mas continua bastante próximo do original.
Criticar a mudança, como dissemos anteriormente, não é um exercício de nostalgia gratuito. O problema é que, além de desprezar um projeto pioneiro, a Piraquê o faz substituindo-o por versões piores, que apequenam a contribuição histórica que a fábrica deu a formação visual de sucessivas gerações de consumidores. Como todos os artistas neoconcretos e concretos que trabalharam como designers – Amilcar de Castro, Alexandre Wollner, Geraldo de Barros e Willys de Castro, só para citar alguns – Lygia aplicou todos os princípios mais arrojados do construtivismo naquele produto que iria para as gôndolas do mercado, e não para os museus.
A embalagem do Água e Sal, obra-prima, tinha um arranjo das fotografias dos biscoitos que lembrava propositalmente os Metaesquemas de Hélio Oiticica. Foi completamente destruída e “acafonada”. O mesmo aconteceu com os biscoitos de saco, caso do Presuntinho e do Queijinho (popularmente conhecido como Bolinha), que perderam a alegria, o movimento e a noção de volume propostos por Lygia.
Em novembro de 2009, o primeiro post aqui no blog comentando a situação gerou rebuliço no Twitter e no Facebook. O erro estratégico da empresa acabou sendo depois comentado por Alexandre Matias (do ótimo Trabalho Sujo), pelo incrível Update or die e pelo Blog Design, do Uol, entre outras páginas na internet. A Folha de S. Paulo também deu uma capa da Ilustrada sobre o assunto, em reportagem de Silas Martí, graças à repercussão do assunto nas redes sociais. Prova de que design é memória e afeto. E que uma transformação brusca pode mexer com os brios do consumidor.
Um recomeço para Diálogo concreto
Enquanto a Piraquê joga fora o projeto de Lygia, eu e Felipe Scovino o transformamos em um dos eixos de nosso curso Diálogo concreto, que começa nesta sexta-feira, dia 3 de junho, na Casa do Saber do Rio de Janeiro. Durante quatro semanas, vamos apresentar as transformações trazidas pelo construtivismo e seu impacto no Brasil. Em vez de abordar concretos e neoconcretos a partir de suas obras de arte, faremos isso usando o design como ponto de partida.
O curso é baseado na exposição homônima, da qual fui curadora, tendo Scovino como curador-adjunto. Diálogo concreto foi realizada na Caixa Cultural do Rio e de São Paulo, respectivamente em 2008 e 2009. Além do caso Lygia Pape-Piraquê, vamos falar de como as esculturas e desenhos de Amilcar de Castro ecoam na reforma gráfica que o artista realizou no “Jornal do Brasil”; e de como as logomarcas de Willys de Castro podem ser um espelho para seus Objetos ativos, apenas para citar dois exemplos.
A programação completa do curso pode ser vista no site da Casa do Saber, aqui.
O catálogo de Diálogo concreto pode ser lido e impresso através de nossa Biblioteca Virtual.















[...] do século passado, falecida em 2004. A situação tem sido acompanhada por gente boa como Daniela Name e outros artistas, designers e consumidores em [...]