Sonia Andrade – último dia

27 11 2011

Uma das ratoeiras de "A caça"

Termina hoje, no Centro de Artes Hélio Oiticica, uma das mais importantes exposições apresentadas no circuito carioca este ano. Se você não viu Sonia Andrade – Retrospectiva 1973-1994, recomendo que corra para o HO. Com curadoria de Marisa Flórido, a mostra apresenta um panorama da obra da artista e evidencia a força de sua obra para muito além do decantado e evidente pioneirismo nas experiências com videoarte no Brasil.

"Intervalo", de 1983

Logo na entrada do HO, Sonia é apresentada a partir daquilo que mais se conhece dela: um conjunto de vídeos realizados na Suíça, em Paris e no Rio de Janeiro. Marcados pela ironia e pelo uso do corpo como um objeto perturbador e político, em situações que avizinham seu trabalho da obra de Letícia Parente, recentemente revista em outra ótima exposição  no Oi Futuro. Rever estes trabalhos de Sonia já seria motivo suficiente para ir até a Rua Luis de Camões, mas o segundo e o terceiro andares do HO revelam aspectos surpreendentes para quem tem menos intimidade com um panorama mais completo da atuação desta artista tão potente, que vem criando a partir de meios variados: foto, vídeo, caligrafia, instalação e arte postal.

Merece atenção especial a série Hydragrammas, no segundo piso. Apresentado pela primeira vez no Museu Nacional de Belas Artes, em 1993, este conjunto de mais de 100 objetos é uma espécie de inventário subjetivo, cartografia e dicionário de procedimentos e formas artísticas. Como um baralho de tarô, apinhado de imagens arquetípicas, os Hydragrammas se apresentam como uma espécie de vestígio arqueológico, mas do tempo presente. Não é possível passar imune à sala e a cada objeto nossa visão é assombrada por imagens de Duchamp, Louise Bourgeois, Artur Bispo do Rosário, como se a coleção de Sonia pudesse conter tudo o que já foi visto, embora nada seja apresentado de maneira didática ou explícita. Enxergamos tudo de relance, como no flashback de uma vida inteira que passa na memória de alguém que sabe estar prestes a morrer afogado – imagem usada por Henri Bergson para explicar o que seria a sensação de dejà vu.

No terceiro piso, vê-se a série A caça, em que imagens sacras são misturadas a ratoeiras, e um conjunto de instalações que têm como ponto de partida a relação com a fotografia. Em um dos trabalhos, Sonia apresenta fotos que tirou ao longo de oito anos e retratam o céu em uma situação específica: quando ele é marcado pela passagem de um avião, que deixa ali um rastro, como uma nuvem, desenho que marca um corpo virtual, que não está mais lá. A ideia de um inventário de coisas do mundo é mais uma vez muito marcante, assim como no trabalho vizinho, em que ela une camafeus de louça que mostram pequenos pés, como se estivessem em lápides, a uma fileira de sapatos dourados. Ascensão. E, como num bis, a ativação de uma matéria ausente, memória do corpo.

A visita se completa com o trabalho de arte postal apresentado pela artista na Bienal Internacional de São Paulo de 1977. Em um tempo no qual a internet ainda não existia, Sonia conseguiu formar um sistema radial e propositivo com os visitantes da exposição. Eles participavam de uma série de ações, entre elas enviar por Correio, para o Pavilhão do Ibirapuera imagens de suas cidades que “atualizavam” antigos postais, descongelando ícones e estereótipos e desencadeando uma reflexão sobre o  lugar que cada um ocupa no mapa. Encontrar seu lugar no mundo é, afinal de contas, a condição primeira para que se acredite na própria existência.

Parte da série “Hydragrammas”: inventário arquetípico da arte

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Eu poderia falar muito mais desta exposição que mexeu tanto comigo. Mas prefiro resumir tudo em uma única palavra, para que o eventual leitor do blog não perca tempo: vá.





Mário Lago amanhã

22 11 2011

A história do Rio de Janeiro no século XX se confunde com a biografia e com a obra multifacetada do incrível Mário Lago, cujo centenário é festejado este ano.  A Casa de Rui Barbosa abriga amanhã o seminário  Mário Lago, Um século de presença política e cultural. A programação prova, sem muita dificuldade, como a obra do ator, compositor, escritor e ativista político vai muito além de Amélia e dos inúmeros padres e jornalistas que ele interpretou na TV.

Mário foi lago vasto, imensidão.

A entrada é franca.

Na sexta-feira, o Fluminense, time de coração de Mário Lago, homenageia o artista com o show 100% Tricolor, que acontece no Salão Nobre do clube . Participação de sambistas tricolores como Cristina Buarque, Noca da Portela e Décio Carvalho, entre outros. Informações e preços aqui.

Programação no flyer abaixo.





Meryl é Thatcher

14 11 2011

Meryl Streep com as pérolas, o broche, o tailleur e o cabelo 80´s de Thatcher

Cineminha para o feriado: o diabo que não veste Prada. Foi divulgado o trailer de The iron lady, filme em que Meryl Streep interpreta a dama-de-ferro Margaret Thatcher. Primeira-ministra britânica de 1979 a 1990, esta senhora é uma triste memória para o mundo.

Dirigido por Phillyda Lloyd (britânica mais conhecida pela carreira no teatro e que trabalhou com Meryl em Mamma Mia!), o filme tem como foco os dias que antecederam a Guerra das Malvinas – ou Falklands, para os ingleses. Argentina e Grã-Bretanha disputaram o controle das ilhas e, ao garantir a vitória para sua nação, Thatcher assegurou também a longevidade no poder de seu partido Conservador, que obteve ampla votação no pleito de 1983. Para compor melhor seu papel, Meryl Streep visitou o Parlamento Britânico e assistiu até a uma sessão em que o atual primeiro-ministro, David Cameron, foi submetido a um interrogatório.

No Brasil, a estreia é prevista para fevereiro de 2012. Fico na torcida para outra grande interpretação da atriz – dá para ver pelo trailer que ela simula um sotaque britânico perfeito em expressões como “at all”, por exemplo -, mas torço igualmente para que o filme não glamurize uma das personagens mais nocivas para a política mundial de todos os tempos. Um terror também para as causas femininas: mulher chegar ao poder é o máximo. Mulher precisar virar homem quando finalmente está lá é complemente dispensável.





NY vê coleção de Rauschenberg

13 11 2011

Rauschenberg clicado por Jasper Johns em seu ateliê, Nova York, 1956: coleção é também inventário de amigos

A Gagosian Gallery da Madison Avenue, em Nova York, está com a exposição The Private Collection of Robert Rauschenberg, que fica em cartaz até o dia 23 de dezembro e pode ser uma ótima pedida para quem vai passar as festas de fim de ano por lá.

Figura fundamental para a arte americana no pós-guerra, Rauschenberg tornou mais elásticas as fronteiras entre linguagens e experimentou suportes até então incomuns e considerados precários, como os grandes murais de técnica mista em que mistura pintura sobre papel e colagens variadas, inclusive de vinil adesivo. Homem de muitos amigos e grande estímulo para jovens talentos, trocava trabalhos com todos os amigos que podia e formou uma coleção em que anotações e partituras de compositores como John Cage e coreógrafos como Merce Cunningham e Trisha Brown aparecem ao lado de obras de artistas da importância de Andy Warhol, Cy Twombly, Claes Oldenburg, Willem De Kooning, Jasper Johns, Jean Tinguely, Roy Lichtenstein e John Chamberlain. Também investiu em obras que influenciaram ou ajudam a contar a história da arte recente – comprou peças de Beuys,  Duchamp, Magritte, Muybridge – e em trabalhos de artistas mais jovens que ele, na época em início de carreira, caso do compositor David Byrne e de Robert Mapplethorpe, Bruce Nauman e Ed Ruscha.

É a primeira vez que a coleção do artista é exibida publicamente, graças a uma parceria da Gagosian com a Robert Rauschenberg Foundation.

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Veja outras obras que estão na exposição:

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Imagem do dia: Regina Parra

12 11 2011

As palavras em neón deste trabalho de Regina Parra foram instaladas no topo do Edifício dos Andradas, na Rua Ipiranga, na capital paulista, e são um projeto paralelo à individual da artista no Centro Cultural São Paulo, inaugurada no último dia 5.

Lembrei de Jenny Holzer, lembrei de Leonilson – e boas lembranças sempre podem ser uma alavanca para um reencontro com os desejos.

Bom fim de semana.

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A  foto que registra o trabalho é de Gui Mohallem.





Hoje

10 11 2011

Marcus Lontra e um bom time de artistas na Luciana Conde.





Um miau para voltar

9 11 2011

Aula felina de história da arte roubada do Facebook da grife infantil Mini Humanos. Demais, não? Achei este muro tão solar uma boa forma de descongelar o blog. Miau!





Imagem do dia: Vermeer

1 11 2011

“Menina lendo carta junto à janela”, de Veermer. Pintura a óleo, c. 1687, 83 X 64.5 cm, Staatliche Kunstsammlungen, Gemäldegalerie, Dresden.

Porque de vez em sempre é preciso voltar aos clássicos.

Este Veermer essencial chega escoltado por uma frase do dia, tirada da epígrafe do ótimo Eu vi o mundo, de Cícero Dias, recém-editado pela CosacNaify:

“Pintores, protegei vossas obras contra a vulgaridade. Sede difíceis” (Diderot).








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