Um projeto do Nino

30 09 2010

Uma das coisas gostosas desta atividade às vezes nebulosa chamada curadoria é poder assistir bem de pertinho ao processo criativo dos artistas. Ontem recebi por e.mail este croquis de Nino Cais, para uma instalação que ele vai fazer na exposição Ficções, caso nossa proposta saia vencedera dentro do Projeto Novos Curadores. Fui selecionada para a primeira edição, uma parceria entre Expomus e Paço das Artes, que você acompanha aqui, em tempo real. Estamos entrando na reta final.

Além de criar este ambiente, onde o público vai poder ler e processar suas próprias ficções, Nino vai fazer ainda uma performance e apresentar colagens inéditas. Depois que recebi este presente, saí para uma reunião com Angelo Venosa e Daniel Senise.  Vi os dois resolverem os impasses de seus trabalhos para outra mostra, Mapas invisíveis, que vai ser inaugurada em novembro e você também pode acompanhar aqui. Perceber as relações que eles faziam entre seus “mapas” e as histórias da Floresta da Tijuca e do Cemitério São João Batista deu um prazer imenso.

Como esta carga de trabalho vai me deixar sem poder fazer textos mais densos nos próximos dias,  permito-me este momento cabotino para compartilhar  o privilégio de vivermos em um país que tem tantos e tão bons artistas visuais.





Mapas invisíveis

11 08 2010

A Avenida Rio Branco nos anos 1920

Faço a curadoria da exposição “Mapas invisíveis”, que será inaugurada no dia 8 de novembro, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. O blog da mostra vai acompanhar a produção dos trabalhos inéditos de 12 artistas:  Alexandre Vogler, Angelo Venosa, Anna Bella Geiger, Daniel Senise, Daisy Xavier, Luiz Alphonsus, Luiza Baldan, Opavivará, Paulo Vivacqua, Rosângela Rennó, Suzana Queiroga e Thiago Rocha Pitta.

Para ler o texto de apresentação, clique aqui.





Balanço 2009 – Melhores exposições

6 01 2010

INDIVIDUAIS – Artistas em atividade

Angelo Venosa – Turdus

Venosa trabalha em uma das peças da exposição

Venosa trabalha em uma das peças

O escultor italo-paulistano, carioca por adoção, fez a melhor exposição individual do ano na Casa de Cultura Laura Alvim. “Turdus” é um destes raros momentos de encruzilhada em que a obra de um artista – neste caso, um grande artista – vem à tona em sua plenitude. Para lembrar das obras, criadas a partir de um crânio de sabiá guardado por Venosa durante anos,  clique aqui e leia a crítica feita na época da inauguração.

Nelson Félix

O artista ocupou as Cavalariças do Parque Lage no apagar das luzes de 2009, mostrando que é um dos bambas do site specific no Brasil. As vigas de ferro que perpassam o prédio histórico tiram o fôlego e reafirmam as Cavalariças como o palco da experimentação no Rio de Janeiro.

Nuno Ramos – Soap opera

A exposição que levou uma fábrica de sabão para a dentro da galeria Anita Schwarcz, em março, ampliou a relação de Nuno com a palavra e deixou em carne viva duas questões-chave de seu processo criativo: a morte e a ambiguidade. O sabão, originalmente um sebo nojento, ganha perfume para limpar.  Na galeria, mumificava barcos “naufragados”, de onde saía uma cantilhena ininterrupta.

Luiz Zerbini – Ruído

“Ruído” é uma exposição para ser vista muitas vezes e em silêncio. Aprofunda e torna mais sutis as relações de Zerbini com o retrato, sua especialidade desde os anos 1980, e também com a história da arte. Aproximações com as obras de Monet e Velásquez são bastante possíveis. A mostra  fica em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim até fevereiro.

Regina Silveira – Linha de sombra

A artista gaúcha ganhou, nos 20 anos do Centro Cultural Banco do Brasil, um panorama que faz justiça à  singularidade de sua trajetória. Os fantasmas que assombram e alimentam a pintura são o motor da mostra, que analisei numa crítica para a revista Bravo! Para ler, clique aqui.

Annabella Geiger – vídeos

Inquieta e multifacetada, a artista inaugurou em dezembro uma retrospectiva de seus trabalhos em vídeo no Oi Futuro. Além de fazer a documentação dos bons trabalhos de Annabella em vídeo, a mostra celebra a relação dela com o crítico Fernando Cocchiarale, curador da montagme no Oi, seu parceiro em um dos cursos mais duradouros do Parque Lage e seu interlocutor de toda uma vida.

PANORAMA

Jorge Guinle

A exposição que esteve em cartaz no MAM, com curadoria de Ronaldo Brito e Vanda Klabin, lançou novas luzes sobre a obra do pintor. Ver as pinturas durante o dia era uma aula sobre o uso da cor.

COLETIVA

Trilhas do Desejo – Rumos Visuais

A seleção feita por Paulo Sergio Duarte, inaugurada em dezembro no Paço Imperial, chama a atenção pela qualidade dos artistas – há bons trabalhos de Felipe Cohen, Rafael Alonso, Jaqueline Vojta e Tiago Romagnani, entre muitos outros – mas também pela montagem extremamente bem feita e pelos textos fluidos, diretos, sem a criptografia que por vezes mantém a crítica (e, consequentemente, a arte) afastada do público.

INTERNACIONAIS

Vanguarda Russa

"Promenade", de Marc Chagall

“Promenade”  foi o melhor quadro de  Chagall visto no Brasil em 2009 e um dos destaques desta  exposição excepcional. Sem os pecados das mostras de Matisse e Chagall, que analisaremos em um próximo post, este mergulho em um dos mais importantes movimentos artísticos da história da arte trouxe peças importantes de Kandinsky e Malévitch para o Rio e São Paulo, demonstrando por que o construtivismo está na raiz da arte contemporânea de todo o mundo ocidental.

Sophie Calle

A artista francesa é boa de marketing, mas também excelente na obra. “Cuide de você”, que ganha visita-guiada com a própria Sophie e o curador do MAM-RJ, Luiz Camillo Osorio, nesta sexta, 8 de janeiro, às 15h30, esteve antes no Sesc Pompeia, em São Paulo. É desconcertante. Leia mais aqui.

INTERVENÇÕES URBANAS

O voo de Suzana Queiroga

Voo no Parque do Flamengo

“Velofluxo” foi um projeto que assinalou o grande amadurecimento na carreira da artista.  Integrante do grupo de alunos do Parque Lage que formou a chamada “Geração 80″, Suzana encontrou no balão a síntese para a pintura expandida que caracteriza seu trabalho, que hoje funde infláveis coloridos de outros tempos com uma pesquisa originalíssima sobre os percursos e mapas – os fluxos, enfim – de cada cidade. O balão rosa-choque fez voos na Lagoa e no Parque do Flamengo.


Opavivará/ Praça Tiradentes

A intervenção do coletivo de jovens artistas foi o ponto alto da ocupação da Praça Tiradentes durante o Viradão Carioca, em junho.  Em “Pula a cerca”, escadas instaladas ao longo da grade que cerca a praça sugeriam que a população “pulasse a cerca” e ocupasse novamente o espaço público da praça, palco histórico de grandes acontecimentos da história do Rio. A coordenação do núcleo de artes visuais do evento ficou a cargo de Ana Durães e Claudia Zarvos, com produção executiva de Mauro Saraiva/Tisara. O grupo também fez ótima exposição-happening  na galeria Toulouse: “Eu amo camelô” foi inaugurada em dezembro.





Um lugar para a escultura contemporânea

10 12 2009

Obra de Raul Mourão, com a de Elisa Bracher ao fundo

No sábado agora, dia 12, às 11h, acontece a mesa-redonda de lançamento do catálogo da exposição “Experimentando espaços”, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Com curadoria de Agnaldo Farias, a exposição reúne nos jardins do museu esculturas monumentais de Afonso Tostes, Amalia Giacomini, Amélia Toledo, Arthur Lescher, Carlito Carvalhosa, Daniel Acosta, Eduardo Coimbra, Elisa Bracher, José Spaniol e Raul Mourão.

Trabalho de Eduardo Coimbra

Em meio à polêmica carioca depois de que o prefeito Eduardo Paes anunciou mais uma estátua figurativa na cidade –  em homenagem ao maestro Tom Jobim, nas proximidades do novo metrô de Ipanema – a exposição em São Paulo chama a atenção para a boa qualidade de nossa escultura contemporânea.

As obras dos artistas selecionados por Farias poderiam estar em praças e parques de qualquer cidade brasileira, misturando-se a obras de outros períodos e tornando-se acessíveis à população. Acesso franco, sem menosprezar a inteligência alheia – inteligência, é sempre bom frisar, independe de cor, credo ou classe social –  é a maior arma contra a ignorância e o desconhecimento que ainda mantém a arte contemporânea restrita a um pequeno grupo.

Além de adquirir obras novas, o Rio precisa enfrentar outro problema: a má conservação das peças monumentais já instaladas em vários pontos e (bem) incorporadas à paisagem carioca. Assinadas por artistas como Ivens Machado (na Carioca), Angelo Venosa (Praia do Leme), Waltercio Caldas (Av. Presidente Wilson), Franz Weissmann (Avenida Chile e Rua Luis de Camões) e José Resende (esquina da Rua do Rosário, altura da galeria Paulo Fernandes), elas demandam reparos e, em alguns casos, cuidados emergenciais.

"Jardim de ossos" por Afonso Tostes

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Ah, nunca é demais lembrar. O painel de azulejos de Aluísio Carvão no Leblon continua com peças faltando. O post que fez coro à campanha por sua salvação inaugurou este blog no dia 29 de agosto deste ano (leia aqui). Na época, a Fundação Parques e Jardins fez mil promessas.

Até agora… nada.





‘Gato que nasce em forno não é biscoito’

28 09 2009
"Ah", uma das esculturas da exposição da Laura Alvim

"Ah", uma das esculturas de Angelo Venosa na exposição em cartaz na Laura Alvim

A frase aí em cima era repetida pela mãe de Angelo Venosa – ele é paulista, mas mãe, pai e irmão nasceram no Sul da Itália – quando o escultor era pequeno. É um ditado popular sobre a origem das coisas, mas também sobre o processo em que elas se dão. Achei que tinha tudo a ver com o que foi conversado neste ping-pong, jogado em várias partidas, por email. Venosa, que abriu a exposição “Turdus” na semana passada, na Casa de Cultura Laura Alvim, fala da gênese das esculturas incluídas na mostra, da carreira e também de sua origem carcamana. Para ele, o jeito “chão” e “manual” da parte de baixo da bota italiana, um “corredor por onde passou tudo”,  orienta sua forma de trabalhar. “Meu rigor não é construtivo”, afirma.

No dia 8 de outubro, ele  inaugura uma outra exposição, mas não de esculturas. Vai participar do programa Amigos da Gravura do Museu Chácara do Céu com um trabalho em tiragem de 50 exemplares.

Mantive praticamente a íntegra do bate-papo virtual, não só por apreço pela informalidade, mas também para preservar o ritmo, as metáforas e a ironia de meu interlocutor.

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A boa encruzilhada de Venosa

23 09 2009

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Há muito tempo não esperava tanto por uma exposição como a de hoje à noite. Quando chegar a hora, vou descer a rua a pé até a Casa de Cultura Laura Alvim certa de que “Turdus”, um panorama de obras recentes de Angelo Venosa, vai apresentar um momento importante para o artista. Venosa é Venosa e a curadoria leva a assinatura de Lígia Canongia, que fez um excelente trabalho à frente das galerias reformadas da Laura Alvim (antes desta, vimos exposições de José Damasceno, Janaína Tschäpe  e Laura Lima). Mas minha certeza tem mais embasamento.

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Há boas e más encruzilhadas na carreira de um artista. Nas más, um criador potente pode paralisar em uma esquina,  refém de seu próprio gênio, de seus macetes, de seu sucesso. Com medo do risco, não sabe para que lado virar e acaba andando em círculos. Há alguns casos -  e, dentre eles, nomes consagrados – na arte contemporânea brasileira das últimas décadas.

Não Venosa: em visita recente a seu ateliê no Horto,  quando ele fazia os últimos preparativos para a Laura Alvim, enxerguei a boa encruzilhada. Encontro dos vários caminhos de investigação que ele persegue há anos, a reunião dos novos trabalhos  deixa claros amadurecimentos, interseções e a enorme potência deste escultor singular, que sempre percorreu sua trilha com a sabedoria de quem anda devagar.

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