PIPA – Marcius Galan

18 10 2010

 

Marcius Galan em foto publicada pelo Uol, às vésperas da inauguração da Bienal

A primeira entrevista da série com os finalistas do Prêmio PIPA é com Marcius Galan. Veja como vai ser a série aqui.

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Galan monta seu trabalho "Intersecção" no MAM do Rio

‘Meu trabalho é um desenho incompleto, e que nunca vai se completar’

Estar diante de um trabalho de Marcius Galan é perceber o quanto a matemática, especialmente a geometria, pode nos levar para o campo das sensações e para um estado de suspensão, próximo da espiritualidade. Nascido em Indianápolis, nos Estados Unidos, em 1972, Galan foi criado em São Paulo e participa da exposição de finalistas do PIPA com a instalação sonora Intersecção. Ao apresentar o som de um lápis sobre o papel, o artista investiga novas possibilidades para o desenho, um motor quase invisível para sua obra desde sempre.  Nesta entrevista, ele fala da relação com a arquitetura e a cidade, presente em seus trabalhos na Bienal de São Paulo; do enfrentamento com o espectador no ambiente que acaba de ser inaugurado em Inhotim; e da influência de artistas como Waltercio Caldas, Gordon Matta-Clark, Cildo Meireles e Lúcia Nogueira.

Em seu trabalho para a final do PIPA, em que duas caixas de som amplificam a tarefa silenciosa de fazer círculos a lápis, o desenho volta a aparecer como em outros momentos de sua obra: de maneira enviesada, indireta. O desenho é um bom fantasma que sempre te assombra?

MARCIUS GALAN: Apesar de muito poucas vezes ter apresentado desenhos como trabalho final, meu trabalho lida quase o tempo todo com a ideia de desenho. O desenho é também importantíssimo para o meu processo, faço muitos cadernos que são pensamentos soltos, rabiscos sem muito sentido e de tempo em tempo redesenho sobre as coisas antigas. É um exercício sem cronologia e isso me ajuda a manter as questões anteriores quase descartadas ligadas ao que estou pensando no momento. Muitas vezes desses encontros saem as coisas que me interessam. Nesse sentido posso dizer que entendo meu trabalho como um desenho incompleto, e que nunca vai se completar. Intersecção, que estou mostrando no prêmio PIPA, veio de um trabalho que apresentei na exposição OIDARADIO, organizada pela Kiki Mazzucchelli e pelo Nick Graham-Smith, que era uma exposição de rádio no Paço das Artes. O meu trabalho chamava-se Desenhos ao vivo, e era uma espécie de performance sonora, transmitida de um estúdio ao vivo onde eu desenhava com um lápis microfonado. Os desenhos circulares tinham um rítimo que ia crescendo. Eu me interessava em tentar propor um reconhecimento do desenho por outro sentido que não a visão.

Intersecção também tenta propor esse mesmo exercício, mas tem um interesse pelo espaço, um lado escultural também, as caixas ficam mais em silêncio do que com os ruídos. Esse silêncio entre duas caixas de som é interrompido por um desenho banal, um círculo no papel, que amplificado ganha força. É um limite que se torna variável, se expande pelo espaço e se dissolve, pretendia dar ao ruído discreto e íntimo do desenho a gravidade de um tremor ou uma força da natureza qualquer, algo que desrespeita a organização espacial, o desenho, o projeto, o planejamento urbano, as fronteiras e os limites das áreas estabelecidas pelo próprio desenho.

Matemática e arquitetura são outras matrizes importantes no seu trabalho. Poderia falar um pouco de cada uma delas?

GALAN: Meu trabalho lida com o básico da matemática, meu interesse está nas operações simples que definem coisas essências. Tenho um conhecimento muito limitado, mas no caso da geometria, me interessava muito pensar como partiu de uma disciplina filosófica e caminhou para uma ciência prática. As falhas desse percurso me interessam como por exemplo as definições de ponto, onde não se atribui tamanho, peso e forma para esse elemento. Porém uma vez que se desenha um ponto ele tem tudo isso, ele passa a ocupar um lugar e ter tamanho e contraria já de partida sua definição. Sobre isso trata meu trabalho da Bienal.

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Nuno Ramos na Folha de SP

17 10 2010

Artigo de Nuno Ramos publicado hoje no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, sobre sua instalação Bandeira Branca, na Bienal de São Paulo. Ilustração de Rafael Campos Rocha.

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Bandeira branca, amor

Em defesa da soberba e do arbítrio da arte

NUNO RAMOS



PROCUREI INTENCIONALMENTE matar três urubus de fome e de sede no prédio da Bienal de São Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, além de espelhos, para que batessem a cabeça durante o voo. Construí túneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para forçá-los a voar, costumo lançar rojões em sua direção.

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Já sem urubus

9 10 2010

"Urubus", xilogravura de Goeldi, circa de 1925

Na madrugada de ontem, os três urubus que faziam parte da instalação Bandeira Branca, de Nuno Ramos, na Bienal de São Paulo, foram retirados da obra e levados de volta para o Parque dos Falcões, em Sergipe. A instalação permanece na mostra, mas sem os animais,  e, portanto, sem sua alma. A operação aconteceu por decisão da justiça, que atendeu a uma notificação do Ibama. A entidade, que tinha autorizado previamente a presença das aves, voltou atrás depois que a obra virou foco de polêmica e foi pichada no primeiro fim de semana em que a exposição foi aberta ao público (relembre aqui, aquiaqui).

A Bienal chegou a entrar com uma ação na Justiça Federal solicitando a suspensão da notificação, mas seu pedido foi indeferido. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o veterinário do Parque dos Falcões, William dos Anjos, disse que os urubus estavam passando muito bem e que vê apenas motivos políticos na exigência de retirada das aves.

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Nuno Ramos está na Turquia e diz que só vai comentar o caso quando voltar.

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A obra de Nuno era o par perfeito para as gravuras de Goeldi também presentes na exposição, e que Bandeira Branca homenageia. A instalação acabou cumprindo de maneira trágica a tentativa de destacar uma herança soturna e anti-oba oba tropical no Brasil, um lado que insistimos em não ver, não sentir, não discutir.

Há um luto a cumprir –  e este episódio apenas o destaca, por vias muito tortas.

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E mais não falo, porque sinto vergonha desta mentalidade atrasada e tristeza por esta violência surda e cega, mas infelizmente nada muda.





Cildo na cabeça

5 10 2010

Nosso cabeçalho do blog, lá em cima, agora muda todo mês. Em setembro tivemos Maçãs falsas, de Waltercio Caldas. O de outubro é um pedacinho de Abajur, obra inédita de Cildo Meireles feita especialmente para a 29a Bienal de São Paulo e que você vê inteirinha aqui.

Sou presidente da torcida organizada do Cildo Futebol Clube, e sei que isso nem é muito original, já que o artista é uma das poucas unanimidades inteligentes de que se tem notícia.

Abajur mostra as razões para que isso aconteça.  Montado no fim do terceiro andar do prédio da Fundação Bienal, na área cedida pelo MAC, o trabalho lembra uma lanterna mágica gigantesca, projetando ao seu redor a imagem luminosa de um horizonte com céu, mar e gaivotas.  Subimos uma escada para ver a imensidão azul de perto e nos enebriarmos com a paisagem.

O que não sabemos  é que, protegida por um guarda-corpo, a lanterna esconde o segredo de sua engrenagem. Quando nos debruçamos e olhamos para baixo, percebemos que o motor que gera a luz e aquela cena de sonhos é humano. Três rapazes caminham ininterruptamente em círculos, garantindo a energia necessária para manter tudo funcionando.

Tão desconcertante quanto os urubus de Nuno Ramos, este trabalho não chocou ambientalistas e panfleteiros de ocasião, mas vai fundo na veia da política.

As aparências caem por terra e somos obrigados a pensar naqueles que suam a camisa para manter a  roda do mundo em movimento.

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Roubei o vídeo abaixo de João Saboia, no Youtube. São 30 segundos de Abajur.





O caminho do corpo

28 09 2010

"A origem do Terceiro Mundo": caminho real e simbólico para o corpo da mostra

 

 

Este é um texto que ficou grandinho, porque é a adaptação de um trecho da crítica da  Bienal de São Paulo que vou publicar no próximo número da revista Arte & Ensaios, do Programa de Pós-Graduação da Escola de Belas Artes da UFRJ. Tirei as notas e gordurinhas próprias do outro formato. Mas este também pode ser um roteiro para um ponto importante desta edição da mostra. Espero que cheguem até o fim :-)

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Um dos momentos muito felizes da curadoria nesta Bienal de São Paulo está na passagem entre os dois “lados” do terceiro andar do prédio. No projeto arquitetônico labiríntico e fragmentado proposto por Marta Bogéa, outro ponto alto desta edição, há um falso fim de espaço expositivo  na altura do terreiro A pele do invisível, criado pelo esloveno Tobias Putrih, com a instalação A origem do terceiro mundo, de Henrique Oliveira, funcionando como uma das passagens possíveis para o espaço onde estão as obras de Leonilson e Efrain Almeida. Migramos assim do corpo da cidade e da arte para o corpo propriamente dito, com os tecidos bordados por Leonilson e obra de Oliveira funcionando como encruzilhadas entre estas duas vertentes.

 

 

Batizado de Alvorada, o terreiro de Tobias Putrih  faz referência à impressionante fachada criada por Oscar Niemeyer para o Palácio da Alvorada, em Brasília, com uma única coluna, estelar, repetida em série. Este é um espaço dedicado à exibição de vídeos e vai funcionar ininterruptamente na Bienal. O interessante é que o artista esloveno corrompe a visão de Niemeyer com um corpo menos harmônico e menos otimista que nossa arquitetura moderna. Por trás do arremedo de palácio há um revestimento de papelão e fita adesiva, revelando cicatrizes e remendos da cidade.  O nome do prédio, Alvorada, também é digno de nota: um novo amanhecer é também uma esperança e as marcas de fita crepe por trás da beleza de Niemeyer mostram que um dia não começa sem a herança da noite passada.

Metáfora para a urbe, tão presente nesta Bienal, mas também alusão a outros corpos – a arte, a pele – o terreiro tem uma vizinhança que só lhe acrescenta sentidos.  De dentro da estrutura de Putrih se enxerga Faça você mesmo: território liberdade e O país inventado (Dias-de-Deus-dará), dois clássicos de Antonio Dias.

Os dois clássicos de Antonio Dias: território da invenção

A bandeira vermelha do segundo trabalho é feita de um retângulo com o canto superior direito ausente, recortado – marca recorrente na obra do artista – , sinal de uma falta que aponta para a impossibilidade de uma totalidade, de um absoluto, levando territórios e definições para o eixo das mutações constantes. Fincar uma bandeira incompleta relê de muitas maneiras o gesto de demarcação de fronteiras, de apropriação de terreno, de conquista de Oeste. Cigano na vida e na obra, Dias também cria um mapa virtual, mutável, em Território liberdade – há um espaço simbólico a ser explorado. Leia o resto deste artigo »





Picharam o Nuno

26 09 2010

Ontem a Bienal de São Paulo fechou mais cedo, às 19h, porque um homem – apoiado por um grupo com mais sete pessoas – cortou a rede de proteção de Bandeira Branca, obra de Nuno Ramos, e pichou “Liberte os urubu” (sic) em uma das bases escultóricas onde ficam os três urubus presentes no trabalho.

Falamos dos que tentam tirar partido da carniça alheia ontem, em artigo sobre Nuno e a obra (aqui). Fica a pergunta: quem são os terroristas, quem são os violentos? Há uma inversão completa de valores e um incompreensão do que é arte. Estamos mais atrasados do que eu pensava…

Para ler a notícia completa publicada no portal G1, clique aqui.

PS. Uma outra perguntinha – na verdade, duas:  Quando a classe artística vai se solidarizar com Nuno e Gil Vicente? Tá demorando um pouquinho, não?





Os bons urubus

25 09 2010

Dois dos três urubus de "Bandeira Branca": viveiro ocupa todo o vão central do prédio da Bienal, com altura de três andares

São Paulo, esta cidade que tanto amo, realmente é um lugar estranho. Depois de a OAB paulista entrar com um pedido de proibição da série Inimigos, de Gil Vicente (lembre aqui), agora entidades ambientalistas da terra da garoa fazem protesto contra a presença de três urubus em Bandeira Branca, instalação de Nuno Ramos.  O conjunto de desenhos de Gil Vicente já tinha sido exposto em quatro cidades brasileiras, sem qualquer polêmica, que dirá uma ação da OAB, entidade que outrora defendeu os direitos dos cidadãos contra a censura e a ditadura militar. O trabalho de Nuno, por sua vez, tem autorização do Ibama e em 2007 ficou dois meses no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, sem que o Planalto entrasse em cólicas por causa das aves.

Os urubus de Bandeira Branca nasceram em cativeiro, no Parque dos Falcões, em Sergipe,  que se dedica a curar aves de rapina machucadas. Nunca conheceram a vida ao ar livre e provavelmente morreriam se fossem lançados em um ambiente hostil, sem as defesas naturais que lhes foram roubadas muito antes de Nuno pensar em realizar este trabalho. O viveiro criado para eles na Bienal é muito maior do que o que possuem no Nordeste: ocupa todo o vão central do prédio criado por Oscar Niemeyer, e a altura dos três andares da Fundação Bienal.

O curioso é que a mesma São Paulo demorou demais a reagir a fatos realmente graves, como o massacre dos 111 presos do Carandiru. O “silêncio de São Paulo diante da chacina”, vocês devem lembrar, inspirou a canção Haiti, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. O Carandiru foi, aliás, o mote de outro trabalho de Nuno Ramos, a instalação 111, belíssima em sua força.

A impressão é a de que existem dois grupos de urubus nesta história. Os reais, autorizados por quem de direito,  criam na Bienal um diálogo entre o trabalho de Nuno e as gravuras noturnas de Goeldi, uma referência que sempre assombrou e enriqueceu a obra do artista. As vozes de dona Iná e Arnaldo Antunes cantando Boi da cara preta, Carcará e, é claro, Bandeira Branca, reforçam uma atmosfera de pesadelo, de luto e de desencanto, que se casa perfeitamente com o tema proposto pela Bienal este ano.

Mas há os outros urubus, aqueles que querem tirar uma casquinha da carniça alheia, fazendo estardalhaço na mídia com as ideias dos outros.

Que morram de fome.





Anri Sala e Clash

24 09 2010

Em ritmo de sexta-feira, outro vídeo incrível apresentado nesta Bienal de São Paulo, que abre ao público amanhã: Le Clash, do não menos incrível Anri Sala.  Com apenas 36 anos, Sala nasceu na Albânia e se inspirou no passado comunista do país no início da carreira. Hoje vive e trabalha em Paris e  já tem seu lugarzinho garantido na história da arte contemporânea, sobretudo por sua obra recente, que tem na memória – individual e coletiva – um dos motores mais importantes.

Neste vídeo deste ano, ele mistura os escombros de uma casa de punk rock em Bordeaux, onde o Clash se apresentou no passado, com os ecos que a canção Should I Stay or Shoud I Go ainda fazem na lembrança dos moradores da cidade. Na Bienal, uma caixinha de música instalada próxima à vidraça do pavilhão também replica as notas da tela.

Sutil e muito emocionante, o vídeo é visto aqui apenas em um trecho e numa gravação para lá de doméstica feita por esta que vos fala. Merecia melhor apuro técnico, por isso seguem dois brindes abaixo.

Um fim de semana dançante para todos!

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Um outro trabalho do artista ligado à música, a performance Spurious Emission.

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Para ouvir Shoud I Stay or Shoud I Go com The Clash.








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