Balanço 2009 – Personalidade: Ligia Canongia

5 01 2010

A personalidade de artes visuais do ano passado não poderia ser outra.  Ao reabrir as galerias da Casa de Cultura Laura Alvim, a curadora e crítica de arte Ligia Canongia mostrou que é possível fazer muito sem tanto alarde. Sem luxo,  mas com criatividade, bom gosto e sobretudo consistência, ela realizou um conjunto de cinco exposições de muita qualidade ao longo de 2009 – José Damasceno, Janaína Tschäpe, Laura Lima, Angelo Venosa e Luiz Zerbini – e as duas últimas estão entre as melhores que o Rio viu no ano, como analisaremos no próximo post.

A recuperação da Laura Alvim preenche uma lacuna importante de espaço público na Zona Sul e reaviva ainda o espírito festeiro e informal que sempre marcou a instituição.  De frente para a praia, na Vieira Souto, as galerias têm recebido gente suja de areia e calçando havaianas neste verão. Como isso é bom!

Lígia criou um catálogo simples, padrão,  para todas as mostras: com capa de papel kraft e o nome do artista em branco. Dentro, o que é fundamental:  couché, fotos em altíssima qualidade dos trabalhos, um texto de apresentação assinado por ela e eventualmente um outro texto, feito por um crítico convidado. A edição é bilingue, porque se sabe que a Laura Alvim recebe um bom número de estrangeiros, graças à sua localização. Mas também porque o catálogo é um registro importante para a história de cada artista – e um registro que vale para o mundo, não somente para quem fala português.

Sem estardalhaço nas causas, Lígia cumpriu plenamente todos os efeitos.

Vida longa para ela como curadora neste Rio de Janeiro e sucesso para a Laura Alvim em 2010.

Outros destaques do ano:

Luiz Camillo Osório assumindo a curadoria do Museu da Arte Moderna do Rio de Janeiro trouxe uma brisa nova para a casa. Sabe-se que ele vai lutar com uma agenda já previamente fechada e as limitações que sempre marcaram o MAM, mas já é visível a abertura do museu para a discussão. O auditório tem sido franqueado a críticos, artistas e pesquisadores.

No lado paulista da Ponte Aérea, é digno de nota os trabalhos perenes e competentes das curadorias de Estação Pinacoteca e do Centro Cultural São Paulo.  Valem o voo.





Visita a Zerbini

16 12 2009

Luiz Zerbini e a crítica de arte Lígia Canongia, curadora responsável pelas galerias Casa de Cultura Laura Alvim, fazem hoje, quarta-feira, 16/12, às 19h, uma visita-guiada à exposição do artista, “Ruído”, que reúne trabalhos inéditos e coroa o excelente panorama apresentado por Canongia. Com a atuação da curadora – que apresentou antes mostras excepcionais de José Damasceno e Angelo Venosa – a Laura Alvim recupera seu lugar de importante espaço para as artes no Rio.

Publico a crítica da mostra em breve.  Como também estou devendo a segunda parte do texto de Senise, agora são duas dívidas com os leitores. Mas ambos os posts virão ao ar antes que Papai Noel entre pela janela, juro.

Ah, e é bom frisar:  se você ainda não viu Zerbini, hoje é uma oportunidade e tanto para não perder uma das melhores mostras individuais do ano.





‘Gato que nasce em forno não é biscoito’

28 09 2009
"Ah", uma das esculturas da exposição da Laura Alvim

"Ah", uma das esculturas de Angelo Venosa na exposição em cartaz na Laura Alvim

A frase aí em cima era repetida pela mãe de Angelo Venosa – ele é paulista, mas mãe, pai e irmão nasceram no Sul da Itália – quando o escultor era pequeno. É um ditado popular sobre a origem das coisas, mas também sobre o processo em que elas se dão. Achei que tinha tudo a ver com o que foi conversado neste ping-pong, jogado em várias partidas, por email. Venosa, que abriu a exposição “Turdus” na semana passada, na Casa de Cultura Laura Alvim, fala da gênese das esculturas incluídas na mostra, da carreira e também de sua origem carcamana. Para ele, o jeito “chão” e “manual” da parte de baixo da bota italiana, um “corredor por onde passou tudo”,  orienta sua forma de trabalhar. “Meu rigor não é construtivo”, afirma.

No dia 8 de outubro, ele  inaugura uma outra exposição, mas não de esculturas. Vai participar do programa Amigos da Gravura do Museu Chácara do Céu com um trabalho em tiragem de 50 exemplares.

Mantive praticamente a íntegra do bate-papo virtual, não só por apreço pela informalidade, mas também para preservar o ritmo, as metáforas e a ironia de meu interlocutor.

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A boa encruzilhada de Venosa

23 09 2009

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Há muito tempo não esperava tanto por uma exposição como a de hoje à noite. Quando chegar a hora, vou descer a rua a pé até a Casa de Cultura Laura Alvim certa de que “Turdus”, um panorama de obras recentes de Angelo Venosa, vai apresentar um momento importante para o artista. Venosa é Venosa e a curadoria leva a assinatura de Lígia Canongia, que fez um excelente trabalho à frente das galerias reformadas da Laura Alvim (antes desta, vimos exposições de José Damasceno, Janaína Tschäpe  e Laura Lima). Mas minha certeza tem mais embasamento.

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Há boas e más encruzilhadas na carreira de um artista. Nas más, um criador potente pode paralisar em uma esquina,  refém de seu próprio gênio, de seus macetes, de seu sucesso. Com medo do risco, não sabe para que lado virar e acaba andando em círculos. Há alguns casos -  e, dentre eles, nomes consagrados – na arte contemporânea brasileira das últimas décadas.

Não Venosa: em visita recente a seu ateliê no Horto,  quando ele fazia os últimos preparativos para a Laura Alvim, enxerguei a boa encruzilhada. Encontro dos vários caminhos de investigação que ele persegue há anos, a reunião dos novos trabalhos  deixa claros amadurecimentos, interseções e a enorme potência deste escultor singular, que sempre percorreu sua trilha com a sabedoria de quem anda devagar.

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