Cinthia Marcelle é a terceira entrevistada dentre os quatro finalistas do PIPA. Antes, tivemos Marcius Galan (aqui) e Marcello Moscheta (aqui). Agora falta apenas Renata Lucas. O resultado do prêmio sai esta semana, no dia 28, quinta-feira, e os trabalhos incluídos nesta primeira final do projeto estão em exposição no MAM do Rio.
Para entender como foi definida a ordem de publicação das entrevistas e ler uma análise do PIPA, clique aqui.
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‘As fronteiras são reinventadas o tempo todo, tanto na arte quanto no mundo’
A terra de Minas Gerais frequentemente aparece nos trabalhos de Cinthia Marcelle. A artista nasceu em Belo Horizonte, em 1974, mas o solo vermelho não é um índice de demarcação regional, muito pelo contrário. Em Cruzada, vídeo com o qual ela concorre ao Prêmio PIPA, e também em outros trabalhos, a terra é quase a marca de um lugar nenhum, território fugidio que se disputa, se renegocia e se reaprende, rumo a novas fronteiras. Os limites e contaminações entre linguagens distintas norteia esta Cruzada. O título do vídeo se refere à encruzilhada, construída especialmente para o trabalho,onde quatro grupos de instrumentistas vestidos com cores distintas tenta se misturar para tocar uma única música. Mas Cruzada, a palavra, traz em seu baú de significados mil outras histórias. Entre elas a da Guerra da Reconquista, com inúmeras batalhas travadas entre mouros e cristãos, grupos distintos antes fortalecidos na Península Ibérica por longo legado de trocas culturais. A construção de uma linguagem, presente no vídeo, tem seu contraponto na instalação Sobre este mesmo mundo, que está na Bienal de São Paulo. Nela, um quadro negro traz os vestígios de exercícios e palavras apagadas, enquanto diante dele vê-se montanhas de pó de giz lembrando tudo o que já foi escrito. “É como se a muralha da linguagem, todos esses códigos através do qual nos relacionamos com a realidade, estivesse desmoronado”, diz Cinthia. Nesta entrevista, ela cita Robert Smithson, lista influências como Leonilson e o cinema de John Cassavetes e, é claro, analisa como vivemos no mundo em que as fronteiras estão cada vez mais mutantes e elásticas.
*Cruzada, vídeo que você apresenta na exposição do MAM, mostra um embaralhamento de cores e sons em um cruzamento de uma estrada deserta. Você está, de alguma maneira, falando de linguagem?
CINTHIA MARCELLE: Acho que Cruzada se aproxima de uma outra obra recente minha, Sobre este mesmo mundo, conceitualmente falando. A instalação do quadro negro trabalha o acúmulo e apagamento da linguagem, buscando algo como o grau zero de sentido. É como se a muralha da linguagem, todos esses códigos através do qual nos relacionamos com a realidade, estivesse desmoronado. No vídeo Cruzada, do encontro/confrontação/mistura entre cores e sons surge uma nova língua, uma mesma canção que impulsiona a todos pelos quatro cantos do mundo. Morte e nascimento da linguagem: penso que não foi por acaso que a obra do quadro negro me surgiu na Europa, o dito Velho Mundo, e o novo vídeo no Brasil. Leia o resto deste artigo »





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