Senise na França-Brasil

14 05 2011

A imagem do ateliê do artista é pisada e recebe a sujeira do processo de trabalho

Daniel Senise inaugura hoje, às 17h, na Casa França-Brasil, a exposição 2892. Na grande praça do antigo prédio da alfândega do Rio de Janeiro, o artista apresenta uma instalação feita de lençóis usados, trabalho criado há 18 anos como uma experiência de gravura pouco convencional e usando lençóis trocados com um motel – Senise dava um novo em troca de um velho. Além desta obra revista, ele mostra ao público uma série de imagens de seus ateliê na Rua Silvio Romero, na Lapa. A sala de trabalho do ateliê aparece reproduzida na tela, que foi esticada no chão e serviu como piso de Senise e seus assistentes, guardando a memória do lugar que é visto pelo público.

A série é quase um espelho invertido de Hallway, obra que o pintor apresentou em sua individual em Londres, no ano passado (lembre aqui). E também se relaciona diretamente com todos os quadros em que Senise reconstitui ambientes com tecido impressionado pelos vestígios e os relevos do assoalho daquele lugar.

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Veja abaixo imagens dos bastidores da montagem na França-Brasil, em fotos de Sergio Araújo.

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Curso: pintura no POP

25 04 2011

"Os pensamentos do coração", de Leonilson

Vou dar o curso A pintura brasileira depois do conceitualismo a partir desta quinta-feira, dia 28, no Pólo de Pensamento Contemporâneo (POP), no Jardim Botânico. Adaptação de minha dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da EBA-UFRJ, as aulas vão investigar as estratégias de sobrevivência da pintura como linguagem depois da chamada “desmaterialização da arte”.

Depois de uma introdução a movimentos e trajetórias fora do Brasil, como o Neoexpressionismo alemão, a Transvanguarda italiana e a obra de Jean-Michel Basquiat, analisaremos trabalhos de artistas nacionais, como Daniel Senise, Beatriz Milhazes, Leonilson, Zerbini, Nuno Ramos, Karim Lambrecht, Leda Catunda, Suzana Queiroga e Sergio Romagnolo, chegando até a nova geração de pintores que, no Rio, vem sendo formada majoritariamente pelo Parque Lage e pela EBA.

A ementa completa do curso está aqui, bem como maiores informações para matrículas. Ainda há vagas.

Eu e o POP esperamos vocês, com muita alegria por poder conversar sobre este assunto.





Estante cheia

21 02 2011

 

"Família em férias", de Cristina Canale, está no folder que artista doou para nosso acervo digital

O catálogo do Abre Alas 7, d’A Gentil Carioca, foi lançado no último sábado, e hoje, dois dias depois, já está na nossa Biblioteca Virtual. Gentileza da designer Lili Kemper, que deu tratamento VIP para os 19 artistas da mostra nesta publicação.

Nossas prateleiras também contam com o folder da mostra de Cristina Canale no MAM, com texto de Luiz Camillo Osorio; com os catálogos de Velofluxo, de Suzana Queiroga; e da exposição que Daniel Senise fez em Londres, no ano passado; e com várias peças da Galeria Ibeu, entre elas o catálogo da recente individual da jovem Flávia Junqueira.

Há também o folder de Bastidor, de Ana Holck, na Sala A Contemporânea do CCBB, e duas publicações do artista Fábio Carvalho e catálogos das exposições desta que vos fala como curadora.

Por fim, uma cerejinha: folder-entrevista de  Nuno Ramos sobre Fala, exposição no CCBB de Brasília que foi o primeiro lugar onde ele apresentou Bandeira branca – a instalação com urubus vivos que deixou São Paulo em cólicas durante a Bienal, mas que na capital federal não causou nenhum problema. Brasília ficou no lucro.

Obrigada a todos os nossos doadores.

Quanto a você… corre lá. Leia, veja. E engorde nossa estante com sua publicação.





Um projeto do Nino

30 09 2010

Uma das coisas gostosas desta atividade às vezes nebulosa chamada curadoria é poder assistir bem de pertinho ao processo criativo dos artistas. Ontem recebi por e.mail este croquis de Nino Cais, para uma instalação que ele vai fazer na exposição Ficções, caso nossa proposta saia vencedera dentro do Projeto Novos Curadores. Fui selecionada para a primeira edição, uma parceria entre Expomus e Paço das Artes, que você acompanha aqui, em tempo real. Estamos entrando na reta final.

Além de criar este ambiente, onde o público vai poder ler e processar suas próprias ficções, Nino vai fazer ainda uma performance e apresentar colagens inéditas. Depois que recebi este presente, saí para uma reunião com Angelo Venosa e Daniel Senise.  Vi os dois resolverem os impasses de seus trabalhos para outra mostra, Mapas invisíveis, que vai ser inaugurada em novembro e você também pode acompanhar aqui. Perceber as relações que eles faziam entre seus “mapas” e as histórias da Floresta da Tijuca e do Cemitério São João Batista deu um prazer imenso.

Como esta carga de trabalho vai me deixar sem poder fazer textos mais densos nos próximos dias,  permito-me este momento cabotino para compartilhar  o privilégio de vivermos em um país que tem tantos e tão bons artistas visuais.





O caminho do corpo

28 09 2010

"A origem do Terceiro Mundo": caminho real e simbólico para o corpo da mostra

 

 

Este é um texto que ficou grandinho, porque é a adaptação de um trecho da crítica da  Bienal de São Paulo que vou publicar no próximo número da revista Arte & Ensaios, do Programa de Pós-Graduação da Escola de Belas Artes da UFRJ. Tirei as notas e gordurinhas próprias do outro formato. Mas este também pode ser um roteiro para um ponto importante desta edição da mostra. Espero que cheguem até o fim :-)

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Um dos momentos muito felizes da curadoria nesta Bienal de São Paulo está na passagem entre os dois “lados” do terceiro andar do prédio. No projeto arquitetônico labiríntico e fragmentado proposto por Marta Bogéa, outro ponto alto desta edição, há um falso fim de espaço expositivo  na altura do terreiro A pele do invisível, criado pelo esloveno Tobias Putrih, com a instalação A origem do terceiro mundo, de Henrique Oliveira, funcionando como uma das passagens possíveis para o espaço onde estão as obras de Leonilson e Efrain Almeida. Migramos assim do corpo da cidade e da arte para o corpo propriamente dito, com os tecidos bordados por Leonilson e obra de Oliveira funcionando como encruzilhadas entre estas duas vertentes.

 

 

Batizado de Alvorada, o terreiro de Tobias Putrih  faz referência à impressionante fachada criada por Oscar Niemeyer para o Palácio da Alvorada, em Brasília, com uma única coluna, estelar, repetida em série. Este é um espaço dedicado à exibição de vídeos e vai funcionar ininterruptamente na Bienal. O interessante é que o artista esloveno corrompe a visão de Niemeyer com um corpo menos harmônico e menos otimista que nossa arquitetura moderna. Por trás do arremedo de palácio há um revestimento de papelão e fita adesiva, revelando cicatrizes e remendos da cidade.  O nome do prédio, Alvorada, também é digno de nota: um novo amanhecer é também uma esperança e as marcas de fita crepe por trás da beleza de Niemeyer mostram que um dia não começa sem a herança da noite passada.

Metáfora para a urbe, tão presente nesta Bienal, mas também alusão a outros corpos – a arte, a pele – o terreiro tem uma vizinhança que só lhe acrescenta sentidos.  De dentro da estrutura de Putrih se enxerga Faça você mesmo: território liberdade e O país inventado (Dias-de-Deus-dará), dois clássicos de Antonio Dias.

Os dois clássicos de Antonio Dias: território da invenção

A bandeira vermelha do segundo trabalho é feita de um retângulo com o canto superior direito ausente, recortado – marca recorrente na obra do artista – , sinal de uma falta que aponta para a impossibilidade de uma totalidade, de um absoluto, levando territórios e definições para o eixo das mutações constantes. Fincar uma bandeira incompleta relê de muitas maneiras o gesto de demarcação de fronteiras, de apropriação de terreno, de conquista de Oeste. Cigano na vida e na obra, Dias também cria um mapa virtual, mutável, em Território liberdade – há um espaço simbólico a ser explorado. Leia o resto deste artigo »





Mapas invisíveis

11 08 2010

A Avenida Rio Branco nos anos 1920

Faço a curadoria da exposição “Mapas invisíveis”, que será inaugurada no dia 8 de novembro, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. O blog da mostra vai acompanhar a produção dos trabalhos inéditos de 12 artistas:  Alexandre Vogler, Angelo Venosa, Anna Bella Geiger, Daniel Senise, Daisy Xavier, Luiz Alphonsus, Luiza Baldan, Opavivará, Paulo Vivacqua, Rosângela Rennó, Suzana Queiroga e Thiago Rocha Pitta.

Para ler o texto de apresentação, clique aqui.





Eva emparedada

11 03 2010

Chegou ao fim a obra em processo de Daniel Senise para o Centro Cultural São Paulo.  Em novembro do ano passado, o artista montou uma olaria dentro da instituição, onde eram produzidos tijolos feitos de gesso e papel proveniente de convites e folders de exposições de arte triturados. Com eles, emparedou pouco a pouco  ”Eva”, de Victor Brecheret. Peça mais importante do acervo do CCSP,  a escultura fica bem na entrada principal do prédio.  Ao usar restos da própria arte para criar a parede e trabalhar com a ausência de uma figura feminina – fundida à obra de um artista que representa muito para o imaginário dos paulistanos – Senise potencializou pontos importantes de sua trajetória (leia mais aqui).





No ateliê – Daniel Senise (parte 2)

10 02 2010

"Skira" (ao fundo) e "Hallway" (no chão) sendo preparados no ateliê da Lapa

Estou devendo a segunda parte da visita ao ateliê de Daniel Senise desde 2009.  Tinha dito que escreveria sobre “Eva”, obra em progresso do artista que está sendo realizada no Centro Cultural São Paulo (leia mais aqui). Mas fui atropelada por um fato novo, a exposição que Senise inaugura na Gallery 32, da Embaixada do Brasil em Londres, no próximo dia 19 de março.  Fiz o texto abaixo para apresentar trabalhos recentes do artista ao público inglês. O ateliê, como vocês vão ver, é parte importante desta nova produção.

***

Parceiro de André Breton no jornal Minotaure, o editor francês Albert Skira (1904-1973) revolucionou a produção gráfica de livros de arte ao propor uma inovação na hora de imprimir cada título: as ilustrações iam para a máquina uma a uma, garantindo assim controle e excelência da escala de cores. Depois, eram coladas individualmente nas páginas, acima de suas respectivas legendas.  Skira (2009-2010), série de trabalhos de Daniel Senise, usa páginas destes livros, publicados em sua maioria na primeira metade do século XX, para construir na superfície da tela fachadas arquitetônicas que lembram as brise soleil. Outra invenção francesa difundida mundialmente por Le Corbusier, as janelas enviesadas são parte importante da paisagem urbana do Rio de Janeiro modernista de Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy.

As páginas são usadas pelo pintor carioca depois que suas imagens originais foram suprimidas, deixando no papel a lembrança do corpo antes colado ali. A marca gera uma diferença de cor que destaca as nuances desta construção arquitetônica – e ela é, também, uma construção da própria pintura. Integrante da “Geração 80” brasileira, Senise ganhou notoriedade em um momento de euforia nostálgica em torno da pintura no mundo inteiro. O amadurecimento do trabalho do artista e de alguns de seus contemporâneos, no entanto, não significou uma “retomada” das questões pictóricas de outras épocas, como chegou a apregoar parte da crítica do período. A estratégia de sobrevivência destes pintores nada tem a ver com a saudade chorosa de tempos passados, mas com a criação de alicerces para uma “outra” pintura, muitas vezes realizada sem pincel e sem tinta. É uma pintura gerada em uma encruzilhada de ideias e  profundamente contaminada pelas experiências conceituais das décadas anteriores.

Detalhe de "Skira"

O corpo ausente que se vê nas páginas de livro de Skira sempre foi o motor da poética de Senise na direção desta pintura expandida. As legendas no papel formam uma espécie de alavanca para a memória, que tenta recuperar em seus arquivos as imagens que antes estavam acima de cada identificação.  É aí que o trabalho toca em outro ponto importante da obra do artista brasileiro: sua relação com a História da Arte. Skira cria a janela arquitetônica modernista a partir da “janela” deixada no papel pela obra de arte, citando uma terceira janela, a renascentista, matriz de toda a pintura do Ocidente.

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