‘Entrefalas’ com Glorinha

16 08 2011

"Vertical Earth kilometer", criado por De Maria para a Documenta de Kassel de 1977

A crítica de arte Glória Ferreira lança hoje, às 19h, no Parque Lage, o livro Entrefalas (Editora Zouk, R$ 54). A publicação reúne entrevistas com artistas como Lygia Pape, Franz Weissmann e Amilcar de Castro, e também curadores e críticos. Franz Meyer, por exemplo, comenta o trabalho de Walter De Maria.

O lançamento começa com um debate entre a autora e o crítico Paulo Sergio Duarte, a artista Suzana Queiroga e a jornalista Helena Celestino.

 





Estela Sokol – A formiguinha e a neve

16 06 2011

A artista paulistana Estela Sokol acaba de inaugurar individual na Gallery 32, espaço mantido pela Embaixada do Brasil em Londres. Em Secret forest, Estela realiza uma potência existente desde sempre em seu trabalho: parte para a intervenção direta de cor e luz na paisagem. Com o apoio da Fundação Bienal de São Paulo, ela enterrou placas de acrílico e apoiou bolas infláveis, ambas de tons fosforescentes, na neve dos Alpes Austríacos.

O resultado demonstra claramente que as peças em madeira e mármore criadas pela artista, além de bem resolvidas esculturas, sempre foram também um projeto. Ou aquilo que Franz Weissmann dizia de suas maquetes feitas de materiais diversos, inclusive cartolina e clipes de escritório, que ele guardava nas estantes de seu ateliê em Ipanema:

“Elas já têm aí dentro o sonho da monumentalidade, um dia vão conquistar o espaço”.

Trabalho incessante, de formiga, compensado com o sublime.

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Hélio antes de HO

13 05 2010

Um dos "Metaesquemas" de HO: vazios e cores em destaque no Itaú Cultural


Dia desses estava conversando com o curador Felipe Scovino, meu querido amigo. Era uma aula transformada em bate-papo sobre minimalismo e acabamos esbarrando em Hélio Oiticica. “Acho que ainda falta escrever muito sobre o Hélio. Mas não o que já foi escrito. É um artista pouco explorado pela crítica e faço aqui a minha mea culpa”, disse ele. Concordei de imediato e fiz a longa viagem do Fundão para casa com aquilo martelando na minha cabeça. Abaixo, tento eu também fazer meu mea culpa, mesmo que ainda ligeiro.

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Uma das maiores virtudes da exposição panorâmica “Hélio Oiticica – Museu é o mundo” –  que se despede domingo, dia 16, do  Itaú Cultural, em São Paulo –  é apresentar ao público Hélio antes de HO.

Hélio Oiticica, o artista, foi se transformando depois de sua morte em HO, o mito. Tendemos a olhar com muita insistência para seu trabalho transgressor rumo ao espaço, com penetráveis, parangolés e bólides, mas nos debruçamos com certo desleixo sobre o período seminal de sua criação, onde estão seus “Metaesquemas”, os “Relevos espaciais” e as pinturas propriamente ditas, ainda com uma paleta de cores bem variada, incluindo tons de rosa e uma escala bastante grande de azuis.

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Mais Herb & Dorothy

21 01 2010

Mais um pouquinho do documentário sobre o casal Vogel (primeiro texto aqui), que formou uma das maiores coleções de Minimalismo e New Art dos Estados Unidos com salários de classe média baixa e morando num quarto-e-sala em Nova York. Neste trecho, eles vão a National Gallery ver como anda a catalogação das peças de seu acervo para uma exposição. Ao fundo, Dorothy mostra que não perdeu o traquejo da antiga atividade ao indexar tudo o que está ali para uma das curadoras da instituição.

Mas a hora do show fica mesmo por conta de Herb. Ao dar de cara com a primeira peça que comprou com a mulher numa mesa – uma obra de John Chamberlain feita de sucata, em 1962 – pede que ela fique em outra posição, para depois explicar o motivo de ter comprado a escultura: “É muito difícil fazer uma peça pequena que parece uma peça grande”.

O curioso é que, ao girá-la,  ele faz com que ela fique apoiada em dois eixos, tornando muito mais claro o que ele mesmo diz: com os apoios e um vão na parte inferior, dá para imaginar a peça de Chamberlain como um projeto de escultura monumental, para ser instalada em espaços públicos. Lembrei de Franz Weissmann, que usava singelos clipes de papel e pedaços de cartolina para projetar, apenas com cortes e dobras, as esculturas gigantescas que hoje estão em vários lugares do Rio. Com uma estante cheia destes projetinhos em seu ateliê em Ipanema,  Weissmann dizia que a praça pública cabia ali, no clipe que entortava diante de seu interlocutor.

Sabe tuuuudo este vovô Herb.





Um lugar para a escultura contemporânea

10 12 2009

Obra de Raul Mourão, com a de Elisa Bracher ao fundo

No sábado agora, dia 12, às 11h, acontece a mesa-redonda de lançamento do catálogo da exposição “Experimentando espaços”, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Com curadoria de Agnaldo Farias, a exposição reúne nos jardins do museu esculturas monumentais de Afonso Tostes, Amalia Giacomini, Amélia Toledo, Arthur Lescher, Carlito Carvalhosa, Daniel Acosta, Eduardo Coimbra, Elisa Bracher, José Spaniol e Raul Mourão.

Trabalho de Eduardo Coimbra

Em meio à polêmica carioca depois de que o prefeito Eduardo Paes anunciou mais uma estátua figurativa na cidade –  em homenagem ao maestro Tom Jobim, nas proximidades do novo metrô de Ipanema – a exposição em São Paulo chama a atenção para a boa qualidade de nossa escultura contemporânea.

As obras dos artistas selecionados por Farias poderiam estar em praças e parques de qualquer cidade brasileira, misturando-se a obras de outros períodos e tornando-se acessíveis à população. Acesso franco, sem menosprezar a inteligência alheia – inteligência, é sempre bom frisar, independe de cor, credo ou classe social –  é a maior arma contra a ignorância e o desconhecimento que ainda mantém a arte contemporânea restrita a um pequeno grupo.

Além de adquirir obras novas, o Rio precisa enfrentar outro problema: a má conservação das peças monumentais já instaladas em vários pontos e (bem) incorporadas à paisagem carioca. Assinadas por artistas como Ivens Machado (na Carioca), Angelo Venosa (Praia do Leme), Waltercio Caldas (Av. Presidente Wilson), Franz Weissmann (Avenida Chile e Rua Luis de Camões) e José Resende (esquina da Rua do Rosário, altura da galeria Paulo Fernandes), elas demandam reparos e, em alguns casos, cuidados emergenciais.

"Jardim de ossos" por Afonso Tostes

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Ah, nunca é demais lembrar. O painel de azulejos de Aluísio Carvão no Leblon continua com peças faltando. O post que fez coro à campanha por sua salvação inaugurou este blog no dia 29 de agosto deste ano (leia aqui). Na época, a Fundação Parques e Jardins fez mil promessas.

Até agora… nada.





Hélio Oiticica e a cultura dos escombros

18 10 2009
Escultura de Franz Weissmann: obra também ameaçada, hoje armazenada num galpão em Ramos

Escultura de Franz Weissmann: também ameaçada, obra é armazenada com sacrifício pela família num galpão em Ramos

Passei o dia de ontem em clima de velório, recebendo ligações de artistas que, aos prantos, me passavam relatos dos escombros do incêndio que destruiu boa parte da obra de Hélio Oiticica,  na reserva técnica mantida por seus herdeiros numa casa no Jardim Botânico. Alguns, como a querida Suzana Queiroga, foram até a casa chorar pelo morto.  Sim, a destruição da obra de Hélio foi sua a segunda morte e, em se tratando de um artista, a extinção de sua anima, morte definitiva.

Mesmo em meio ao luto, é preciso evitar que novas tragédias aconteçam. Ontem, ao acordar com a notícia, escrevi neste blog que obra de arte não pode ser tratada como álbum de família (veja aqui). Continuo achando  a mesma coisa – há muito o que se discutir e regulamentar em relação ao papel dos parentes dos artistas na manutenção de acervos e autorizações de curadorias e livros, sem destitui-los dos direitos legítimos que têm como herdeiros.

É preciso,  no entanto, avançar na discussão. O fogo que lambeu obras fundamentais como os “Relevos espaciais” ou os caderninhos de anotação de HO – tão importantes para a compreensão de seu trabalho -, destruiu também todos os negativos de José Oiticica Filho, o JOF, pioneiro da fotografia nos anos 1940 e 1950, pai de Hélio e sua maior influência. Mais do que servir para que se crucifique apressadamente a família, o incêndio deve ser um alerta: estamos soterrados por uma cultura de escombros.

O que aconteceu à obra de HO também ameaça, neste exato momento, a obra de inúmeros artistas. Isso ocorre porque a lógica da Cultura no Brasil é completamente torta, precária, tacanha.  Vivemos em uma cidade, em um Estado e em um país onde o Poder Público deixa exclusivamente nas mãos das Leis de Incentivo – e, portanto, dos empresários da iniciativa privada – a decisão sobre a aplicação de verbas em projetos culturais.

Produtores, curadores e artistas vivem numa constante corrida do ouro, completamente desvalidos de diálogo, proteção e incentivo DIRETO por parte dos governos. A ação dos administradores públicos na Cultura não é um direito, é um dever. Eles foram eleitos para isso. Por tal motivo, não podem ser interventores nesta atuação: precisam ser sensíveis às demandas.

Se por um lado é espantoso que a família tenha mantido a obra de HO numa casa do Jardim Botânico, por outro é igualmente aterrador que nenhum grande museu do país tenha feito uma proposta concreta – e sustentada pelo poder público – para abrigar a obra do artista em regime de comodato, dando a ela toda a visibilidade e a segurança que um acervo como o de Hélio merecia.

É certo que o Centro de Artes Hélio Oiticica abrigou parte do acervo por um tempo, mas sem as condições necessárias para tal e sem uma política constante de exposições. Se por um lado a família atravancava mostras que não fossem diretamente sobre o acervo de Hélio – um erro absurdo num lugar que abrigou exposições como a de Richard Serra ou o último panorama da obra de Lygia Pape, ricas conversas com o “dono” da casa – por outro o município nunca tratou o CAHO com a prioridade necessária.

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A boa encruzilhada de Venosa

23 09 2009

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Há muito tempo não esperava tanto por uma exposição como a de hoje à noite. Quando chegar a hora, vou descer a rua a pé até a Casa de Cultura Laura Alvim certa de que “Turdus”, um panorama de obras recentes de Angelo Venosa, vai apresentar um momento importante para o artista. Venosa é Venosa e a curadoria leva a assinatura de Lígia Canongia, que fez um excelente trabalho à frente das galerias reformadas da Laura Alvim (antes desta, vimos exposições de José Damasceno, Janaína Tschäpe  e Laura Lima). Mas minha certeza tem mais embasamento.

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Há boas e más encruzilhadas na carreira de um artista. Nas más, um criador potente pode paralisar em uma esquina,  refém de seu próprio gênio, de seus macetes, de seu sucesso. Com medo do risco, não sabe para que lado virar e acaba andando em círculos. Há alguns casos -  e, dentre eles, nomes consagrados – na arte contemporânea brasileira das últimas décadas.

Não Venosa: em visita recente a seu ateliê no Horto,  quando ele fazia os últimos preparativos para a Laura Alvim, enxerguei a boa encruzilhada. Encontro dos vários caminhos de investigação que ele persegue há anos, a reunião dos novos trabalhos  deixa claros amadurecimentos, interseções e a enorme potência deste escultor singular, que sempre percorreu sua trilha com a sabedoria de quem anda devagar.

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