Inhotim – Cosmococas*

19 09 2010

Cosmococa #5, Hendrix War, 1973

Quatro “Cosmococas” feitas por Hélio Oiticica em parceria com o cineasta Neville d´Almeida ganham no dia 23 um pavilhão construído especialmente para elas em Inhotim. O projeto do prédio é do escritório Arquitetos Associados, de Belo Horizonte, que também criou a nova galeria de Miguel Rio Branco e já tinha assinado o complexo educativo de Inhotim.

Erguido como um labirinto – ao mesmo tempo imagem e processo na obra de HO – o pavilhão tem uma área central interna que é quase uma praça e convida o visitante a entrar em cada sala onde estão os trabalhos.

A Cosmococa 4, Nocagions, homenageia John Cage e o “branco sobre o branco” suprematista de Malevitch. O trabalho pode marcar uma fase de experiências mais radicais com a participação do público em Inhotim. Há uma piscina, onde é preciso entrar para perceber da água as luzes verdes e azuis que a circundam.

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Vamos voltar a HO quando falarmos da magnífica exposição em cartaz no Paço Imperial do Rio.

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Para ver outras imagens do pavilhão das Cosmococas clique aqui.
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* O blog viajou a convite de Inhotim.





Inhotim de roupa nova*

17 09 2010

Pavilhão Miguel Rio Branco

No próximo dia 23, Inhotim inaugura uma série de trabalhos novos. O Instituto de arte em Brumadinho, Minas Gerais, vai ter galerias dedicadas à obra de Miguel Rio Branco e à parceria entre Hélio Oiticica e Neville d’Almeida em quatro Cosmococas. Há ainda Desert Park, um site specific de Dominique Gonzalez-Foerster, e o Palm Pavilion de Rirkrit Tiravanija.

O diretor artístico de Inhotim, Jochen Voz, que foi co-curador da última edição da Bienal de Veneza, e o curador do Instituto, Rodrigo Moura, também fizeram mudanças nas exposições das galerias temporárias Lago, Praça e Mata, que ganharam obras do acervo assinadas por Django Hernandez, Ernesto Neto, Alexandre da Cunha, Laura Vinci, Marcius Galan e Marcellvs L.

A partir de amanhã e até segunda, falaremos da roupa nova de Inhotim em uma série de posts temáticos. Há assunto para várias viagens, reais e virtuais.

* O blog viajou a convite de Inhotim.





Hélio antes de HO

13 05 2010

Um dos "Metaesquemas" de HO: vazios e cores em destaque no Itaú Cultural


Dia desses estava conversando com o curador Felipe Scovino, meu querido amigo. Era uma aula transformada em bate-papo sobre minimalismo e acabamos esbarrando em Hélio Oiticica. “Acho que ainda falta escrever muito sobre o Hélio. Mas não o que já foi escrito. É um artista pouco explorado pela crítica e faço aqui a minha mea culpa”, disse ele. Concordei de imediato e fiz a longa viagem do Fundão para casa com aquilo martelando na minha cabeça. Abaixo, tento eu também fazer meu mea culpa, mesmo que ainda ligeiro.

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Uma das maiores virtudes da exposição panorâmica “Hélio Oiticica – Museu é o mundo” –  que se despede domingo, dia 16, do  Itaú Cultural, em São Paulo –  é apresentar ao público Hélio antes de HO.

Hélio Oiticica, o artista, foi se transformando depois de sua morte em HO, o mito. Tendemos a olhar com muita insistência para seu trabalho transgressor rumo ao espaço, com penetráveis, parangolés e bólides, mas nos debruçamos com certo desleixo sobre o período seminal de sua criação, onde estão seus “Metaesquemas”, os “Relevos espaciais” e as pinturas propriamente ditas, ainda com uma paleta de cores bem variada, incluindo tons de rosa e uma escala bastante grande de azuis.

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Balanço 2009 – Bolas fora

7 01 2010

O que não foi tão bom assim nas artes visuais em 2009.

Incêndio da obra de Hélio Oiticica: o quadro acabou sendo muito menos catastrófico do que a avaliação inicial, graças a restauros e remontagens. Mas muitas peças importantes deste que é um dos maiores artistas do país em todos os tempos foram perdidas no incêndio da reserva técnica na casa de sua família,  no Jardim Botânico. O fogo que transformou HO em cinza evidenciou a fragilidade da política para aquisição e preservação de acervo do poder público brasileiro, assim como um despreparo das instituições, dos colecionadores particulares e dos herdeiros em lidar com o assunto.  Para lembrar do caso, clique aqui.

Projeto original de Lygia para o Bolinha

Piraquê e o descarte do projeto de Lygia Pape: Foi o post mais lido do Pitadinhas em 2009 (lembre o caso aqui). Não é todo dia que uma empresa resolve jogar fora um projeto gráfico bem sucedido como criado por Lygia para biscoitos clássicos como o Bolinha ou o Presuntinho. A Folha de S. Paulo repercutiu a discussão levantada por este blog. Em entrevista ao jornal, o dono da Piraquê disse ter eliminado o projeto de Lygia para que ele não destoasse das embalagens novas, de biscoitos que surgiram depois da morte dela. Evitaria, assim, o que chamou de “samba do crioulo doido”. Ora, pois, raciocinemos juntos: não seria mais lógico preservar o projeto de Lygia e criar uma identidade visual coerente para os novos biscoitos a partir do projeto dela? Em vez de destruir o patrimônio existente não seria mais lógico construir a história visual da empresa tendo Lygia como ponto de partida?

Chagall: Mostra esperadíssima da comemoração do Ano da França no Brasil, começou em Belo Horizonte (Casa Fiat) e depois veio para o Rio (Museu Nacional de Belas Artes), foi dominada por um grande número de gravuras. Não seria grave, se este fosse um suporte tão importante para Chagall como foi para Goya ou Rembrandt, por exemplo. Não era. Além disso, as poucas pinturas existentes foram apresentadas desordenadas cronologicamente e sem legendas explicando seu contexto (as duas mulheres com quem o artista viveu foram retratadas e fundamentais no seu processo criativo e isso não foi explicado ao longo dos corredores). Para entender um pouco da biografia do artista – que fugiu do anti-semitismo da Europa e exerceu um papel bastante ambíguo durante o período dos comitês de arte soviéticos, entregando e censurando antigos amigos – era preciso ver um vídeo de 14 minutos no fim da mostra. E este, evidentemente, passava ao largo destas questões, digamos, mais “difíceis”.  Mais do que a biografia, ficou difícil para o público captar a relevância de um artista como Chagall. Por que, afinal de contas, o Brasil devia se sentir orgulhoso por receber suas obras? Não havia uma palavra sequer sobre seu papel e sua originalidade dentro do grupo dos construtivos russos e nem sobre seus flertes com o surrealismo e a obra de  fauvistas e expressionistas. Ah, é bom lembrar: a mostra, com tantas lacunas para o público, foi paga com… verba pública. Lei Rouanet. Portanto, é para o público se sentir lesado mesmo.

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Na pick up do Dodô – 3

30 10 2009

E se Hélio Oiticica tivesse um Ipod?

caetano veloso e parangoleDois sábados atrás, acordei com a notícia de que a obra de Hélio Oiticica tinha sido incendiada na casa de sua família.  Também chocado, Dodô resolveu preparar nesta Pick Up  uma homenagem nada fúnebre para HO. Se ele tivesse um Ipod, o que haveria dentro dele? Em vez de tentar imaginar, Dodô foi pesquisar nas cartas de Hélio, sempre verborrágico e metódico (guardava qualquer papelzinho), o que elas revelavam sobre a música.

Então fala aí, Hélio:

“Sempre estou com Caê, Gil, Dedé, Sandra e Guilherme, quando estou em Londres; tirei fotos de Caetano para o Pasquim (uma reportagem de Odete Lara), você viu? O lugar que Caetano e eu mais gostamos é a Round House; aos domingos eles fazem o “Implosion”, isto é, um espetáculo com grupos de pop-music, desde 3 da tarde até meia noite: todos dançam uma loucura desenfreada, é o único meio de fazer os ingleses dançarem bem, pois em geral são um fracasso; os grupos lá são sempre os maiores: Deep Purple, Who, Soft Machine etc. Marisa, escrevi um artigo sobre Bob Dylan (vi Bob Dylan a 10 metros de mim na Ilha de Wrigth, foi o show mais genial do mundo), creio que vai sair no Pasquim.”

Carta para Marisa Alvarez Lima. University of Sussex, Brighton, 9 nov. 1969

“Esse armário aqui é o Chelsea Hotel, essa geladeira é o Lower East Side. Você esteve no Filmore? Viu o MC-5? Você viu a boneca Dylan, lindíssima depois do acidente? Você entendeu aquele texto reacionário do Borroughs? Aquele boneca Christo enlouqueceu? Quer embrulhar o meu pau!! Boto o Cara de Cavalo atrás!!! Mando eliminar!!! Comigo é assim mando Johnny Karatê do Bronx correr atrás!”

Hélio apresentando sua casa no Jardim Botânico a Gerald Thomas, um adolescente recém-chegado de Nova York, 1970.


O IPOD DE HO, pelo DJ Dodô
Na continuação do post, clique no nome da música para ouvir

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Primeiro sinal:

29 10 2009

Debates no MAM pós-incêndio de HO

conv digital_politicas da arte

No próximo sábado, completam-se 15 dias do incêndio que destruiu boa parte do acervo de Hélio Oiticica. Na terça  e na quarta-feira seguintes, o MAM abre o microfone para três rodadas de debate para discutir uma política consistente para os acervos, a relação dos herdeiros com a obra de grandes artistas e o que o poder público pode fazer a respeito.

Este é apenas o primeiro sinal para os debates, que acontecem nos dias 3 (duas mesas, uma às 11h e outras às 14h) e 4 de novembro (uma mesa, às 14h) no auditório do museu.  Os nomes dos palestrantes ainda não estão 100% confirmados, por isso falaremos do seminário novamente mais adiante, passando a programação completa.

Já foram convidados herdeiros (Cesinha Oiticica, João Vergara, Clara Gerchman), artistas (Ernesto Neto, Raul Mourão e Ronald Duarte) e críticos (Luiz Camillo Osório, Paulo Sérgio Duarte, Guilherme Vergara) para compor as mesas. O tom não é de palestra e sim de uma grande assembleia, onde todos possam falar ao microfone, que estará aberto.  Mas é preciso chegar ao MAM com clareza e propostas concretas, para que o debate possa, finalmente, avançar rumo a projetos e ações que impeçam novas catástrofes.

Há uma coisa a comemorar no meio deste luto persistente. Tudo indica que o MAM está voltando a concentrar as discussões sobre arte desta cidade. Que o museu assuma mesmo este papel!

A entrada é franca é o auditório do MAM tem 180 lugares. Esperamos que não fique cadeira vaga, porque o assunto é da máxima relevância.





Ainda HO ou um pouco de história não faz mal a ninguém

21 10 2009

Fred Coelho postou este ótimo texto em seu não menos ótimo blog objeto sim objeto não. Lê aqui, vai lá.

HO CATANDO LIXO

1) O texto abaixo é fruto de uma fala de Luciano Figueiredo, um dos curadores e principal articulador e divulgador da obra de Hélio Oiticica, feita em 1999 no Museu da República. O motivo da fala era um seminário intitulado Seminário Internacional Museu em Transformação: as novas identidades dos museus, entre 11 e 15 de setembro de 1996. Ou seja, treze anos atrás.

A fala de Luciano – e antes que digam algo contra Luciano, artistas plástico, designer, curador e crítico, deixo logo claro que prefiro alguém que cuide com zelo extremado de uma obra do que alguém que não cuida de nada e acha fácil transferir responsabilidades e apontar erros alheios com a bunda na cadeira – é um resumo sobre o SENTIDO da obra de HO e de sua manutenção que, venho insistindo, era (e ainda é, seja onde estiver pois ela não acabou por inteiro) extremamente complexa de ser guardada, mantida e preservada. A fala de Luciano é datada do momento em que o Centro de Arte Hélio Oiticica tinha sido fundado. Reparem como no começo de tudo, a família e o projeto HO estavam cem por cento voltados para a parceira, o comodato e a aceitação do Centro como espaço legítimo do acervo. O que ocorreu nesses últimos treze anos é que são elas. Antes de buscarmos culpados, estudemos as histórias.

2) Antes de transcrever o texto, uma opinião pessoal sobre a perda da obra de HO no incêndio: a dor maior, para além do valor financeiro, histórico e cultural, foi a frustração de um minucioso plano de vida/morte que Oiticica traçou para si mesmo e sua obra. Artista e pensador que equilibrou como poucos o arquivista voraz e metódico com o homem que vivia apenas a fugacidade do momento em sua plena potência, a queima de seu arquivo é, em parte, a morte de seu projeto de vida, como Luciano deixa claro no texto que reproduzo aqui. E por fim, precisa ser dito que as obras queimaram, mas o pensamento e os escritos (milhares!) de HO mal começaram a serem lidos e divulgados para além do circuito de pesquisadores interessados nele. Que a morte do acervo sirva como a libertação de suas idéias. Chega de fetiches sobre Mangueira e Parangolé, que venha a descoberta de um novo patamar de seu universos estico e poético.

3) texto de Luciano Figueiredo, 1996 (grifos meus)

Rigorosamente falando, podemos dizer que a coleção de obras que forma o acervo do Projeto Hélio Oiticica foi realizada e organizada por Hélio Oiticica como um só corpo, ou seja, toda a sua produção de obras que se inicia nas décadas de 50 e 60 foi por ele executada como um todo, ou, como o próprio Oiticica viria a defini-la em seus últimos anos como uma idéia de “work in progress”, trabalho em progresso.Não tivesse Hélio Oiticica mantido a sua produção artística praticamente fora do circuito comercial das especulações mercadológicas e também institucionais, conduzindo esta produção sob rigor pessoal e decidindo exatamente quando e onde mostrar suas obras nas pouquíssimas exposições em que participou, dificilmente seria possível hoje para nós fazer uma idéia de sua singularidade ou apreciá-la plenamente. Sabemos de sobra que a obra de Hélio Oiticica foi resultado da exploração artística brasileira da década de 60 e que este é um período de nossa História da Arte marcado pelo surgimento de novas idéias, novos caminhos e novas expressões.

As obras dos artistas do movimento neoconcreto questionaram irreversivelmente a exclusividade das categorias plásticas de então e, nesse sentido, a experiência neoconcreta representa um dos estágios mais originais da história das vanguardas no Brasil; novas individualizações e ideais fora dos cânones tradicionais da arte. Assim podemos situar a produção de Oiticica como um programa de proposições artística sem precedentes dentro do sistema museológico ou mesmo institucional. Diante disso, talvez explique-se a posição estratégica que o próprio Oiticica definiu e demarcou para sua obra, através de suas ordens conceituais. Estamos falando então de um artista que concebeu, fundamentou e refletiu a própria obra de maneira sui generis. Estamos falando de um artista que colecionou antes de todos nós sua própria obra, opondo-se ao sistema comercial e mercadológico da arte. Oiticica praticamente não permitiu que esses viessem de qualquer forma a interferir com seu rigor conceitual ou seu processo de criação.

Foi precisamente durante a década de 60 que Oiticica radicalizou posições artísticas, ética e ideológicas frente a possíveis incorporações ou mesmo absorções de suas obras pelo sistema institucional que duramente questionou. Portanto, quando lembramos hoje de tais posições e estratégias que o artista estabeleceu para a própria obra, queremos mostrar que as mesmas lograram êxito em seus objetivos, pois sua obra foi de fato preservada. Se hoje torna-se viável uma relação institucional com a obra de Oiticica e isto vem a parecer algo paradoxal, creio que devemos tentar discutir a questão aos olhos da dinâmica conceitual que possuímos hoje, pois facilmente podemos concluir que Hélio Oiticica – antimuseu, antimercado, anti-instituição – deveria permanecer como tal. Ora, o próprio fato de ter sido possível existir hoje uma instituição que tem o nome do artista e abriga o conjunto de obras que produziu é bastante revelador da vitória cultural desse legado artístico para a arte brasileira e universal. Tivesse esse conjunto de obras sido dispersado ou aleatoriamente espalhado em coleções privadas, ou em diversos museus, como teria sido possível a preservação de seu significado tal como o artista concebeu? Que lugar estaria ocupando hoje na arte brasileira? A instituição, o Projeto HO, foi criada em 1981 por César e Claudio Oiticica, irmãos de Hélio, e amigos com conhecimentos técnico e conceitual que voluntariamente realizaram estudos e pesquisas tornando possível hoje a apreciação pública da vasta produção desse artista.

Este post é dedicado aos Oiticica César e Cesar Filho, a Luciano Figueiredo, Waly Salomão e Andreas Valentin.





Réquiem

18 10 2009

ESCOMBROS

A foto acima foi tirada pela artista Suzana Queiroga ontem, na reserva técnica em escombros onde a obra de Hélio Oiticica se perdeu. É nosso réquiem e nosso pranto nesta segunda morte.








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