Saudades de SP

19 07 2011

“Se, no título de um livro recente, apliquei ao Brasil (e a São
Paulo), o termo saudade, não foi por lamento de não mais estar lá.
De nada me serviria lamentar o que após tantos anos não reencontraria.
Eu evocava antes aquele aperto no coração que sentimos quando, ao
relembrar ou rever certos lugares, somos penetrados pela evidência de
que não há nada no mundo de permanente nem de estável em que possamos
nos apoiar”.

Claude Lévi-Strauss, Saudades de São Paulo.

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Fronteiriços

5 05 2011

"Feel love", de Marcio Banfi, um dos trabalhos de "Fronteiriços"

Sábado, dia 7, a partir das 11h e até as 18h, a Emma Thomas abre as portas de seu galpão (Rua Barra Funda 216) para a inauguração da exposição Fronteiriços, um dos aquecimentos do circuito de galerias de São Paulo para a SP Arte. Tenho o privilégio de assinar a curadoria de uma coletiva de feras: Alessandro Sartore, Bruno Miguel, Caroline Valansi, Erica Ferrari, Gabriel Gimmler Netto, Hugo Houayek, Jaqueline Vojta, Laerte Ramos, Letícia Lampert, Lucas Simões, Marcio Banfi, Matias Mesquita, Nazareno, Rodrigo Torres e Siri. Este último faz a performance “Vozes do samba” durante a abertura, às 17h.

Todos os participantes estão, como sugere o nome da mostra, em uma zona de fronteira entre linguagens. No jargão médico, “fronteiriço” é alguém que está no limiar entre a normalidade e a loucura, por isso este nome de batismo também tem um viés de ironia. Estamos todos bem pertinho de ambos os lados.

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Pausa para nota cabotina

12 04 2011

Já podemos divulgar o elenco de Mapas invisíveis em São Paulo. A versão paulistana da exposição, com  inauguração prevista para o dia 30 de agosto, na CAIXA Cultural da Paulista, vai exigir muito fôlego desta curadora que vos fala:

 

 

 

Cinthia Marcelle & Marilá Dardot

Laerte Ramos

Lenora de Barros

Lucia Koch

Marcelo Moscheta

Marcius Galan

Paulo Nenflídio

Tatiana Blass

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Não é brinquedo, não.

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Em breve o blog da mostra será atualizado com o processo dos trabalhos em São Paulo. Há artistas com os mapas escolhidos. É o caso de Galan, que vai se debruçar sobre a Avenida Paulista. E das mineiras Cinthia e Marilá, que, em dupla, vão mergulhar na Sé.





Laerte Ramos, ‘really made’

15 09 2010

Trabalhos da série "Anti-derrapante", presente em "Arma branca"

Laerte Ramos inaugura a exposição “Arma branca” no dia 18, sábado, na galeria Emma Thomas (Rua Barra Funda 216), em São Paulo. Vai ser um fim de semana de “esquenta” para a Bienal de São Paulo e a programação é meio maratona. No sábado, além da individual de Laerte, há Zerbini abrindo exposição no Galpão da Fortes Vilaça; o curador Hans Ulrich Olbrisch dando palestra às 15h no Teatro de Arena; e a exposição “Dengo”, de Ernesto Neto, na Fortes Vilaça. No domingo, Efrain Almeida lança livro sobre sua obra, de novo na Fortes Vilaça, entre outros destaques.

Fiz o texto de “Arma branca” para o Laerte. É só continuar lendo…

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Really made

“Isso não é um cachimbo”, sinalizou Magritte no momento em que a arte dava os primeiros passos para o fim da representação. “Isso não é um par de tênis”, também poderia avisar Laerte Ramos. Mas ele preferiu o silêncio. Os sapatos de sua produção recente são rapidamente identificados pelos modelos de marcas conhecidas, como All Star e Kic…hute, e criam a ilusão de que o artista se apropriou do estoque de alguma loja para fazê-los repousar nesta outra vitrine que é a galeria de arte. Mas Laerte caminha na contramão do ready made. O que ele faz é um really made: com o suor de muito trabalho manual, dá outro corpo para a imagem e a alma que residem em todas as coisas.

Feitos de cerâmica e pintados à mão, os tênis cobertos por padronagens de oncinha ou militares trazem na estampa os sentidos reais e simbólicos de um processo de camuflagem. Eles não são o que parecem e ao mesmo tempo se distanciam dos calçados de verdade por serem quase idênticos a eles.

Além dos tênis, “Arma branca” apresenta uma série de esculturas que tiveram como molde revólveres de brinquedo. Pintadas de preto, elas são apresentadas aos olhos do visitante como as raridades de um colecionador. Nos sapatos e nos revólveres há o mesmo jogo e a mesma ambigüidade entre aparência e essência – ou entre as palavras e as coisas, entre nome e corpo. As “armas brancas” são negras e de fato não são armas brancas (facas ou punhais). Embora sejam apresentadas como exemplares raros de uma coleção, foram importadas de modelos aparentemente inócuos, comercializados para crianças nas lojas de brinquedo.

Desde seus primeiros passos como artista, quando ainda trabalhava com xilogravura, Laerte é perseguido por temas bélicos. Tanques, paisagens de guerra e carros-forte apareciam frequentemente em suas matrizes de madeira, mas desde aqueles tempos não tinham a carga trágica de batalhas sangrentas e campos de extermínio. Eles lembravam ícones, logotipos, algo que caminhava mais para a aparência de um carrinho guardado com zelo por um menino-grande ou daquela figurinha rara do álbum completado na infância. Naquela época, o artista já dividia conosco seus brinquedos, mas eles traziam na imagem gravada a memória de uma batalha real, aquela travada no ateliê.

Ela é ainda mais visível na obra escultórica, que também foi povoada por imagens de uma guerra que parece ser conduzida por generais e soldadinhos de chumbo. Foi assim com trabalhos como “Patrulha de resgate” e “Montanhas topecreme”. Ao lidar com a cerâmica de um modo pouco comum na arte brasileira – tratando-a como o meio de trabalho e não como um detalhe de matéria-prima – o artista flerta com o imponderável. Do molde de gesso à forma final que sai do forno, administra tempos e fragilidades, e lida com eventuais baixas na trincheira: peças que se expandem demais ou de menos, quebram, desandam.

Duas obras brincaram com estes acidentes, para evidenciá-los: “Exquadrilha”, em que cerâmicas com a forma de aviõezinhos de papel tinham as pontas amassadas, como se a esquadrilha tivesse se acidentado, virado ex, saído de combate; e a performance “re.van.che”, em que objetos feitos pelo artista eram quebrados por golpes marciais.

Agora ele descobre novos jogos, brincando com significados como quem disputa um pique-esconde. Esta é a batalha de Laerte: projeto e cosa mentale, sua obra também é fluxo, acidente, mão na massa e – vejam só que delícia – diversão.





Parla!

4 06 2010

O artista paulista  Laerte Ramos ganhou o prêmio Interações Estéticas da Funarte de 2010. Voltada para a Região Norte nesta edição, a iniciativa permitiu que ele desenvolvesse um trabalho bastante interessante com a população de Marabá. Ao encarnar uma espécie de Michelângelo contemporâneo, o artista – que tem um obra diversificada, mas ficou conhecido por suas peças em cerâmica – criou esculturas moldadas no corpo de personalidades locais.

Neste vídeo, ele aparece fazendo o molde de gesso em Giddape Joé, o Cantor da Terra, celebridade do ritmo Tecnobrega. Fica fácil perceber, aliás, que o artista nem precisa soltar o “Parla!” depois do trabalho pronto, como, reza a lenda, fez Michelângelo diante de seu “Moisés”. Simpático e muito opinativo, Giddape Joé não precisa deste tipo de estímulo.

Depois da confecção dos moldes, o projeto continuou com a reprodução dos corpos modelados em argila, passando por um procedimento de mais confecções de outros moldes e reproduções usando a barbotina e queimas em fornos de alta temperatura para chegar ao resultado final: a cerâmica esmaltada em branco.

Ramos vai fazer exposição dos trabalhos em novembro, na Região Norte, e em 2011 a mostra chega a São Paulo, mais precisamente ao recém-inaugurado Galpão Baró/Emma Thomas.

Para conhecer melhor o trabalho de Laerte Ramos, clique aqui.








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