Viviane Matesco e o corpo

18 04 2010

Escrevi resenha sobre “Corpo, imagem e representação”, livro de Viviane Matesco publicado pela editora Zahar, para o Prosa e  Verso de O Globo publicado ontem, sábado, 17 de abril.  Abaixo, o texto na íntegra.

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A complexa anatomia do corpo

Ensaio expõe e analisa transformações na representação da figura humana

+++ “Corpo, imagem e representação”, de Viviane Matesco, Zahar, 64 páginas, R$ 19.

Daniela Name*

"LES DEMOISELLES D´AVIGNON", de Picasso: perda de totalidade e ponto de partida para uma nova abordagem

Viviane Matesco sempre soube falar e ser entendida. Professora há muitos anos, ela consegue prender a atenção de suas salas lotadas embalando pensamentos profundos em um discurso bem humorado e direto. Seu livro “Corpo, imagem e representação”, que acaba de ser lançado pela Coleção Arte +, da Zahar, usa a mesma estratégia e tem na clareza seu grande trunfo de sedução.

Uso aqui esta palavra, “sedução”, porque a Arte +, coleção coordenada por Glória Ferreira, surgiu com o desejo de ampliar o público de leitores de arte. Os livros de bolso adaptam dissertações de mestrado ou doutorado de todo o país e  lançam textos curtos especialmente pensados para o formato.

Adaptar a linguagem acadêmica para uma edição tão enxuta é um desafio, e talvez este lançamento encontre o tom perfeito para série. A adaptação de um dos capítulos da tese de doutorado da autora conquista o leitor com uma história bem contada, em que ela vai destilando sua visão crítica a conta-gotas.

Viviane sabe que não precisa demonstrar o coração de suas hipóteses teóricas de uma maneira monolítica, pesada. O mote para seu texto está presente o tempo inteiro, mas ele se insinua como algo natural, parte do passeio pela história da representação do corpo na arte, da Grécia Antiga ao século XX .

Viviane inicia seu trajeto com uma síntese: “Vê-nus” (1976), de Tunga.  Com um trocadilho no título – entre o nome da deusa e as palavras “ver” e “nus” – a obra é um ponto de partida para investigação da autora. Com duas bases muito fortes – a ideia de corpo perfeito do mundo grego e a interdição do corpo na tradição judaico-cristã – a arte do Ocidente vai manter um fluxo de aproximações e bloqueios do nu ao longo dos séculos.

Antes da polis grega, o corpo era um catalisador de códigos para as sociedades primitivas. As energias que moviam o universo eram indissociáveis do próprio homem, e não havia distinção entre corpo e os mundos vegetal e animal. Depois do surgimento da filosofia, especialmente de Platão, o corpo é pensado como algo ideal e norteado por valores exteriores a ele – “mais pensados do que vividos”, como lembra Viviane – já que precisava estar em equilíbrio com a alma imortal.

O corpo é despido de características peculiares nesta busca incessante da beleza. O belo do campo físico era entendido como uma cópia esforçada e imperfeita do conceito filosófico do belo, uma realidade transcendente e imutável. Por tudo isso, nu grego não representava  o corpo, ele mesmo, e sim uma tentativa de dar forma à ideia de homem.

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