Zerbini, “Amor”

17 10 2012

Um dos maiores pintores brasileiros inaugura exposição hoje no MAM.

Luiz Zerbini é um dos pilares de uma geração de afetos, que transformou a pintura numa teia de referências autobiográficas. A obra destes artistas que despontaram no início dos anos 1980 entrou para a história  com uma série de rótulos e pouca análise profunda. O tempo, este senhor tão bonito, e uma série de estudos recentes vêm mostrando que mais do que a etiqueta de “Geração 80″,   a herança que ficou daquele período talvez tenha sido a pergunta “Como vai você?”, com tudo o que ela pode conter de subjetividade, camaradagem e festa íntima.

Zerbini  é pintor de  uma paisagem simbólica, formada por amigos, paixões, referências, as coisas das quais ele gosta. Ao longo dos anos foi criando uma pintura quase invisível, no melhor e mais profundo dos sentidos. Retratou seus contemporâneos, mas também levou imagens, a atmosfera e algum raciocínio do trabalho de artistas como Daniel Senise, Beatriz Milhazes, Barrão e Angelo Venosa para dentro de sua obra. Ao fazer isso, usa de muita perícia para se diluir como autor em um rio de afetos.

Por estas e outras estou tão ansiosa para ficar diante do espelho do “Amor”.

Até mais tarde.





Instalações na SP Arte

15 05 2011

Trabalho de Carla Guagliardi no prédio da Bienal

De SP

Louvável a iniciativa da SP Arte, que este ano dedicou um andar inteiro para trabalhos de instalação/intervenção, mostrando ainda uma série de obras em vídeo.

No caso dos projetos de site specific, o prédio da Bienal nem sempre ajuda, já que a parede de vidro criada por Niemeyer – uma marca da qual o arquiteto não abre mão nem em seus projetos mais recentes, embora ela seja um tanto quanto incompatível com espaços museológicos – engole tudo o que está perto dela quando não há isolamento feito por painéis. Aconteceu isso com a bela Mamute, de Eduardo Climachauskas, por exemplo.

Mas de todo jeito foi bom ver esta composição de mármore e alumínio, bem como as galerias se mobilizando para montar trabalhos de artistas como Zilvinas Kampinas (Lamniscate é sensacional, mas dificílimo de fotografar: uma fita de Moebius “animada” por dois ventiladores de pé), Regina Silveira, Luiz Zerbini, Carla Guagliardi, Marcelo Cidade (adquirido para o MAM-SP), Paulo Vivacqua, Wagner Malta Tavares, Marepe, Ivan Navarro, Renata Padovan, Alice Miceli e Ana Holck, entre outros. Muitos foram adquiridos por colecionadores e patrocinadores para instituições culturais.

Bis!

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Zerbini: cor, espelho, ruído

22 09 2010

Inferninho, trabalho de Luiz Zerbini na 29a Bienal, é o desenvolvimento em escala mais ambiciosa de sua exposição Ruído, apresentada na Casa de Cultura Laura Alvim no início deste ano. Um grande cubo pintado com tinta reflexiva negra reflete as obras de outros artistas e funciona como retrato e espelho dos visitantes do Ibirapuera, conversando com as pinturas metálicas, cheias de interferências externas, que o artista vem produzindo.

Desde os anos 1980, Zerbini tem grande habilidade para o retrato e a paisagem, que frequentemente aparecem em seu trabalho do início da carreira associados a uma crônica do cotidiano. Cada vez mais curioso com novos suportes, o artista contamina seu trabalho com a tecnologia e o som do grupo Chelpa Ferro, do qual faz parte ao lado de Mecler e Barrão. Seu trabalho na Bienal consegue unir o binômio seminal de sua poética radicalizado no espaço e trabalhado ao lado de uma fusão poderosa entre imagem e som, cor e movimento.

Dentro do Inferninho, um jogo de luzes sincronizado com ruídos faz as cores dançarem em planos e formas geométricas. O som é como música composta para este balé com o público, que dança e percorre o espaço interagindo com esta pintura etérea. Ela também tinge, efêmera, o piso de areia do ambiente, tela irregular para uma pintura fugidia, que acontece cheia de filtros e se modifica com a experiência e sob o filtro dos corpos e dos movimentos dos visitantes.

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Paralelamente a este trabalho que para mim foi um dos mais impactantes da Bienal, Zerbini apresenta uma individual no Galpão da Galeria Fortes Vilaça, na Barra Funda. Nesta exposição, as cores e as grades geométricas vistas em Inferninho servem como suporte para a pintura com tinta e tela, que se enche de espécies botânicas e cria janelas para um jardim onírico. É como se Zerbini  fisse um pintor viajante de um mundo fantástico que está dentro de cada um e não na fronteira além-mar.

Em sua obra, a terra prometida é do lado de dentro.





Balanço 2009 – Melhores exposições

6 01 2010

INDIVIDUAIS – Artistas em atividade

Angelo Venosa – Turdus

Venosa trabalha em uma das peças da exposição

Venosa trabalha em uma das peças

O escultor italo-paulistano, carioca por adoção, fez a melhor exposição individual do ano na Casa de Cultura Laura Alvim. “Turdus” é um destes raros momentos de encruzilhada em que a obra de um artista – neste caso, um grande artista – vem à tona em sua plenitude. Para lembrar das obras, criadas a partir de um crânio de sabiá guardado por Venosa durante anos,  clique aqui e leia a crítica feita na época da inauguração.

Nelson Félix

O artista ocupou as Cavalariças do Parque Lage no apagar das luzes de 2009, mostrando que é um dos bambas do site specific no Brasil. As vigas de ferro que perpassam o prédio histórico tiram o fôlego e reafirmam as Cavalariças como o palco da experimentação no Rio de Janeiro.

Nuno Ramos – Soap opera

A exposição que levou uma fábrica de sabão para a dentro da galeria Anita Schwarcz, em março, ampliou a relação de Nuno com a palavra e deixou em carne viva duas questões-chave de seu processo criativo: a morte e a ambiguidade. O sabão, originalmente um sebo nojento, ganha perfume para limpar.  Na galeria, mumificava barcos “naufragados”, de onde saía uma cantilhena ininterrupta.

Luiz Zerbini – Ruído

“Ruído” é uma exposição para ser vista muitas vezes e em silêncio. Aprofunda e torna mais sutis as relações de Zerbini com o retrato, sua especialidade desde os anos 1980, e também com a história da arte. Aproximações com as obras de Monet e Velásquez são bastante possíveis. A mostra  fica em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim até fevereiro.

Regina Silveira – Linha de sombra

A artista gaúcha ganhou, nos 20 anos do Centro Cultural Banco do Brasil, um panorama que faz justiça à  singularidade de sua trajetória. Os fantasmas que assombram e alimentam a pintura são o motor da mostra, que analisei numa crítica para a revista Bravo! Para ler, clique aqui.

Annabella Geiger – vídeos

Inquieta e multifacetada, a artista inaugurou em dezembro uma retrospectiva de seus trabalhos em vídeo no Oi Futuro. Além de fazer a documentação dos bons trabalhos de Annabella em vídeo, a mostra celebra a relação dela com o crítico Fernando Cocchiarale, curador da montagme no Oi, seu parceiro em um dos cursos mais duradouros do Parque Lage e seu interlocutor de toda uma vida.

PANORAMA

Jorge Guinle

A exposição que esteve em cartaz no MAM, com curadoria de Ronaldo Brito e Vanda Klabin, lançou novas luzes sobre a obra do pintor. Ver as pinturas durante o dia era uma aula sobre o uso da cor.

COLETIVA

Trilhas do Desejo – Rumos Visuais

A seleção feita por Paulo Sergio Duarte, inaugurada em dezembro no Paço Imperial, chama a atenção pela qualidade dos artistas – há bons trabalhos de Felipe Cohen, Rafael Alonso, Jaqueline Vojta e Tiago Romagnani, entre muitos outros – mas também pela montagem extremamente bem feita e pelos textos fluidos, diretos, sem a criptografia que por vezes mantém a crítica (e, consequentemente, a arte) afastada do público.

INTERNACIONAIS

Vanguarda Russa

"Promenade", de Marc Chagall

“Promenade”  foi o melhor quadro de  Chagall visto no Brasil em 2009 e um dos destaques desta  exposição excepcional. Sem os pecados das mostras de Matisse e Chagall, que analisaremos em um próximo post, este mergulho em um dos mais importantes movimentos artísticos da história da arte trouxe peças importantes de Kandinsky e Malévitch para o Rio e São Paulo, demonstrando por que o construtivismo está na raiz da arte contemporânea de todo o mundo ocidental.

Sophie Calle

A artista francesa é boa de marketing, mas também excelente na obra. “Cuide de você”, que ganha visita-guiada com a própria Sophie e o curador do MAM-RJ, Luiz Camillo Osorio, nesta sexta, 8 de janeiro, às 15h30, esteve antes no Sesc Pompeia, em São Paulo. É desconcertante. Leia mais aqui.

INTERVENÇÕES URBANAS

O voo de Suzana Queiroga

Voo no Parque do Flamengo

“Velofluxo” foi um projeto que assinalou o grande amadurecimento na carreira da artista.  Integrante do grupo de alunos do Parque Lage que formou a chamada “Geração 80″, Suzana encontrou no balão a síntese para a pintura expandida que caracteriza seu trabalho, que hoje funde infláveis coloridos de outros tempos com uma pesquisa originalíssima sobre os percursos e mapas – os fluxos, enfim – de cada cidade. O balão rosa-choque fez voos na Lagoa e no Parque do Flamengo.


Opavivará/ Praça Tiradentes

A intervenção do coletivo de jovens artistas foi o ponto alto da ocupação da Praça Tiradentes durante o Viradão Carioca, em junho.  Em “Pula a cerca”, escadas instaladas ao longo da grade que cerca a praça sugeriam que a população “pulasse a cerca” e ocupasse novamente o espaço público da praça, palco histórico de grandes acontecimentos da história do Rio. A coordenação do núcleo de artes visuais do evento ficou a cargo de Ana Durães e Claudia Zarvos, com produção executiva de Mauro Saraiva/Tisara. O grupo também fez ótima exposição-happening  na galeria Toulouse: “Eu amo camelô” foi inaugurada em dezembro.





Visita a Zerbini

16 12 2009

Luiz Zerbini e a crítica de arte Lígia Canongia, curadora responsável pelas galerias Casa de Cultura Laura Alvim, fazem hoje, quarta-feira, 16/12, às 19h, uma visita-guiada à exposição do artista, “Ruído”, que reúne trabalhos inéditos e coroa o excelente panorama apresentado por Canongia. Com a atuação da curadora – que apresentou antes mostras excepcionais de José Damasceno e Angelo Venosa – a Laura Alvim recupera seu lugar de importante espaço para as artes no Rio.

Publico a crítica da mostra em breve.  Como também estou devendo a segunda parte do texto de Senise, agora são duas dívidas com os leitores. Mas ambos os posts virão ao ar antes que Papai Noel entre pela janela, juro.

Ah, e é bom frisar:  se você ainda não viu Zerbini, hoje é uma oportunidade e tanto para não perder uma das melhores mostras individuais do ano.





No ateliê – Daniel Senise (parte 1)

15 12 2009
A produção dos tijolos para "Eva" no ateliê de Senise na Lapa

Tijolos para "Eva", obra em progresso no Centro Cultural SP, no ateliê de Senise

Não poderia começar a relatar esta série de visitas que tenho feito aos artistas por outro ateliê que não fosse o de Daniel Senise, aquele onde mais estive nos últimos anos. A obra de Senise, um dos maiores nomes da chamada “Geração 80″, é o fio-condutor de minha dissertação no mestrado de História e Crítica da Arte na Escola de Belas Artes da UFRJ. Através dela e do trabalho de contemporâneos como  Beatriz Milhazes, Leda Catunda, Nuno Ramos, Luiz Zerbini e Suzana Queiroga investigo as estratégias que a pintura engendrou para permanecer como linguagem autônoma, com suas características próprias, depois da radicalização da arte conceitual.

Uma das hipóteses possíveis é a de que Senise e o grupo de artistas que sobreviveram à explosão mercadológica e um tanto marqueteira da “retomada da pintura” (muitas aspas aqui, por favor) só conseguiram esta longevidade justamente ao romper com o discurso nostálgico e eufórico daqueles primeiros anos de Parque Lage, Faap e Casa 7.

Com pontos de partida e filtros muito distintos, eles se apropriaram de procedimentos da arte conceitual para criar um projeto de pintura híbrida e expandida, que já não tem as mesmas motivações da pintura clássica, mas guarda em si toda a memória de séculos e séculos de relação com o plano, a cor, a perspectiva, o espaço arquitetônico, o retrato. É uma pintura que devora esta herança e esta história, transformando-a em outra coisa, ainda pictórica em sua espinha dorsal, mas com outras informações em sua construção.

Feita desta memória coletiva e  histórica, ela se mistura à rede de referências e de imagens de segunda geração típica dos tempos pós-modernos, importando iconografias alheias e arrasando com as hierarquias. Um dos quadros de Senise, “Last Supper” , de 1993 (clique aqui para ver), mostra isso com clareza ao mesclar um anúncio publicitário de panelas com uma das obras-primas de Michelangelo, o “Juízo final”,  na Capela Sistina, em Roma.  A chaleira do anúncio faz uma paródia ao Cristo em sua Última Ceia, cercado pelos apóstolos, e se aproxima do braço divino levantado na cena de Michelangelo a partir de seu cabo arredondado:  a alça da panela e o braço renascentista têm, na tela de Senise, gestos não só equivalentes como convergentes.

Esta pintura da geração pós-conceitual é um caleidoscópio de memórias coletivas e da própria arte, mas ecoa no repertório de cada artista e cada espectador. Talvez aí se explique, aliás, sua grande empatia com o público.

É uma longa conversa, que pode ser levada a cabo durante a visita. Vamos ao ateliê.

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