Visitando Cézannes e Matisses

5 08 2011

"Jogadores de cartas" (1890-1892), de Cézanne, uma das obras da Barnes Foundation: visita ao acervo guardado num subúrbio da Filadélfia ao alcance do mouse

O The New York Times publicou uma visita guiada virtual às galerias da Barnes Foundation, instalada em Merion, um subúrbio de Filadélfia.  A coleção formada por Albert C. Barnes tem excelentes obras do Impressionismo, Pós-Impressionismo e primeiros anos do Modernismo. São 181 Renoirs, 69 Cézannes, 56 Picassos e 49 Matisses espalhados pelo casarão, entre outras peças de artistas importantes como Gauguin, Monet, Seurat e Bonnard.

Como nem sempre haverá uma oportunidade de pegarmos um avião para a Filadélfia, vale a pena clicar aqui e visitar as galerias da Fundação.

Atenção:

1) Não deixe de clicar na setinha de “play” em cima da imagem, assim você ouve o áudio da visita-guiada, em inglês. O áudio da sala principal traz uma passagem curiosa sobre o retrato que Cézanne fez de sua mulher (Madame Cézanne com chapéu verde, 1894-1895), retirada de um comentário de Harrison Farbie, pesquisador do acervo da Barnes por anos. Para ele, é como se a senhora Cézanne tivesse “embarangado” (numa tradução bastante livre, assumo) depois de botar o chapéu.

2) Repare nas telas que vêm com uma fina moldura virtual branca. Clicando nelas, você abre uma foto e recebe informações adicionais sobre a obra.

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Se quiser saber mais sobre a Barnes, é só ir até o site da instituição, aqui.





Arte é cura?

25 05 2011

Solas de sapato com autorretrato de Van Gogh, um dos trabalhos da mostra: US$ 25

Olhar para uma obra de Picasso pode mudar sua vida ou até mesmo curar depressão, febre, insônia?  O artista russo Alexander Melamid propõe, não sem um pouco de ironia, que sim, arte pode ser bálsamo e remédio para quase todos os males. Artista conceitual radicado em Nova York, ele ficou conhecido nos anos 1960 pelos trabalhos em dupla com o conterrâneo Vitaly Komar.

Em sua nova exposição individual, ele apresenta engenhocas e objetos simples do dia-a-dia que reproduzem obras famosas, como as solas de sapato inspiradas em Van Gogh, que você vê acima, vendidas por US$ 25.

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Nova conversa com Francis Bacon

21 05 2010

"Study After Velazquez's Portrait of Pope Innocent X"

Está chegando às livrarias mais uma série de entrevistas com Francis Bacon (1909-1992). Verborrágico, quase um entrevistado compulsivo, o pintor irlandês  - um dos reinventores do retrato e da figura humana no século XX – usava a conversa com seus interlocutores para refletir sobre o próprio trabalho. Suas entrevistas mais famosas foram dadas para o crítico David Sylvester (1924-2001) e editadas no Brasil pela Cosac Naify.  O novo livro, “Conversas com Francis Bacon”  (Zahar, 96 páginas, R$ 28, tradução de André Telles), é uma coletânea de entrevistas para o jornalista francês Franck Maubert, que foi crítico de arte da revista “L’Express”.

Em encontros descontraídos, o artista fala sobre suas influências – Picasso, Velázquez, Giacometti – mas também sobre cinema, fotografia, homossexualidade, viagens. As intervenções de Maubert são precisas, mas muito discretas, como manda o figurino quando se está diante de um entrevistado da estatura de Bacon, que foi também um grande conversador.

Uma curiosidade na edição é o pósfácio “Bacon & Bacon”, em que o autor aproxima as obras do artista e de seu homônimo filósofo. Bacon, o pintor, tinha grande interesse por literatura e filosofia, mas não era um leitor de Bacon, o filósofo (1561-1626), criador do empirismo. Apesar disso, Maubert mostra que os dois tinham um repertório semelhante: corpos, sua putrefação, o tempo, o espírito.

Abaixo, um aperitivo para a leitura integral das entrevistas e textos adicionais, que se faz em um fôlego, frequentemente sorrindo. Dono de uma pintura sombria e tenebrosa, Bacon tinha um humor um tanto cáustico, mas também solar e contagiante.

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Viviane Matesco e o corpo

18 04 2010

Escrevi resenha sobre “Corpo, imagem e representação”, livro de Viviane Matesco publicado pela editora Zahar, para o Prosa e  Verso de O Globo publicado ontem, sábado, 17 de abril.  Abaixo, o texto na íntegra.

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A complexa anatomia do corpo

Ensaio expõe e analisa transformações na representação da figura humana

+++ “Corpo, imagem e representação”, de Viviane Matesco, Zahar, 64 páginas, R$ 19.

Daniela Name*

"LES DEMOISELLES D´AVIGNON", de Picasso: perda de totalidade e ponto de partida para uma nova abordagem

Viviane Matesco sempre soube falar e ser entendida. Professora há muitos anos, ela consegue prender a atenção de suas salas lotadas embalando pensamentos profundos em um discurso bem humorado e direto. Seu livro “Corpo, imagem e representação”, que acaba de ser lançado pela Coleção Arte +, da Zahar, usa a mesma estratégia e tem na clareza seu grande trunfo de sedução.

Uso aqui esta palavra, “sedução”, porque a Arte +, coleção coordenada por Glória Ferreira, surgiu com o desejo de ampliar o público de leitores de arte. Os livros de bolso adaptam dissertações de mestrado ou doutorado de todo o país e  lançam textos curtos especialmente pensados para o formato.

Adaptar a linguagem acadêmica para uma edição tão enxuta é um desafio, e talvez este lançamento encontre o tom perfeito para série. A adaptação de um dos capítulos da tese de doutorado da autora conquista o leitor com uma história bem contada, em que ela vai destilando sua visão crítica a conta-gotas.

Viviane sabe que não precisa demonstrar o coração de suas hipóteses teóricas de uma maneira monolítica, pesada. O mote para seu texto está presente o tempo inteiro, mas ele se insinua como algo natural, parte do passeio pela história da representação do corpo na arte, da Grécia Antiga ao século XX .

Viviane inicia seu trajeto com uma síntese: “Vê-nus” (1976), de Tunga.  Com um trocadilho no título – entre o nome da deusa e as palavras “ver” e “nus” – a obra é um ponto de partida para investigação da autora. Com duas bases muito fortes – a ideia de corpo perfeito do mundo grego e a interdição do corpo na tradição judaico-cristã – a arte do Ocidente vai manter um fluxo de aproximações e bloqueios do nu ao longo dos séculos.

Antes da polis grega, o corpo era um catalisador de códigos para as sociedades primitivas. As energias que moviam o universo eram indissociáveis do próprio homem, e não havia distinção entre corpo e os mundos vegetal e animal. Depois do surgimento da filosofia, especialmente de Platão, o corpo é pensado como algo ideal e norteado por valores exteriores a ele – “mais pensados do que vividos”, como lembra Viviane – já que precisava estar em equilíbrio com a alma imortal.

O corpo é despido de características peculiares nesta busca incessante da beleza. O belo do campo físico era entendido como uma cópia esforçada e imperfeita do conceito filosófico do belo, uma realidade transcendente e imutável. Por tudo isso, nu grego não representava  o corpo, ele mesmo, e sim uma tentativa de dar forma à ideia de homem.

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