Raul Mourão e a cidade do afeto

6 10 2012

“Toque devagar”, último dia na Praça Tiradentes

Hoje é o último dia para ver as exposições de Raul Mourão Toque devagar, na Praça Tiradentes, e Processo, no Centro Carioca de Design. Paralelamente, o CCD também apresenta uma prévia de Casas, individual que Luiza Baldan inaugura no dia 9, terça-feira. Às 18h, uma palestra com o Pedro Rivera e outros convidados mergulha a obra de Mourão em uma conversa com a arquitetura e o urbanismo.

Ainda quero escrever com calma sobre o impacto do que vi na Praça Tiradentes. Na correria deste sábado, digo que as peças gigantescas feitas de tubos de metal que tomaram a praça em Toque devagar apontam para um tipo de intervenção pública muito peculiar. Nada é para sempre, e a ocupação do espaço se dá de forma rápida, muito barata, como um convite à interação dos passantes.

Toque devagar destaca ainda a transformação por que passou a obra de Mourão nos últimos anos. Ela ficou mais clara depois de uma parceria do artista com os bailarinos da Intrépida Trupe – já um momento em que a obra se abria à interferência e ao ruído de outras pessoas. O movimento  passou a ser elemento e motor de sua criação e, amadurecida esta curva em sua trajetória, o escultor vem fazendo de sua obra quase um espelho do Rio de Janeiro ao longo das últimas duas décadas.

Se no início da carreira Mourão falava de grades que interditavam e protegiam o Rio de todos os medos, agora ele compartilha com o público obras que se movem, como talvez esteja se mexendo e se transformando o sonho dos cariocas. É uma escultura que se abre, como esta cidade, para novas perspectivas.

A monumentalidade cigana, transitória e lúdica proposta em Toque devagar também aponta para uma arte – e para uma cidade – cujas marcas podem se fazer de formas menos impostas. A ideia não é eternizar uma assinatura na paisagem com um elemento externo, e sim encontrar com um lugar – neste caso específico com a histórica Praça Tiradentes – durante um  determinado um tempo, ressaltando-lhe belezas e imperfeições, conversando com seu monumento dedicado a Pedro I, com seus teatros, seus mendigos, seus transeuntes.

Como seu nome sugere, Toque devagar não fala de um contrato eterno entre a obra de arte e o lugar onde ela se encontra. Não se trata de um casamento forçado entre as partes. O que há, entre escultura e cidade, é um namoro, cheio de cantadas apaixonadas. Flertando com a praça e com o Rio, Mourão nos mostra que a arte e a cidade podem estar entrando no tempo dos afetos. Vamos a eles.





#Rio365_arte

1 10 2012

Começa hoje o projeto Rio365, primeiro documentário fotográfico de uma cidade criado pelas pessoas que circulam nela todos os dias, tendo a rede social Instagram como plataforma.

Serão 52 semanas de projeto, e cada uma delas vai ter um tema – ou “missão”, como os usuários do Instragram, os igers, preferem falar. Cada missão vai gerar 7 fotos selecionadas por uma junta de curadores – uma para dia da semana. No fim do projeto, as 365 fotos selecionadas serão reunidas em uma exposição e um livro. As melhores fotos concorrem a Ipads ao longo do processo e também a um Iphone no fim da maratona.

Qualquer um  pode participar, inclusive os idealizadores e curadores. Estes, no entanto, não pode ser premiados e nem selecionados, pelo código de ética básico de qualquer projeto. A regra vale também para os funcionários das empresas envolvidas em Rio365, que foi concebido e tem coordenação geral de André Galhardo. Para integrar esta gigantesca galeria virtual, basta postar suas fotos no Instagam com a tag correspondente ao tema da semana. A primeira semana, que vai gerar fotos postadas entre hoje e domingo, tem como tema “Arte no Rio de Janeiro”.  Sou curadora desta semana, ao lado do artista Raul Mourão (@raulmourao) e do pesquisador e curador Fred Coelho (@pauperia). Vocês me acham no Instagram como @daniname.

Em “Arte do Rio de Janeiro” desejamos imagens que interpretem de forma criativa e arrojada exposições, obras públicas e tudo aquilo que você considera arte. As fotos podem ser feitas com celular, tablets ou máquina fotográfica, mas só está no páreo o que for postado no Instagram e com a tag correta. A etiqueta/tag desta missão sobre arte é o título deste post:

#Rio365_Arte

Rio365 é patrocinado pela Light, através da Secretaria de Estado de Cultura/Lei do ICMS. O projeto tem apoio da Superintendência de Museus do Estado (SMU), e isso não ocorre por acaso. Museu virtual pode ser museu real e esta imensa galeria colabora para que a cidade se transforme em um acervo produzido e pensado por seus moradores e visitantes. “O Rio é uma cidade de cidades misturadas”, como já nos ensinou a canção. E a encruzilhada de imagens geradas pelo Rio365 vai nos mostrar esta mistura – além de guardá-la para o futuro.

O perfil do projeto no Instagram é @Rio365 e você chega ao blog do projeto clicando aqui.





Galerias virtuais no Instagram

22 09 2012

 

Foto de André Galhardo de uma das esculturas de Antony Gormley (#GormleynoRio)

Uma caravana fotográfica da rede Instagram no Rio de Janeiro vai registrar amanhã, a partir das 10h, o último dia das exposições de Antony Gormley, no CCBB, e de Angelo Venosa, no MAM, além de visitar as mostras de Suzana Queiroga e Waltercio Caldas na Casa França-Brasil. Organizado pelo perfil @igersrio, o tour começa no CCBB, segue para a França-Brasil, percorre os lugares onde há esculturas de Gormley no alto dos prédios do Centro e chega ao MAM, para a despedida da exposição panorâmica de Venosa.

Galerias virtuais na rede social Instagram vêm catalogando as exposições, os ateliês e alguns dos principais trabalhos de artistas brasileiros.  As hashtags (marcações criadas com o símbolo #, que criam grupos de imagens no aplicativo) têm sido a ferramenta usada para reunir as imagens. O movimento de marcar as fotos é espontâneo, mas vem sendo organizado pelo @igersrio, com colaboração do publicitário e criador André Galhardo, desta que vos fala e também com a participação decisiva dos próprios artistas.

As galerias de Venosa (#angelovenosa #mamrj),  Queiroga (#suzanaqueiroga #ograndeazul) e Raul Mourão (#raulmourao_toquedevagar) têm contado com os artistas ajudando a formar o catálogo, postando seu olhar sobre o próprio trabalho ao lado das imagens de visitantes das exposições, sejam eles ou não pessoas ligadas ao mundo das artes.

As mostras de Ernesto Neto na Leopoldina (#ernestoneto) e os ateliês da fãbrica Bhering (#bhering) começam a ter suas galerias alimentadas, assim como a mostra de Brigida Baltar (#brigidabaltar) nas Cavalariças do Parque Lage. Em São Paulo, a exposição de Adriana Varejão no MAM-SP (#adrianavarejao #mamsp) tem contado com fotos da pintora e também da própria equipe do museu, cujo perfil no Instagram é bastante ativo.

Catalogar é gerar memória e estimular o público a fotografar a obra, rompendo com pudores e transgredindo supostas hierarquias.  É ainda encontrar formas radiais e orgânicas de formação do olhar e de difusão.

Veja abaixo outras imagens das galerias do Instagram:

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Escrevi um texto sobre a exposição de Angelo Venosa no MAM, que termina amanhã. Se quiser ler ou imprimir, clique aqui.





Raul Mourão, mais um livro

14 05 2011

O artista Raul Mourão autografa seu livro MOV amanhã, domingão de encerramento da SP-Arte. Produzida pela Automática, a publicação recebe canetadas do artista a partir da abertura da feira, ao meio-dia, até as 14h. Com distribuição gratuita e projeto gráfico de João Dória,  o livro traz uma entrevista com Mourão feita pelo Skype e que tem como interlocutores o pesquisador e crítico Frederico Coelho e a curadora Maria do Carmo Pontes.

O livro coroa o amadurecimento da obra do artista depois que ele introduziu movimento em suas esculturas, testando a arte cinética em peças muito pesadas, o que não é muito comum e está longe de ser fácil. Também traz o espírito arrojado de um personagem da cena carioca, com uma história marcada por uma forma nova de fazer política e buscar associações.





Hoje e amanhã

17 12 2010

Está muito difícil escrever às vésperas deste Natal. Está muito dícil também cumprir todos os compromissos. Vejam só os de hoje e amanhã: Ernesto Neto, Raul Mourão, Laura Lima… Agenda de maratonista.

Vamos nos ver?

HOJE

Ernesto Neto inaugura às 19h sua exposição individual na última curadoria de Ligia Canongia para a Casa de Cultura Laura Alvim. As “pinturas” do artista são flagrantes do cotidiano, muitas vezes registrados com câmeras de poucos recursos, como na imagem acima. Quando a gente para, o mundo roda inclui ainda um trabalho que vai ser feito na Praia do Arpoador, há anos uma espécie de segundo ateliê do artista.

No revezamento previsto pela instituição, Fernando Cocchiarale assume o posto em 2011 e promete dar continuidade ao bom trabalho começado por Ligia, que apresentou excelente conjunto de exposições nas galerias reformadas pela Secretaria Estadual de Cultura. Entre as mostras, duas irretocáveis: Luiz Zerbini e Angelo Venosa.

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A Cosmocopa abre mais uma exposição coletiva de seus artistas. Até 2011 inclui trabalhos de Rosana Ricalde, Louise D.D., Felipe Barbosa e Rafael Alonso, entre outros. 19h.

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AMANHÃ

"Seta de rua", de Raul Mourão

Laura Lima inaugura Grande, sua exposição na Casa França Brasil, às 17h.

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Na Progetti, ali ao lado, também a partir das 17h, Jimmie Durhan apresenta Provas circunstanciais do Brasil. A meu ver, o artista americano fez um dos trabalhos mais interessantes desta última Bienal de São Paulo.

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Raul Mourão lança a serigrafia acima, Seta de rua (para Barros, Bulcão, Colares e Volpi), na Galeria Lurixs, em Botafogo, às 20h.

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Pela manhã, às 11h, as crianças do projeto REDES, do Complexo da Maré, visitam a exposição Mapas invisíveis, com curadoria desta que vos fala, para ver de perto o resultado de Mapamaré (à esquerda), trabalho de Suzana Queiroga feito com a ajuda delas.

Eu e artista aproveitaremos para fazer uma visita guiada para quem estiver por lá.





E eles abriram a Caixa (Parte 1)

29 03 2010

"Até onde o mar vinha. Até onde o Rio ia": trabalho de Guga Ferraz mostra com a gigantesca faixa de sal grosso o limite da praia antes do aterro da região do Castelo

“Projetos (in)provados”, exposição em cartaz na Caixa Cultural do Rio de Janeiro,  é muito feliz ao testar as fronteiras entre arte, arquitetura e urbanismo.  A curadora Sonia Salcedo del Castillo propos a 12 artistas que se relacionassem com o prédio da instituição, na esquina das avenidas Rio Branco e Almirante Barroso, no Centro, e com os arredores do Largo da Carioca e do Castelo. Fernanda Junqueira, Guga Ferraz, Jarbas Lopes Luiz Monke, Marcos Chaves, Neno del Castillo, Raul Mourão, Regina de Paula, Ricardo Becker, Ronald Duarte, Suely Farhi e Zalinda Cartaxo aceitaram o desafio.

A relação com o espaço está na origem da arte. As pinturas de Lascaux não estavam em árvores ou na terra, mas nas salas escuras das cavernas,  onde ganharam escala, resguardo e sobrevida. Muito mais tarde, fosse nas capelas  da Renascença ou nos murais modernos, nos apartamentos rococó de Paris ou no jardim de esculturas da nossa Praça Paris… arte, arquitetura e urbanismo sempre andaram próximos, frequentemente com a primeira subordinada aos outros.

Na Alemanha da República de Weimar, a Bauhaus já tinha testado estas fronteiras, propondo ambientes em que três pilares intercambiáveis – arte, design e arquitetura – eram igualmente importantes.  Modernistas brasileiros como Oscar Niemeyer também tentaram a fusão, embora nem sempre com muito êxito: costumeiramente, a obra de arte foi usada como ilustração do projeto arquitetônico, quase um apêndice da arquitetura “pronta”.  Contemporâneos como Frank Gehry, Jean Nouvel ou Rem Khoolhas têm provado que as distâncias podem ser cada vez menores: em vez de usar obras de arte, eles fazem prédios que são um pouco estas obras.

A exposição na Caixa mostra que o diálogo na mão inversa também é possível.  Se a escultura contemporânea pode influenciar o prédio multifacetado e espelhado do Guggenheim de Bilbao, de Gehry,  também é legítimo que a cidade e suas construções deixem de ser apenas imagens para passar a constituir as obras de arte.

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Um lugar para a escultura contemporânea

10 12 2009

Obra de Raul Mourão, com a de Elisa Bracher ao fundo

No sábado agora, dia 12, às 11h, acontece a mesa-redonda de lançamento do catálogo da exposição “Experimentando espaços”, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Com curadoria de Agnaldo Farias, a exposição reúne nos jardins do museu esculturas monumentais de Afonso Tostes, Amalia Giacomini, Amélia Toledo, Arthur Lescher, Carlito Carvalhosa, Daniel Acosta, Eduardo Coimbra, Elisa Bracher, José Spaniol e Raul Mourão.

Trabalho de Eduardo Coimbra

Em meio à polêmica carioca depois de que o prefeito Eduardo Paes anunciou mais uma estátua figurativa na cidade –  em homenagem ao maestro Tom Jobim, nas proximidades do novo metrô de Ipanema – a exposição em São Paulo chama a atenção para a boa qualidade de nossa escultura contemporânea.

As obras dos artistas selecionados por Farias poderiam estar em praças e parques de qualquer cidade brasileira, misturando-se a obras de outros períodos e tornando-se acessíveis à população. Acesso franco, sem menosprezar a inteligência alheia – inteligência, é sempre bom frisar, independe de cor, credo ou classe social –  é a maior arma contra a ignorância e o desconhecimento que ainda mantém a arte contemporânea restrita a um pequeno grupo.

Além de adquirir obras novas, o Rio precisa enfrentar outro problema: a má conservação das peças monumentais já instaladas em vários pontos e (bem) incorporadas à paisagem carioca. Assinadas por artistas como Ivens Machado (na Carioca), Angelo Venosa (Praia do Leme), Waltercio Caldas (Av. Presidente Wilson), Franz Weissmann (Avenida Chile e Rua Luis de Camões) e José Resende (esquina da Rua do Rosário, altura da galeria Paulo Fernandes), elas demandam reparos e, em alguns casos, cuidados emergenciais.

"Jardim de ossos" por Afonso Tostes

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Ah, nunca é demais lembrar. O painel de azulejos de Aluísio Carvão no Leblon continua com peças faltando. O post que fez coro à campanha por sua salvação inaugurou este blog no dia 29 de agosto deste ano (leia aqui). Na época, a Fundação Parques e Jardins fez mil promessas.

Até agora… nada.





Pitadinhas da semana – Artes visuais

2 09 2009

Já foi: O lançamento de “Cultura digital.br” (Azougue, 310 pág, R$43), no último sábado, no endereço da Lapa que serve de ateliê para  Raul Mourão e Afonso Tostes, entre outros artistas, confirmou Mourão como um dos mais bem sucedidos agitadores da cidade. A palestra integrou o programa de discussões de “Assembléia geral”, projeto do anfitrião com o crítico Fred Coelho, e contou com a participação especial do francês Pierre Levy, que chegou escoltado pela professora Ivana Bentes, da ECO-UFRJ. Depois de saber mais sobre o livro, uma coletânea de entrevistas com gente de atividades diversas – como o músico Lucas Santtana; o jornalista e blogueiro Marcelo Tas e o ex-ministro Gilberto Gil – o público caiu na festa ao som do DJ Nepal. Queremos mais.

Passa lá:

"Mar azul", de Rosana Ricalde

"Mar azul", de Rosana Ricalde

Rosana Ricalde em cartaz na Arte em Dobro com “O navegante”, que reúne trabalhos feito com mares, palavras e mapas; José Tannuri com  série de pinturas inéditas que têm páginas de jornal como textura de fundo na galeria Hélio Rocha, no Shopping Cassino Atlântico; Tomas Ribas no novo espaço coordenado por João Vergara na Rua do Lavradio, 34, 2 andar.  Ribas, de 33 anos, começou a vida profissional como iluminador e apresenta surpreendentes trabalhos feitos com espelhos, vidros com insulfilme e lâmpadas coloridas dentro de galões antes usados para armazenar tinta e petróleo.

O que vem aí:

Frida Khalo no MAM; lançamento de “Penso subúrbio carioca” (primeiro livro da editora Tix, de Ana Borelli, na Casa de Cultura Laura Alvim). Ambos no dia 15 de setembro.








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