Décio Vieira

22 03 2010

Sem título, década de 1970, têmpera sobre tela

O Centro Universitário Maria Antônia, em São Paulo, inaugura,na próxima quinta-feira, dia 25, um panorama da obra de Décio Vieira. Artista geométrico de primeira linha, o pintor foi uma figura singular porque esteve ao mesmo tempo dentro e fora das grandes transformações provocadas pelos movimentos concreto e neoconcreto. A têmpera, – mesma técnica de Volpi –  e uma paleta de cores muito além das matrizes primárias tornam sua pintura curiosa e digna de análise.

Passo a palavra a Felipe Scovino, curador da exposição, reproduzindo abaixo seu texto de apresentação:

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Espólio

15 03 2010

Este é o título do trabalho de Pedro Victor Brandão, que você vê aí em cima, e que para mim é um dos destaques da exposição “Liberdade é pouco. Meu desejo ainda não tem nome”, com curadoria de Bernardo Mosqueira, que foi aberta no último sábado, com grande festa em uma casa da família do curador, no Jardim Botânico.

Em um dos quartos do piso superior, Brandão, de 24 anos, envolveu um cromo fotográfico com a reprodução de uma “Fachada” de Volpi numa caixa de acrílico. Uma lâmpada ultravioleta posta dentro da caixa faz a luz incidir diretamente sobre a imagem, acelerando seu processo de desaparecimento em mais de 20 anos.

Uma reflexão sutil e oportuna sobre o que alguns herdeiros de espólios de arte têm feito para a não preservação da memória de seus antepassados artistas.  No ano passado, os donos do espólio de Volpi inviabilizaram a publicação do catálogo da exposição sobre o artista, organizada por Vanda Klabin no Instituto Moreira Salles, por conta do alto preço cobrado pelos direitos de imagem. Mas não são os únicos a transformar a ganância em um impeditivo para a difusão de obras de arte.

Pedro Victor Brandão e seu "Espólio" na inauguração da mostra, no sábado

Espero que os herdeiros de Volpi não cobrem nada de Brandão… e nem do Pitadinhas… Afinal, o Volpi de “Espólio” vai desaparecer bem rapidinho.

PS. É importante dizer que o trabalho não é só oportuno. É bom mesmo. Repare como a luz é moldura linda e ao mesmo tempo fantasmagórica para Volpi.  Se a lei não mudar e os herdeiros continuarem mandando e desmandando no direito de imagem, o destino do artista – um dos maiores nomes da arte geométrica brasileira – é o desaparecimento.





Balanço 2009 – Bolas fora

7 01 2010

O que não foi tão bom assim nas artes visuais em 2009.

Incêndio da obra de Hélio Oiticica: o quadro acabou sendo muito menos catastrófico do que a avaliação inicial, graças a restauros e remontagens. Mas muitas peças importantes deste que é um dos maiores artistas do país em todos os tempos foram perdidas no incêndio da reserva técnica na casa de sua família,  no Jardim Botânico. O fogo que transformou HO em cinza evidenciou a fragilidade da política para aquisição e preservação de acervo do poder público brasileiro, assim como um despreparo das instituições, dos colecionadores particulares e dos herdeiros em lidar com o assunto.  Para lembrar do caso, clique aqui.

Projeto original de Lygia para o Bolinha

Piraquê e o descarte do projeto de Lygia Pape: Foi o post mais lido do Pitadinhas em 2009 (lembre o caso aqui). Não é todo dia que uma empresa resolve jogar fora um projeto gráfico bem sucedido como criado por Lygia para biscoitos clássicos como o Bolinha ou o Presuntinho. A Folha de S. Paulo repercutiu a discussão levantada por este blog. Em entrevista ao jornal, o dono da Piraquê disse ter eliminado o projeto de Lygia para que ele não destoasse das embalagens novas, de biscoitos que surgiram depois da morte dela. Evitaria, assim, o que chamou de “samba do crioulo doido”. Ora, pois, raciocinemos juntos: não seria mais lógico preservar o projeto de Lygia e criar uma identidade visual coerente para os novos biscoitos a partir do projeto dela? Em vez de destruir o patrimônio existente não seria mais lógico construir a história visual da empresa tendo Lygia como ponto de partida?

Chagall: Mostra esperadíssima da comemoração do Ano da França no Brasil, começou em Belo Horizonte (Casa Fiat) e depois veio para o Rio (Museu Nacional de Belas Artes), foi dominada por um grande número de gravuras. Não seria grave, se este fosse um suporte tão importante para Chagall como foi para Goya ou Rembrandt, por exemplo. Não era. Além disso, as poucas pinturas existentes foram apresentadas desordenadas cronologicamente e sem legendas explicando seu contexto (as duas mulheres com quem o artista viveu foram retratadas e fundamentais no seu processo criativo e isso não foi explicado ao longo dos corredores). Para entender um pouco da biografia do artista – que fugiu do anti-semitismo da Europa e exerceu um papel bastante ambíguo durante o período dos comitês de arte soviéticos, entregando e censurando antigos amigos – era preciso ver um vídeo de 14 minutos no fim da mostra. E este, evidentemente, passava ao largo destas questões, digamos, mais “difíceis”.  Mais do que a biografia, ficou difícil para o público captar a relevância de um artista como Chagall. Por que, afinal de contas, o Brasil devia se sentir orgulhoso por receber suas obras? Não havia uma palavra sequer sobre seu papel e sua originalidade dentro do grupo dos construtivos russos e nem sobre seus flertes com o surrealismo e a obra de  fauvistas e expressionistas. Ah, é bom lembrar: a mostra, com tantas lacunas para o público, foi paga com… verba pública. Lei Rouanet. Portanto, é para o público se sentir lesado mesmo.

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