As cores do Carvão

Buracos entre azulejos: desleixo e ocupação da área com o anunciado Museu da Bossa Nova
Buracos entre azulejos: desleixo e ocupação da área com o anunciado Museu da Bossa Nova

Quase todo mundo que trabalha com arte no Rio tem uma história com Aluísio Carvão (1920-2001). Ouvi e li algumas delas desde que repassei no Facebook o link com o abaixo-assinado que pede a restauração de um mural de azulejos do artista na Avenida Mário Ribeiro, no Leblon (Estrada Lagoa-Barra), que corre sérios riscos de desaparecer com a construção do Museu da Bossa Nova, prédio em forma de piano (!!!) já anunciado pelo governo municipal. Desde a gestão anterior, o painel, criado pelo artista em 1996, vem sofrendo com o desleixo da Fundação Parques e Jardins, que não repõe as peças faltosas.

Os buracos entre os azulejos prejudicam a compreensão do desenho geométrico sobre a paisagem da cidade e roubam da obra de Carvão o que ela tem de mais fundamental – a cor. Nascido em Belém do Pará, ele foi aluno de Ivan Serpa no curso de pintura do Museu de Arte Moderna do Rio, do qual mais tarde se tornaria professor. Entre 1953 e 1956, fez parte do Grupo Frente, que mudaria o rumo da arte contemporânea brasileira. Integrou a 1ª Exposição Nacional de  Arte Concreta (1956) e, em 1959, assinou o Manifesto Neoconcreto com Lygia Pape, Lygia Clark, Amilcar de Castro, Franz Weissmann e os poestas Reynaldo Jardim e Ferreira Gullar.mural1

Depois da diluição do movimento construtivo, Carvão não trilhou o mesmo caminho de artistas como as Lygias Pape e Clark e Hélio Oiticica, que testaram os limites entre arte e vida. Também não ficou notório pela experiência com vários suportes, caso dos concretos paulistas Geraldo de Barros e Waldemar Cordeiro, embora tenha sido cenógrafo, capista de livro e ilustrador, aplicando os princípios da geometria construtiva em seu trabalho como designer.

"Cornucópia", de 1955: forma imperfeita
"Cornucópia", de 1955: forma imperfeita

Sem a exuberância de alguns de seus contemporâneos, Carvão exibia sua singularidade por linhas tortas. Literalmente: embora fosse conhecedor da Gestalt e todas as teorias de cor da Bauhaus que nortearam outros construtivos brasileiros, ele não se prendia aos jogos ópticos com cores básicas e formas geométricas perfeitas. Com ele, a incompletude sensível proposta pelos neoconcretos atingiu contornos distintos. Com uma paleta próxima à de Volpi – e, voltando um pouco mais no tempo, à de Guignard – Carvão ousou brincar com tons pastéis e semitons no reino de pós-Mondrian. Gostava do improviso, do incompleto e da gambiarra, como provam suas “Farfalhantes”, telas em que pequenos quadrados de metal presos lado a lado criam som e movimento com a a passagem do vento.

"Farfalhantes", de 1967: luz, som e movimento
"Farfalhantes", de 1967: luz, som e movimento ao sabor do vento

A disposição das “Farfalhantes” me traz de volta ao painel de azulejos do Leblon. E às minhas próprias histórias com Carvão. Entrevistei-o algumas vezes e  ele foi assumindo um lugar cada vez mais estratégico em meus afetos e admirações. Não só pelo artista grandioso que era, mas pelo fato de não fazer questão de sobrar. Carvão se tornava mais importante à medida que não fazia questão de sê-lo. Em um de nossos encontros, em Niterói, logo depois da preparação de sua última grande individual em vida, no MAC, tivemos uma companhia diferente de sua cachacinha de estimação: já muito velho e cansado, Carvão devorou com apetite infantil taças enormes de sorvete enquanto falava das pipas e dos barcos de Belém, das cores lavadas pela luz do Norte.

Lembro que ali enxerguei o menino que ele foi, caçador de passarinhos da floresta, em frente àquele Maracanã gelado e doce. Tenho a impressão que é deste menino que todo mundo sente falta.

23 thoughts on “As cores do Carvão

    1. Olá, Fernanda, desculpe a demora em te responder, andei muito atolada e o blog estava abandonadinho. Obrigada pela leitura e toda sorte do mundo no estudo sobre o GRANDE Carvão. bjks

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  1. PARABENS, AMIGOS DO CARVÃO
    EU E MEU MARIDO, JOSÉ PAULO GANDRA MARTINS, SOMOS COLECIONADORES DE UM BELO ACÊRVO DE OBRAS E PARA HOMENAGEAR O AMIGO AO COMPLETAR MEU CURSO NA PUC DE HISTÓRIA DA ARTE ( 1996) APRESENTEI UMA MONOGRAFIA SOBRE SUA TRAJETÓRIA ARTISTICAQUE FOI EDITADA PELA EDITORA SEXTANTE .
    PARTICIPO E ASSINO COM VOCÊS ESSA INICIATIVA.
    ABRAÇOS
    ANNA MARIA MARTINS

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  2. Não só o painel do Carvão, mas inúmeras obras de arte estão em decomposição na cidade. De imediato lembro do Weissmann diante da Laura Alvin, descascado e a ferrugem começando a pipocar em alguns pontos. A sua denúncia é importantíssima, tem o apoio de todos, leve adiante. De vez em quando mando notinhas sobre o descaso com obras de arte no Rio, mas nunca publicam na coluna de leitores😦 Além, é claro, das obras roubadas, como aquele Calder que sumiu num fim-de-semana do Parque da Catacumba. Com quem andará o Calder?

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  3. Olá, cheguei aqui através da Clarisse Tarran, que vem batalhando pela recuperação do painel do Carvão.
    Creio que essa história não é só a de repor os azulejos, mas para pensar, também, no contexto onde este painel está instalado, uma vez que as cores e formas, materialidade, etc estão associadas diretamente ao local onde o painel está instalado. Levando ao extremo, como colocou o Richard Serra sobre seu arco inclinado, a obra só existe em função do lugar onde ela está instalada. Tirar ela do lugar é matá-la como obra de arte.
    O que eu gostaria de propor, então, é um debate conteporâneo em que a cidade ouça, também, os artistas visuais, além dos técnicos, arquitetos e planejadores urbanos. Isso – entre muitas outras coisas – quando o próprio governante, antes, confiante em seu gosto, dê jeito de colocar monumentos como o corneteiro ou essa polêmica agora, em torno do monumento à garota de ipanema, encomendada ao Romero Britto.
    Voltando ao painel, pelo que sei, o local vai abrigar o parque bossa nova com um edifício em forma de piano de cauda, projeto do Jaime Lerner (confere?). Ou seja, será mais um bolo de noiva, que chega para derrubar o que já se tem, sem a mínima preocupação, de fato, com a história, a memória e a cultura.
    Valeu pela matéria, Daniela.

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  4. Daniela,

    agradecemos imensamente sua sensibilidade e disponibilidade pra trazer mais gente pro movimento.

    um grande abraço,

    Clarisse Tarran e Mario Fraga

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  5. Cheguei aqui através do link que Augusto Herkenhoff publicou no facebook. Conheci o Carvão nos anos setenta e nos tornamos bons amigos e companheiros do dia a dia e também do copo. Anos depois, saímos dessa de uma vez para sempre. Estive muitas e muitas vezes em seu atelier e acompanhei a alquímica preparação de suas tintas que ficavam purificando dentro de potinhos cheios de água. Fotografei isso tudo e tive a honra, mesmo sem os créditos em todos os lugares, de ver essas fotos em impressos de galerias e exposições. Hoje, vejo esse abaixo assinado contra mais uma destruição no Rio de Janeiro e logo de uma obra dele. Imediatamente, participei do documento com o texto abaixo.

    Foi com profunda decepção que soube que forças destruidoras pretendem dar cabo a mais um monumento artístico do Rio de Janeiro. Nem é preciso falar da importância do trabalho do artista Aluísio Carvão. Quero deixar aqui, a minha indignação, tristeza, o meu espanto e, ainda, mais este pedido para que não façam isso. Tudo tem um limite. O ladrão goza com o roubo,o assassino com a morte e o iconoclasta com a destruição de obras de arte. Não sou mais criança e pude ver essa cidade perder suas características principais. O Rio de janeiro foi destruído por idéias como essa. Hoje, a cidade é isso que aí está. Quem governa, tem a responsabilidade, tem que assinar o decreto e um ato desses, entra para a história. Quem fizer isso, será eternamente lembrado como alguém que não teve sensibilidade nem ao menos o conhecimento do que estava para cometer. A ignorância aliada à astúcia e ao poder, é capaz de tudo. Hitler destruiu muita coisa boa e hoje, ainda tem quem goste dele.

    Espero que mais e mais artistas, colaboradores e amantes do que é bom, assinem o documento. A união faz a força e não temos outra saída. Vamos dizer não a mais um ato insano de alguém que não está habilitado para exercer as funções pelas quais responde.

    Operário no poder. Ninguém mais quer ver!

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  6. Belo texto, Daniela. Bela campanha. Vou assinar, claro. Não tive o prazer de conhecer Carvão mas admiro demais sua obra, fundamental para todos nós.
    Grande abraço

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  7. Assinei o abaixo-assinado partilhando da indignação dos cariocas que ainda prezam valores dignos como esses. Agora leio esse depoimento da Daniela Name e me emociono … além da indignação…sobrou muita saudade.

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