Back to Bia na Leopoldina

A ambientação de Bia Lessa: varal de fotos em tecido e fundo de palco com tapetes de tecido
A ambientação de Bia Lessa: varal de fotos em tecido e fundo de palco com tapetes coloridos

Haveria muitos motivos musicais para comentar a noite deste domingo, que encerrou o festival Back 2 Black.  Um deles, talvez o principal, Angélique Kidjo, um furacão que veio de Benin para reconduzir  “Billie Jean” a seu devido lugar. O arranjo percursivo, carregado no surdo e na caixa, sacudiu a Estação da Leopoldina e mostrou que sim, Michael Jackson era funkeiro. Sim, Michael Jackson era preto.  Back 2 Black.

Mas eu vou falar mesmo é de Bia Lessa.

Backligths com mapas da África recebiam o público
Backligths com mapas da África recebiam o público

Sem saber que era dela a instalação que serviu de cenário/ambientação para o festival, reconheci o estilo logo depois de passar pelos portões. No hall de entrada, imensos backlights situavam o público com mapas e dados da África. Depois deles, no início do grande salão da estação, totens unindo vídeos e fones de ouvido davam munição para quem queria saber um pouco mais. Ao lado deles, cobrindo uma extensão até o palco, fotos impressas em tecido com personagens da África, dispostas como se estivessem num varal de roupa. Cada foto trazia nas pontas dois pequenos globos de metal, usados como contrapeso de uma engenhoca que, quando o show começou, içou as fotos para o teto, deixando o vão livre para ser ocupado pelo público. Ah, o teto: uma constelação de retângulos coloridos cobria todo o arco, dando ali, para quem olhava para cima, as informações mais duras, difíceis, como o dado de 2003: das 42 milhões pessoas infectadas pela Aids no mundo naquele ano, 30 milhões estavam na África. Do céu ao chão, numa anti-Capela Sistina. No fundo do palco, a logomarca do evento aparecia feita – pelo menos assim me pareceu – com aqueles tapetes bem populares, trançados com tiras de tecido, nas cores roxo e amarelo (embora pela minha foto de celular seja mesmo difícil acreditar nestes tons).

Bia usou no festival boa  parte de seu léxico. Há gente que adora acusar artista de ser repetitivo. Eu fico é maravilhada quando enxergo um criador em seus movimentos e suas memórias. Afinal de contas, revisitar seus arquivos não é uma forma de chegar perto de quem a gente realmente é?

Detalhe do varal, já usado na exposição de "Grande sertão"
Detalhe do varal, já usado na exposição de "Grande sertão: veredas"

Por trás do varal de retratos está a tecnologia rudimentar que Bia inventou em 2006 para fazer a exposição dos 50 anos de “Grande sertão: Veredas” no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Lá, “folhas” de tecido reproduziam a íntegra do romance e tinham como contrapeso saquinhos de terra importada das trilhas mineiras percorridas pelo escritor. Os totens são outro recurso muito usado, e estiveram presentes este ano na exposição que ela fez, com pouquíssimos recursos e muita disposição, para a inauguração do Museu de Favela, no topo do Morro Pavão Pavãozinho, em Copacabana. O amarelo e o roxo com uma textura popular atrás do palco lembram suas flores de papel no módulo do Barroco para a “Mostra do Redescobrimento” (2000), que celebrou os 5oo anos do Brasil no Ibirapuera.

Totens informativos com vídeo e fone de ouvido
Totens informativos com vídeo e fone de ouvido

Na época do Redescobrimento, Bia foi muito criticada por entremear imagens sacras com um cenário feito por artesãs  e um material vulgar como o papel crepom. Para mim, ela capturou a essência do Barroco, com todos os seus excessos, suas sobreposições de elementos contraditórios, seu amarelo vindo do ouro que cobria as imagens, seu roxo litúrgico. O crepom criava pontos de cor e submergia junto com Aleijadinhos e afins da escuridão em que ela mergulhou a mostra. O drama do estilo em seu habitat perfeito: afinal, talvez nenhum barroco do mundo tenha pegada tão híbrida e popular quanto o brasileiro.

Cheguei à Leopoldina para ver um show e meu olho pinçou Bia Lessa. Tembém tenho meus arquivos…

4 thoughts on “Back to Bia na Leopoldina

  1. Feliz de ter você blogando de novo. Linda mesmo – e riquíssima – a cenografia de Bia. É bom ler algo de alguém que tem seus arquivos relacionados ao assunto.

    Aproveito para lembrar um detalhe que notei e acabei não mencionando no texto que escrevi sobre o Back2Black pro Globo: os “globos de metal” que vc cita eram globos espelhados (ou seja, disco, baile, negões americano, diáspora negra etc.).

    Beijo,
    Leo Lichote

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  2. Oi, Dani,

    é isso mesmo. As soluções técnicas e estéticas devem sempre ser reaproveitadas onde elas cabem. O mais importante é que, no conjunto, tudo estava harmônico. E, naquele espaço imenso, aconchegante.

    beijo.

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