Enfim, Sophie Calle

sophie

Demorei muito a escrever sobre Sophie Calle, talvez porque  precisasse digerir a exposição  “Cuide de você”,  que fui visitar duas vezes no Sesc-Pompéia, em São Paulo,  de onde se despede dia 7 de setembro. Não deixa de ser curioso enfrentar esta obra que fala de ausência e perda justo agora, quando tenho a certeza de que não poderei mais revê-la.

“Cuide de você”, acho que todo mundo já sabe, foi criada depois que Sophie recebeu um email de seu então namorado, o escritor Grégoire Bouillier, terminando o relacionamento dos dois.  Declarando-se incapaz de levar a história adiante de acordo com os parâmetros de fidelidade  estabelecidos pela parceira, Grégoire enfatizava o amor por ela, mas se despedia de maneira melancólica, contraditória e um tanto lacônica.  Antes do ponto final, a recomendação: “Cuide de você”.

Sophie nunca deu reply, mas pediu a 117 mulheres que respondessem à carta. Cada uma o fez seguindo a “habilidade específica” de sua carreira: atrizes atuaram, juízas julgaram, tarólogas previram, cantoras cantaram. São Paulo está vendo 83 delas. O MAM da Bahia, que recebe a exposição a partir do dia 22, contará com a versão integral.

Uma psicóloga deu interpretação hard core para a frase  “Cuide de você”, defendendo que ela é quase – as expressões são minhas, não da participante –  um  “vire-se”, um “toma que o filho é teu”. No subtexto, a afirmação de que ele, Grégoire, não estava mais disposto a cuidar de Sophie. Ela, então, que cuidadesse de si mesma.

Como isso aqui também já é quase uma carta de despedida, não vou me deter nas outras respostas. Elas já foram muito exploradas na inauguração e durante a visita da artista  à Flip, em Paraty, e  o que me chamou mais a atenção não foi a peculiaridade de cada uma, mas o efeito do conjunto.

Ao procurar responder ao ex-amante usando muitas vozes, Sophie freqüentou, obviamente, seus próprios domínios, já que criou um trabalho dentro do terreno da instalação e da performance. Mas ultrapassou-os rumo à literatura. Nas interpretações de suas mulheres-personagens, suturou o buraco criado pela partida daquele que contava como seu interlocutor. Ouso dizer que talvez só tenha conseguido fazer isso por ter “falado” a língua da escrita, reencontrando os sentidos do ex-amante escritor sem necessidade de tradução simultânea.

“Cuide de você”  mergulha no veneno para tirar dele a cura. Recomendo a ponte aérea para esta exposição homeopática.

5 thoughts on “Enfim, Sophie Calle

  1. Sophie fez uma espécie de documentário. Usou como princípio e fim sua vida pessoal. Pelo menos assim me parece. Não vi a exposição mas gostei da premissa, ainda que possa ver uma boa dose de auto exposição nisso que me faz pensar em suas motivações. Vingança?

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    1. Em tempos de Facebook, esta superexposição nem é tão espantosa, né? Mas o fato é que ela estava bem serelepe ao lado dele em Paraty. Não rolou nada em público, mas… Hehehehehe.

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  2. Não vi a exposição, mas li tudo o que saiu na imprensa quando da FLIP.

    Pra mim o interessante não é o conteúdo do e-mail, mas o e-mail em si. A secura do e-mail, do veículo da informação. Se era uma relação importante, imagino que o rompimento deveria ter sido ao vivo com direito a apertos de mão, abraços, expressões de afeto apesar da ruptura, quando esse “cuide-se” soaria normal. Lembro que essa é uma expressão muito usada em inglês -take care ou take care of yourself- quando as pessoas se despedem e que os franceses tb devem ter afrancesado. É uma expressão de carinho, de atenção, ao contrário do que interpretou a psicóloga hard core.

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