A boa encruzilhada de Venosa

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Há muito tempo não esperava tanto por uma exposição como a de hoje à noite. Quando chegar a hora, vou descer a rua a pé até a Casa de Cultura Laura Alvim certa de que “Turdus”, um panorama de obras recentes de Angelo Venosa, vai apresentar um momento importante para o artista. Venosa é Venosa e a curadoria leva a assinatura de Lígia Canongia, que fez um excelente trabalho à frente das galerias reformadas da Laura Alvim (antes desta, vimos exposições de José Damasceno, Janaína Tschäpe  e Laura Lima). Mas minha certeza tem mais embasamento.

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Há boas e más encruzilhadas na carreira de um artista. Nas más, um criador potente pode paralisar em uma esquina,  refém de seu próprio gênio, de seus macetes, de seu sucesso. Com medo do risco, não sabe para que lado virar e acaba andando em círculos. Há alguns casos –  e, dentre eles, nomes consagrados – na arte contemporânea brasileira das últimas décadas.

Não Venosa: em visita recente a seu ateliê no Horto,  quando ele fazia os últimos preparativos para a Laura Alvim, enxerguei a boa encruzilhada. Encontro dos vários caminhos de investigação que ele persegue há anos, a reunião dos novos trabalhos  deixa claros amadurecimentos, interseções e a enorme potência deste escultor singular, que sempre percorreu sua trilha com a sabedoria de quem anda devagar.

“Turdus 170”, escultura que ilustra este texto (a foto é de Daniel Venosa, filho de Angelo) talvez seja a maior prova disso.  Venosa fez a ressonância de um crânio de pardal,  seccionou-a  em inúmeras camadas, remontando o volume original em um paralelepípedo formado por finíssimas lâminas de acrílico transparente.

Fóssil e imagem virtual ao mesmo tempo, a peça estabelece inúmeras conversas com seus trabalhos expostos na Bienal de Veneza de 1993, feitos  com parafina e dentes de boi ,  com sua escultura de um beijo entre dois crânios de pássaro retratada por Daniel Senise em “O beijo do elo perdido” (1992), quando os dois artistas dividiam o mesmo ateliê; com sua série de esculturas em vidro e sal, apresentadas no Centro Cultural Light em 1998; e por fim com as peças de aço para parede (2005), feitas a partir de ressonâncias do cérebro humano, mostradas na Galeria Mercedes Viegas.

“Turdus 21” também se aproxima bastante destas últimas peças. Instalada suspensa, como um móbile,  “fatia” o mesmo crânio em placas de acrílico preto, criando uma espécie de desenho em 3D. O traço e o desenho, que já se insinuavam nas peças da Mercedes Viegas, agora ganham uma força impressionante.

Há outras interseções possíveis, sempre felizes.  “Há”, escultura feita de um tipo de madeira cujo nome é sabiá, tem grandes dimensões, lembra o crânio da ave e abre o diálogo com sua “Baleia”, apelido popular dado para a escultura monumental projetada para a Praça Mauá e hoje instalada no Calçadão do Leme.  “Ah”, feita de troncos e cobre, está na sala contígua e atravessa a parede da galeria rumo à paisagem do lado de fora, não deixa de ser um pássaro-fóssil, impedido de voar por sua condição de múmia, de esqueleto enterrado na parede. Vira Caixa de Pandora e abre mundos novos quando pensamos nas esculturas e “facas” dos anos 1990, mas avança rumo a um território novo, de combinação inédita de materiais.

“Ágave”, espécie de ninho de sisal que repousa sobre troncos (também de madeira-sabiá), é talvez a grande ousadia da exposição, perturbando as formas anteriores, fechando um leque de conversas internas entre as peças e, ao mesmo tempo, abrindo próximas questões para a obra do artista. Sim, porque, quando falamos de diálago, não estamos apontando para a repetição e sim para o acréscimo, para as mudanças possíveis a partir de uma conversa. O que há na mostra da Laura Alvim é ainda um descascar constante das mesmas inquietudes: o tempo, a forma revelada em sua estrutura, com suas entranhas expostas.

“Descascar” é, aliás, um verbo preciso para falar de Venosa. Seu trabalho testa relações entre o lado de dentro e o lado de fora de uma peça , assim como a convivência do presente – o do objeto e o do material que o constitui – com suas memórias, seus vestígios.

A crítica já tentou descolá-lo de seus contemporâneos, talvez para afastá-lo da aura midiática da Geração 80, talvez para levar a cabo uma operação que prefiro não verbalizar. É possível, é claro, realizar um sem-número de apromixações de sua escultura com o construtivismo, com a relação dentro-e-fora das peças brasileiras de Amilcar de Castro ou de Franz Weissmann, mas esta aproximação é tão viável quanto avizinhar Venosa da forma-zero – “no osso”, para que as palavras nos ajudem – de Giacometti.   Ninguém consegue se desprender da História.

Por isso mesmo, é difícil olhar para as esculturas que vão estar na Laura Alvim e para o conjunto desta carreira sem pensar, para citar apenas dois exemplos de artistas dos anos 1980, na pintura de Daniel Senise ou nas questões que vêm orientando Nuno Ramos. Na obra dos três, as mesmas imagens à deriva, os mesmos restos de um tempo que não se sabe qual é, a mesma estranheza com os “quases” deste nosso agora, o mesmo corpo mais presente pela ausência e pela falta do que por sua solidez. Um corpo que é cadáver, esqueleto, sudário, eco, barco naufragado,  baleia pré-histórica, “ela que não está”.

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Gostaria de ter tempo e espaço para falar muito mais, mas prometo voltar ao Venosa quando receber as respostas de uma entrevista que mandei para ele. Falando em entrevista, recomendo vivamente a feita por Suzana Velasco para a capa do Segundo Caderno do Globo de hoje. Excelente repórter, Suzana prima belo bom texto, apuração minuciosa e o olho-de-pinça que todo mundo que escreve sobre arte precisa ter. Vale a leitura.

Já está quase na hora da Laura Alvim.

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