A estrada de Sam Mendes

“Distante nós vamos” (“Away we go”, 2009), de Sam Mendes, pode conquistar o posto de quindim-da-iaiá do público neste Festival do Rio. Na sessão de ontem à noite, no Leblon 1, ouvia-se claramente a música incidental dos apaixonados vindo da plateia: risos descontrolados, suspiros, choro baixinho, sacos e sacos de bala, pipoca e amendoim amassados pela angústia.

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Tanto amor é merecido. Neste novo filme do diretor de “Beleza americana” e “Foi apenas um sonho”, Burt (John Krasinski) e Verona (Maya Rudolph) têm 34 anos, vivem em Denver e descobrem que estão grávidos. Os pais de Burt avisam que vão se mudar para a Bélgica um mês antes de a neta nascer e, como Verona é órfã, cai a ficha: eles não têm mais nenhum laço afetivo por perto neste momento tão delicado. Decidem então botar o pé na estrada, em  busca de um lugar onde possam criar vínculos e constituir uma família. É aí que a história começa.

Não é de hoje que os road movies falam de uma jornada de transformação e amadurecimento – eles são as odisseias do cinema.  Os roteiros são os mais distintos, mas o efeito é o mesmo em “O sétimo selo”, “Paris, Texas”,  “A morte pede carona”, “Thelma e Louise”, “Priscilla, rainha do deserto”, “Terra estrangeira”, “Uma vida iluminada”,  no superestimado “My blueberry nights”(ai, o que não faz um Jude Law) e até mesmo no longa de animação “Bernardo e Bianca”.

Outro bom exemplo é “Coração selvagem” (“Wild at heart”, 1990), em que David Lynch mescla o caminho dos desequilibrados Sailor Ripley (Nicholas Cage) e Lula Fortune (Laura Dern) com uma certa estrada de tijolos amarelos. É ela que nos leva ao road movie seminal: “O Mágico de Oz” (de 1939 – uau, 70 aninhos e ainda um garoto!).

Em “Distante nós vamos”, o casal de heróis de Sam Mendes também sai em busca de Oz e de um mágico que lhes dê a sensação de lar. Verona é uma desenhista freelancer secarrona e objetiva, que só fala do passado a fórceps; Burt é um nerd adorável e um tanto descompensado cuja prioridade é fazer a mulher feliz.

Eles atravessam os Estados Unidos, encontrando parentes e velhos conhecidos em Phoenix, Tucson, Madison, Miami e vão parar até em Montreal, no Canadá, sempre em busca do ninho. Como Dorothy, a viajante original, se deparam com Espantalhos, Leões e Homens de Lata, mas também com figuras tão bizarras quanto a Bruxa do Oeste. Para tratar destas últimas, Sam Mendes incita a plateia à gargalhada nervosa e, depois dela, à compaixão. Tanto na relação entre Burt e Verona quanto no encontro deles com a adversidade, o humor é a estratégia e a redenção.

Delicado e surpreendentemente otimista, o diretor continua um show na fotografia e na direção de arte (como mostra a cena em que aviões viram golfinhos na parede espelhada de um prédio, incluída no trailer aí em cima). O roteiro afiadíssimo de Dave Eggers e Vandela Vida conduz os protagonistas  para a mesma conclusão de Dorothy: de perto, bem de pertinho mesmo… ninguém é tão extraordinário assim.  E o Mágico de Oz, no fim das contas, pode não ser nada além de uma imagem.

O casal globe trotter encontra o lar quando descobre que ele está  mais próximo e possível do que se imaginava. “There’s no place like home” – a frase de 70 anos atrás ricocheteia  na tela de agora. Mas a brisa que parece invadir a plateia nas cenas finais do filme só nos dá o aconchego necessário porque houve a jornada.  Ela alimenta a raiz, mesmo que os frutos da árvore sejam de plástico. Ela renova e sustenta o ninho, mesmo que a casa ainda esteja vazia.

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Ah, preciso dizer:  “Distante nós vamos” inclui uma das declarações de amor mais lindas que que já vi no cinema. Deitados numa cama elástica no jardim da casa do irmão dele, Burt e Verona, exaustos da procura,  se fazem promessas de afeto e compromisso a partir de perguntas hilárias em bate-e-volta.  O quiz  me deixou sem ar – prepare o Kleenex. É bonito de doer.

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Ainda há sessões do filme: amanhã, 28, no Estação Vivo Gávea (15h40 e 22h), e quarta, dia 30, no Estação Botafogo 1 (14h e 20h).

3 thoughts on “A estrada de Sam Mendes

  1. Mendes fez um filme com um olhar masculino (Beleza Americana) e outro com o olhar feminino (Foi Apenas um Sonho), nos dois foi feliz. Não duvido que esse novo seja tão bom quanto.

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