‘Gato que nasce em forno não é biscoito’

"Ah", uma das esculturas da exposição da Laura Alvim
"Ah", uma das esculturas de Angelo Venosa na exposição em cartaz na Laura Alvim

A frase aí em cima era repetida pela mãe de Angelo Venosa – ele é paulista, mas mãe, pai e irmão nasceram no Sul da Itália – quando o escultor era pequeno. É um ditado popular sobre a origem das coisas, mas também sobre o processo em que elas se dão. Achei que tinha tudo a ver com o que foi conversado neste ping-pong, jogado em várias partidas, por email. Venosa, que abriu a exposição “Turdus” na semana passada, na Casa de Cultura Laura Alvim, fala da gênese das esculturas incluídas na mostra, da carreira e também de sua origem carcamana. Para ele, o jeito “chão” e “manual” da parte de baixo da bota italiana, um “corredor por onde passou tudo”,  orienta sua forma de trabalhar. “Meu rigor não é construtivo”, afirma.

No dia 8 de outubro, ele  inaugura uma outra exposição, mas não de esculturas. Vai participar do programa Amigos da Gravura do Museu Chácara do Céu com um trabalho em tiragem de 50 exemplares.

Mantive praticamente a íntegra do bate-papo virtual, não só por apreço pela informalidade, mas também para preservar o ritmo, as metáforas e a ironia de meu interlocutor.

A escultura Turdus 170 me parece uma “encruzilhada” –  e usei este termo ao analisar a exposição – de várias investigações de seu trabalho. Há o fóssil, os vários cortes transversais no crânio do pardal, mas há também a transparência das peças de vidro. Vc concorda?

ANGELO VENOSA: Talvez… Imerso nessa peça não me dou conta muito disso, acho até que essa encruzilhada é uma condição geral dessa exposição como um todo.


Nas peças de acrílico preto, suspensas, também me parece haver um encontro entre a sua escultura monumental, em ferro, e o desenho e a gráfica. A mostra na Laura Alvim vai mostrar um momento de síntese?

VENOSA: No plano das intenções, daquilo que conscientemente você sabe que está procurando quando concebe uma exposição como essa que quer dar conta de um determinado espaço, acho que sim. Eu quis explicitamente experimentar processos que havia utilizado no passado, obviamente que modificado por tê-los já experimentado e pelas modificações de novas habilidades que o tempo incorporou, como o emprego –  absolutamente natural –  do computador e dos modos de fabricação decorrentes desse universo. Por outro lado, havia no ar outros desejos zunindo, como, por exemplo, forçar a noção de desenhos que flutuam, ou de  “coisas que são desenhos”. Daí os recortes e particularmente algumas soluções como as curvas desencontradas e mais gestuais da peça Há*

Há uma  “escultura-desenho” na mostra, em que o crânio do sabiá aparece seccionado em fatias e feito em  acrílico preto… Lembrei daquelas esculturas beeeeeeem antigas, para a Bienal de São Paulo de 1992, em que você cobria a estrutura “óssea” com tela preta. Antes revestia o esqueleto, mas agora sinto como se fizesse o inverso, estivesse “descascando”.  Vai  mais fundo na tentativa de deixar a estrutura exposta. E,neste sentido, nada melhor que o traço, o desenho, não?

VENOSA: Na verdade essa “operação” também é um retorno, Já tinha sido experimentada antes. A “Baleia”** talvez seja o primeiro momento desse desencapamento. Isso é daquelas coisas que acontecem com frequência (e que gosto muito) de quando uma solução para um problema prático passa de coadjuvante a protagonista, e a natureza de um processo ou material aflora e te leva para lugares que você não havia atinado.
Nos trabalhos com o ferro/ferrugem e também nos feitos com dentes e  ossos, a questão do tempo, que percorre todo o seu trabalho, ficava  mais aparente. Mas me parece que ela continua aí, só que de modo mais enviesado – e talvez por isso mesmo mais pulsante… (Não vou fazer pergunta, ela tá subentendida e é algo como: Tô errada? Discorda?

VENOSA: Acho que ela sempre está, apesar de eu não pensar no assunto. Está embutida, apesar de mim mesmo… Alguém me disse há pouco (não me recordo agora quem e onde) que estou sempre lidando com a morte. E isso não é um modo enviesado de lidar com o tempo?

Nos pintores de sua geração, caso por exemplo do Daniel e do Nuno, que começou focado na pintura, percebemos uma pintura que é feita de restos de imagem (no caso do Nuno, da cultura, de uma maneira mais abrangente), de vestígios. Mais ou menos como mensagens na garrafa que dão conta,de maneira bem espaça, dos “vestígios de estranha civilização”, como diria a canção do Chico Buarque***.  Percebo isso também na sua obra, uma arqueologia destas imagens meio à deriva. Procede?

VENOSA: De um jeito muito diferente o trabalho deles talvez se articule a partir daí. Eu não percebo muito isso no meu caso, apesar disso já ter sido apontado antes em alguns textos. Talvez seja inevitável no tempo em que vivemos e eu tenha a pretensão e teimosia em dizer que não estou nem aí pra isso.

Muita gente já escreveu que seu trabalho é mais tributário do rigor construtivo do que do expressionismo alemão, que influenciou seus contemporâneos pintores. Mas me parece que todo este corpo e estas  vísceras que se insinuam nas suas peças pela falta, e não pela presença, embolam um pouco as coisas, fazem com que esta sua “linhagem” fique mais mulata. O que acha?

VENOSA: Essa história de linhagem é uma tara brasileira. Acho que para, quem sabe, organizar as coisas, botar história onde não havia. Como você sabe eu praticamente sou do sul da Itália, não nasci lá, mas pai, mãe e irmão sim (como dizia minha mãe: gato que nasce em forno não é biscoito) Enfim… quem vem desse movimentado corredor, onde passou de tudo, uma mistureba geral, não pode ficar separando os pedacinhos do vômito pra saber o que comeu (desculpe a imagem escrotinha). O meu rigor (ele existe, em pequena medida) não é construtivo. É um rigor mais chão, não ideológico. Mais “manual”. E também sou muito desencantado pra achar graça no expressionismo. Sei lá… Tem, sem dúvida, uma economia na solução formal das peças, mas não é construtiva.

Para mim, “Ágave”, peça feita de sisal e madeira-sabiá, incluída na exposição da Laura Alvim, fecha conversas internas dentro da mostra e abre outras. Para você também é por aí?

VENOSA: Ainda não sei se “abre outras”. Tinha a impressão de que revisitava velhas questões, ou melhor, velhos processos sem questões.

Desconfio também que não é a primeira vez que um trabalho esquisito, que foi o último a entrar no corpo de uma exposição, aponta para outra coisa. (Mas pode ser só manobra diversionista).

* “Há” reproduz em madeira (um tipo batizado de “sabiá”) as secções do crânio de uma ave (possivelmente um sabiá)  que foi a peça-chave de toda a exposição da Laura Alvim

** “Baleia” é o nome com o qual a população carioca apelidou a escultura monumental de Venosa projetada para a Praça Mauá e hoje instalada na orla do Leme

***A canção é “Futuros amantes”

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