Memória da pele

"Um dia esta guerra vai acabar" - Fotografia de desenho feito com batom sobre a pele
"Um dia esta guerra vai acabar" - Fotografia de desenho feito com batom sobre a pele

Perdoem a cabotinagem, mas o blog é meu mesmo, né? Esta é parte do texto que fiz para a exposição de Fernanda Figueiredo e Eduardo Mattos, que inaugura amanhã a nova fase da Galeria Movimento, no Cassino Atlântico. Esperamos todos lá.

Como em boa parte da história, há controvérsias, mas tudo indica que foi mesmo o capitão e explorador inglês James Cook (1728-1779) o primeiro a usar a palavra tatoo para falar dos desenhos que perfuram e tingem a pele desde o Egito Antigo. Símbolo da virilidade marinheiros, mas também da exclusão de criminosos e prisioneiros, a tatuagem chegou aos nossos dias como uma forma de expressão capaz de conjugar a iconografia coletiva, de toda uma civilização, com o repertório particular de cada um que se tatua.

Os artistas paulistas Fernanda Figueiredo e Eduardo Mattos fazem sua primeira exposição no Rio com as “tatuagens de batom”, trabalhos que os projetaram em São Paulo e que evidenciam a tatuagem como memória e repertório. Tatuagem é arquivo na pele – da própria história e do que está em volta. Neste conjunto de imagens, Fernanda usa o próprio corpo como suporte para desenhos de traço finíssimo, feito com batom vermelho. Efêmeros, os trabalhos ganham a permanência de uma tatuagem “de verdade” depois de fotografados por Eduardo, sobrevivendo à retirada da maquiagem sobre a pele.

A relação com os pincéis humanos de Yves Klein (veja aqui) é bastante clara, já que a Fernanda chegou aos desenhos depois de criar monotipias no próprio corpo: pintava o mamilo, joelhos e cotovelos com o batom e decalcava a pele pintada no papel. O trabalho da ítalo-americana Vanessa Beecroft também é uma vizinhança possível (lembre do trabalho da Bienal de SP clicando aqui), assim como a Casa de abelha (2001) de Brígida Baltar (infelizmente não é a melhor foto, mas veja aqui), em que a brasileira retrata a si mesma em desenhos e fotos usando uma roupa inspirada nas abelhas e suas colmeias. Depois das monotipias vieram os desenhos, que apresentam dois tipos de batalha: a do amor e a da guerra.

As cenas eróticas, bastante tributárias dos quadrinhos de Carlos Zéfiro (não lembra? clique), evidenciam o constante flerte da obra da dupla com o pop (e o pulp). Homem e mulher que são flagrados antes, durante e depois dos lençóis são auto-retratos de Fernanda e retratos de Eduardo, que estendem para a vida íntima a parceria que mantém na investigação artística.

No território da guerra, soldados entrincheirados se preparam para o ataque. Desenhados com batom, estes personagens podem dar a ilusão de terem sido rasgados na pele, que agora sangra. Por outro lado, são uma síntese de um processo curioso que vem acontecendo no trabalho de Fernanda, tanto no que é feito em parceria com Eduardo quanto nos desenhos que assina sozinha: constantemente, ela transpõe signos e arquétipos de seu território “natural” para o seu pólo oposto, exilando-o em um campo contrário.

Assim como criou soldados, ícones marciais e “de menino”, com roupa de batom, a artista transpôs elementos da ourivesaria (pérolas, fechos de prata e afins) para o território bélico das armas, desenhando facas, punhais e outras armas.

Um espelho às avessas, reconstruído como um quebra-cabeças, como mostra um dos conjuntos de foto reunidos nesta exposição.

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