La Boca em Vigário Geral?

357_100-vigario-colorido-geralExcelente a iniciativa da Revista O Globo, que publicou em sua edição deste último domingo uma capa anunciando uma série de projetos para o Rio de Janeiro que serão publicados semanalmente.  Batizado de “Rio na cabeça”,  o projeto pega uma boa carona na euforia das Olimpíadas de 2016 para catapultar projetos que proponham melhorias para a cidade. Um timaço de primeira foi reunido pela editora Isabel de Luca, que vem imprimindo um ritmo cada vez mais dinâmico e arrojado à publicação. Confesso, no entanto, que, ao ler a primeira ideia apresentada, fiquei bastante preocupada. Para não dizer mortificada.

Os participantes foram reunidos em 11 duplas e há gente de profissões diversas trabalhando junto com designers e arquitetos: do livreiro Rui Campos, dono da Livraria da Travessa, ao empresário Leo Feijó, dono do Grupo Matriz; do artista plástico Raul Mourão ao sambista Marquinhos Oswaldo Cruz.  A primeira dupla foi formada pelo designer Luiz Stein e pelo coordenador do grupo AfroReggae, José Júnior.

O projeto deles, “Vigário colorido Geral”, propõe uma intervenção urbana na favela de Vigário Geral, que fica próxima a Parada de Lucas e  margeia a Dutra.

Tudo começa com a construção, já em curso, do Centro Cultural Waly Salomão. Ligada ao AfroReggae – cujo trabalho na formação cultural e artística de jovens vindos de áreas de risco é inquestionável – a instituição seria, como explica José Júnior na reportagem deste domingo, “um local para oficinas de dança, teatro e música, incluindo aí um estúdios para formar DJs, entre outras atividades”.  O coordenador prossegue dizendo que o Centro vai gerar ainda uma praça contígua, “com um enorme teatro ao ar livre”: “Não é um espaço ‘para’ a favela de Vigário Geral. É um espaço ‘na’ favela, frequentado pelo carioca de Vigário, da Zona Sul, da Zona Oeste…”

Até aí, bacanérrimo. O discurso não se afina com o assistencialismo e assimila a favela como parte do tecido urbano desta cidade. O problema é que “Vigário colorido Geral” vai além, propondo a pintura em cores berrantes de 1500 casas da comunidade. Na foto que você vê logo no início deste artigo há uma simulação do “antes”  e do “depois” desta parte empreitada, que custaria, segundo a reportagem, R$ 700 mil.

Eu poderia ficar aqui citando mil exemplos de como pode ser devastadora uma “reforma” feita de cima para baixo, de fora para dentro, sem levar em conta a história arquitetônica e a paleta de cores de um lugar, bem como a escolha e a memória de seus moradores. Poderia lembrar do Caminito, em  La Boca,  Buenos Aires. Ao “revitalizar” uma área bafon, de baixa renda, o poder público portenho transformou-a num parque temático para turistas, expulsando a população pobre que ali vivia para outros lugares – mais distantes, menos estratégicos, fora da rota de cartão postal.

Mas não vou me deter nestes casos e sim fazer apenas algumas perguntas para os quatro ou cinco leitores deste blog que têm suas casas em outros lugares da cidade:

Vocês pintariam a sua casa nestas cores?

Achariam confortável ver seu filho jogando bola na confusão visual destas fachadas?

Conseguiriam se sentir à vontade para botar suas cadeiras na calçada e esperar o tempo passar?

Achariam legal molhar sua samambaia numa parede que mistura amarelo-gema e roxo profundo?

Vocês estariam preparados para a quantidade de aspirina que teriam que comprar para a sua dor de cabeça diária, imersos que estariam em tanta cor e tanto contraste?

*** ***

Tenho um grande amigo cujos pais ainda moram em outra favela, o Vidigal.  É um casal elegante, como o filho que eles geraram. Não consigo imaginar a casa deles com estas cores. Também não consigo imaginar a minha.

Fico me perguntando se alguém proporia pintar toda a rua onde eu moro, no Posto 6, com estes mesmos tons. E quais seriam as reações dos velhinhos de Copacabana a isso.  Será que algumas pessoas de Vigário que precisam de pintura para suas casas não gostariam de pintá-las de branco? Ou verde-bebê? Ou rosa-calcinha?

Notem que os portões de metal e cobogós, tão bem usados na favela desde sempre – soluções da gambiarra arquitetônica do Zé Povinho criativo – também passariam pelo “banho de cor”.

“Revitalizar” só pode significar ativar a vida já existente – e não inventar outra. Esta vida de projeto é a morte.  No passado,  já gerou inúmeros cemitérios urbanos nesta cidade.

*** *** ***

Tendo a apostar que as ideias mais simples vão ser as mais bem-sucedidas de “Rio na cabeça”. Parece ser o caso da linha de metrô-ônibus ligando o Aeroporto Santos Dumont e o MAM ao resto da cidade (Raul Mourão e Adriano Carneiro de Mendonça) e do Bafônibus, ônibus que faria o circuito boêmio da Lapa e outras regiões durante a madrugada (Leo Feijó e Marcus Wagner). A ocupação da Praça Paris (Deborah Colker e Alder Catunda)  e a criação de um circuito para o patrimônio imaterial de Madureira, maior bairro negro do Rio (Marquinhos Oswaldo Cruz e Nanda Eskes), também me parecem dois tiros certos, dependendo de como forem executados.

13 thoughts on “La Boca em Vigário Geral?

  1. Salve, Stein!

    Bom ler sua explicação. Seria muito estranho se fosse diferente.

    Intervenções que gerem organização social não podem ser impostas de fora para dentro, tem que ser incorporadas pela população. E o Afrorreage é feito desta forma, não há dúvida.

    Do ponto de vista urbano, não impora a paleta de cores utilizada (fortes, ácidas, pastéis, primárias) o resultado é sempre péssimo quando imposto. É só olhar para os morros do complexo de São Carlos, antes de entrar no Santa Bárbara, com suas casas pintadas de branco de um lado e de verde clarinho do outro… Cores “fofinhas”, mas o resultado é um horror!

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  2. La Boca Aberta

    Embora não fosse minha intenção inicial, respondo aqui as ponderações e comentários a respeito do nosso projeto Vigário Colorido Geral. Não pretendia responder, porque na maioria dos casos, tais ponderações sofrem do mal da internet. São opiniões “instantâneas” que brotam nesses blogs sem que haja um mínimo aprofundamento no tema ou algum conhecimento de causa para sua emissão. Mas, devido a divulgação (e provocação) feita pelo coleguinha Raul Mourão, vamos lá:

    Em primeiro lugar, a comparação de Vigário com La Boca é absolutamente infundada. Basta olhar o mapa das duas cidades, Rio e Buenos Aires, para se constatar a enorme diferença situacional. Além disso, no bairro argentino (que inclusive foi uma de nossas refrências na fase de estudos do projeto) apenas um pequeno trecho, conhecido como Caminito, tem suas casas pintadas. São menos de 50. Em Vigário são 1.500 aproximadamente. Será que algum agente especulador poderia agir sobre uma região com tal número de problemas urbanos e provocaria, como sugere Daniela Name, uma debandada dos moradores atuais? E se pintarmos a Rocinha, as centenas de milhares de moradores serão desalojados pela especulação turística? É um absurdo total. Além disso é patente, tanto no texto quanto nos comentários “instantâneos”, o fato de que aparentemente meu texto não foi lido. Há uma suposição de que esse é um projeto plástico, quando na verdade trata-se de uma intervenção urbana. Os moradores escolherão as cores de suas casas, segundo seu gosto, história e preferências. Poderão mesmo escolher pintar suas casas de preto e branco. Não há imposição de padrões cromáticos. As simulações publicadas visavam apenas exemplificar o tipo de intervenção. Para maiores esclarecimentos, segue em anexo o memorial descritivo do projeto. Em verdade, como se tratava de uma matéria que englobava todas as nossas intervenções em Vigário Geral, não dispus de espaço para detalhar cada uma dessas ações.

    Li também um comentário do arquiteto Gerônimo Leitão, ex-presidente do IAB, que sugeria o mesmo. Meu texto não foi lido. Sua opinião versava a respeito da precariedade das moradias nas favelas, e evocava a tal lei paralisante das prioridades. Como podemos pensar em pintar casas tão rudimentares? Podemos porque essa é a nossa possibilidade de ação. Não pertencemos a nenhum orgão público responsável pelo aprarelhamento urbano da cidade. Acreditamos que nossa ação possa, isso sim, desencadear uma série de outras nas áreas infraestruturais. Cada um faça a sua parte. Todas as ações construtivas são bem vindas no contexto cheio de dificuldades de uma favela.

    Por fim, é importante que fique claro que não pensamos nesse projeto de forma unilateral, ou “de cima para baixo” , como sugere o texto da jornalista. Estamos a sete anos trabalhando em Vigário Geral, convivendo com os moradores e (junto com o grupo Afroreggae) consultando a comunidade a respeito de nossas proposições. Só para que se tenha uma idéia, há um movimento de grande adesão ao projeto expressado, na prática, pela pintura realizada espontâneamente por alguns moradores que ficaram sabendo da proposta. Na realidade, nem poderia ser de outra forma. Não podemos impor ou obrigar um morador (em nenhuma parte da cidade) a pintar sua residência.

    E agora sim, por último. Nossa relação com La Boca se dá através da persepção da precariedade. A mesma precariedade que levou os antigos emigrantes a pintarem suas casas com restos de tinta que sobravam dos navios, existe em nossa realidade. Pintando as casas de Vigário com três cores diferentes em cada fachada, podemos reduzir sensívelmente nosso orçamento e viabilizar nossa ação. Isso sim nos une a La Boca.

    Luiz Stein

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    1. Concordo que, antes de julgarmos qualquer coisa, o ideal é a informação prévia. Concordo também que blogs com grande visitação e credibilidade têm que tomar cuidado com o conteúdo que postam pois são também formadores de opinião.

      Apesar disso, a imagem utilizada para ilustrar o projeto foi escolhida por quem o fez, e nela fica evidente a semelhança com El Caminito. Se a imagem fosse outra mais adequada, esse post não existiria, tampouco o furor gerado em torno dele.

      Com isso, acredito que tudo não passa de um ruído de comunicação devido ao uso de uma imagem equivocada, o que poderia ter sido evitado na fonte.

      Não li a respeito do projeto ainda, portanto não posso dar minha opinião, mas tiro o chapeu para a iniciativa. Parabéns!

      Rodrigo

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  3. Fico, ainda, muito espantada de o Junior, que é um cara que conhece tão bem Vigário Geral, embarcar num projeto furado como esse.
    Ele, mais do que ninguém, deveria saber os efeitos nocivos que uma abordagem imperativa e excludente como essa pode causar à comunidade e ao próprio projeto proposto.
    Numa boa: se alguém quiser pintar a MINHA casa, eu vou querer escolher a cor… No mínimo!
    Mas concordo com você numa coisa: o tema e a abordagem da matéria são ótimos. Por isso o espanto com o projeto foi maior. Após uma boa introdução, a apresentação foi um banho de água fria no inverno.

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  4. Não sou especialista no assunto, mas acho que cores escuras esquentam os ambientes. Como as pessoas pobres precisam economizar com gastos de energia, não acho uma boa ideia pintar as paredes com cores que absorvem mais luz. Buenos Aires é uma cidade mais fria do que o Rio. Sem dúvida cores claras e suavem fariam melhor aos moradores.

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    1. Grande, Michel! Muito legais suas ponderações. Além de cores suaves, acho que seria uma boa os moradores poderem contar com livre arbítrio, né? Beijos!

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      1. Exato!
        ofereça-se a possibilidade da reforma, e cada um decide o que quer fazer de SUA casa. A casa é DELES (mesmo que alugada! estou falando de “lar”), e não do poder público ou privado.

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  5. POC, que bom que vc, que é sensata e calma, também se incomodou. Acho que a ideia geral da revista é MUITO boa e que ela vem sendo muito bem editada nos últimos tempos, por uma jornalista muito competente. Não queria que ficasse parecendo que estou detonando geral. Não sabia a história de La Boca, nada como falar de uma arquiteta de verdade. Tudo é memória, não se pode passar por cima disso… Ainda pretendo falar do Porto Maravilha também. Como carioca, acho o projeto um erro total, incompleto, fadado à desertificação. A Luz, em São Paulo, gerou “conteúdos” novos para a região sem matar o que havia em volta, como o comércio do Bom Retiro e da Rua das Noivas. E ainda não decolou, ainda é híbrida, apesar de Sala São Paulo, Museu da Língua, Pinacoteca e Estação Pinacoteca. Para mim a explicação é simples: nenhum lugar se faz apenas com UMA vocação e sem morador. Por isso a nossa Lapa dá certo… e pode deixar de dar em breve…

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  6. Dani,
    fico feliz por não ser o único ET que se mortificou ao ver a primeira proposta da Revista do Globo. Quando li a matéria, estava achando tudo ótimo. Até virar a página e me deparar com essa combinação de cores.
    Quando falamos em La Boca, em Caminito, pelo menos estamos citando um exemplo que já nasceu colorido, por motivos inerentes à sua localização. Afinal, as casas eram pintadas daquelas cores com sobras de tintas coloridas dos barcos do porto.
    Qual a história do colorido de Vigário???????????
    É para ficar “bonitinho”?
    Sou totalmente contra a glamourização da pobreza, mas, ao ver a montagem, não consegui deixar de achar, em nenhuma das fotos, o original melhor do que a proposta.

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  7. A palavra “revitalizar” em si é um crime, pois pressupõe que algo está morto. Não é uma questão estética, é ética mesmo.

    E não precisa ir a La Boca, o Pelourinho tá logo ali pra provar o que é espetacularização e gentrificação.

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