Velhas novidades para as favelas cariocas

Texto de Gerônimo Leitão

Mais uma reflexão sobre “Vigário colorido Geral” *. Este texto do ex-presidente do IAB e diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFF Gerônimo Leitão foi postado ontem por Marcelo Balbio, subeditor da Revista O Globo, no blog do projeto “Rio na Cabeça”.  Quem quiser visitar o blog, que está ótimo, é só clicar aqui


De tempos em tempos, alguém (re) apresenta a idéia de “pintar as casas das favelas do Rio”.  Até aí, nada demais: é só uma idéia como tantas outras – desta vez, apresentada na Revista, de 11 de outubro, do jornal O Globo.   Só que, além de não ser uma proposta original, ela não é boa.  Não é boa, porque traduz uma visão reducionista do que é o real problema daqueles que moram nas favelas cariocas.  Encontramos com freqüência nas nossas favelas moradias que apresentam as seguintes características: compartimentos de dimensões aquém do estabelecido pela legislação edilícia; vãos de janelas impróprios para assegurar condições adequadas de ventilação e de iluminação; instalações elétricas e hidráulicas em desacordo com a boa técnica; lajes com vazamentos, que acarretam umidade nos cômodos; e patologias estruturais decorrentes de má execução.  A precariedade e a insalubridade dessas moradias dão origem a diversas doenças de veiculação hídrica, de pele e respiratórias – não é por acaso que a tuberculose é um dos principais problemas da Rocinha.  Aqueles que as construíram, com muita dificuldade, não tiveram uma orientação técnica adequada, para que os tijolos, o cimento, a brita, o aço e a areia fossem combinados de modo a resultar num espaço edificado de melhor qualidade e menor custo – e isto, acreditem, é possível.

Recentemente, foi aprovada pelo Congresso Nacional, e sancionada pelo presidente Lula, a Lei 11.888/08, que assegura ao trabalhador com renda de até três salários mínimos o direito à assessoria técnica para a construção da moradia.  A aprovação dessa lei é o resultado de uma luta de arquitetos, engenheiros, e lideranças do movimento social organizado, iniciada na Assembléia Nacional Constituinte – há mais de vinte anos, portanto.  Transformar essa lei em realidade, regulamentando-a nos estados e municípios, é o grande desafio para aqueles que pretendem construir uma cidade mais justa.  Se os moradores das favelas cariocas tivessem acesso ao trabalho de arquitetos e de engenheiros, na construção ou reforma de suas moradias, diversos problemas construtivos seriam evitados e teríamos, assim, melhores casas e menos doenças.  Os programas de urbanização de favelas – do qual o Favela/Bairro, promovido pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, é um exemplo expressivo – realizam intervenções em espaços públicos: infra-estrutura, drenagem, pavimentação, geotécnica,  construção de áreas de recreação e lazer e de equipamentos comunitários.  A moradia – um espaço privado – não é contemplada, exceto quando se faz necessário construir novas unidades habitacionais para o reassentamento de famílias que ocupam áreas de risco.  Nesse sentido, a garantia de assessoria técnica e, também, o acesso a crédito para a aquisição de materiais de construção, ao lado da urbanização de nossas favelas, nos levariam à uma melhoria expressiva do habitat de um em cada cinco cariocas.

Pode ser que pintar as casas das favelas com cores vivas mude a sensação de “vergonha e medo” de alguns que passam pelas ruas e as vêem a distancia, mas não mudará a qualidade de vida daqueles que nelas moram.  Nada contra as cores, pelo contrário: elas alegram a vida, mas não só elas.



* “Vigário colorido Geral” é um projeto de Luiz Stein e do AffroReggae dentro da série “Rio na cabeça”. Além da implantação de um centro cultural na favela, o projeto prevê a pintura de 1500 casas da comunidade com uma combinação de cores fortes. Este blog se manifestou contra a ideia (para ler, clique aqui) e o artigo também foi replicado pelo blog do Globo ON (veja aqui)

3 thoughts on “Velhas novidades para as favelas cariocas

  1. La Boca Aberta

    Embora não fosse minha intenção inicial, respondo aqui as ponderações e comentários a respeito do nosso projeto Vigário Colorido Geral. Não pretendia responder, porque na maioria dos casos, tais ponderações sofrem do mal da internet. São opiniões “instantâneas” que brotam nesses blogs sem que haja um mínimo aprofundamento no tema ou algum conhecimento de causa para sua emissão. Mas, devido a divulgação (e provocação) feita pelo coleguinha Raul Mourão, vamos lá:

    Em primeiro lugar, a comparação de Vigário com La Boca é absolutamente infundada. Basta olhar o mapa das duas cidades, Rio e Buenos Aires, para se constatar a enorme diferença situacional. Além disso, no bairro argentino (que inclusive foi uma de nossas refrências na fase de estudos do projeto) apenas um pequeno trecho, conhecido como Caminito, tem suas casas pintadas. São menos de 50. Em Vigário são 1.500 aproximadamente. Será que algum agente especulador poderia agir sobre uma região com tal número de problemas urbanos e provocaria, como sugere Daniela Name, uma debandada dos moradores atuais? E se pintarmos a Rocinha, as centenas de milhares de moradores serão desalojados pela especulação turística? É um absurdo total. Além disso é patente, tanto no texto quanto nos comentários “instantâneos”, o fato de que aparentemente meu texto não foi lido. Há uma suposição de que esse é um projeto plástico, quando na verdade trata-se de uma intervenção urbana. Os moradores escolherão as cores de suas casas, segundo seu gosto, história e preferências. Poderão mesmo escolher pintar suas casas de preto e branco. Não há imposição de padrões cromáticos. As simulações publicadas visavam apenas exemplificar o tipo de intervenção. Para maiores esclarecimentos, segue em anexo o memorial descritivo do projeto. Em verdade, como se tratava de uma matéria que englobava todas as nossas intervenções em Vigário Geral, não dispus de espaço para detalhar cada uma dessas ações.

    Li também um comentário do arquiteto Gerônimo Leitão, ex-presidente do IAB, que sugeria o mesmo. Meu texto não foi lido. Sua opinião versava a respeito da precariedade das moradias nas favelas, e evocava a tal lei paralisante das prioridades. Como podemos pensar em pintar casas tão rudimentares? Podemos porque essa é a nossa possibilidade de ação. Não pertencemos a nenhum orgão público responsável pelo aprarelhamento urbano da cidade. Acreditamos que nossa ação possa, isso sim, desencadear uma série de outras nas áreas infraestruturais. Cada um faça a sua parte. Todas as ações construtivas são bem vindas no contexto cheio de dificuldades de uma favela.

    Por fim, é importante que fique claro que não pensamos nesse projeto de forma unilateral, ou “de cima para baixo” , como sugere o texto da jornalista. Estamos a sete anos trabalhando em Vigário Geral, convivendo com os moradores e (junto com o grupo Afroreggae) consultando a comunidade a respeito de nossas proposições. Só para que se tenha uma idéia, há um movimento de grande adesão ao projeto expressado, na prática, pela pintura realizada espontâneamente por alguns moradores que ficaram sabendo da proposta. Na realidade, nem poderia ser de outra forma. Não podemos impor ou obrigar um morador (em nenhuma parte da cidade) a pintar sua residência.

    E agora sim, por último. Nossa relação com La Boca se dá através da persepção da precariedade. A mesma precariedade que levou os antigos emigrantes a pintarem suas casas com restos de tinta que sobravam dos navios, existe em nossa realidade. Pintando as casas de Vigário com três cores diferentes em cada fachada, podemos reduzir sensívelmente nosso orçamento e viabilizar nossa ação. Isso sim nos une a La Boca.

    Luiz Stein

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    1. Luiz,

      muito obrigada pela sua carta. Gostaria de publicá-la no corpo do site, como sugeri a você por email, para que seus argumentos ganhem mais visibilidade. Aqui, eles ficam escondidos. Acho que seu texto é bastante esclarecedor sobre as intenções do projeto, sobretudo na relação com os moradores.

      A associação com La Boca foi feita espontaneamente, por pessoas que sequer se conheciam. Não conheço nem nunca falei com o Gerônimo, por exemplo. Apenas li o texto dele, depois que o meu já estava no ar há dias – ele também talvez tenha tido a oportunidade de chegar aqui no blog, que é bem recente.

      Sua resposta tira o véu de muitas coisas. Ficou tudo muito mais claro agora, pelo menos para mim. Acompanho o trabalho do AfroReggae com admiração e torço para que dê tudo certo – para o projeto e para a comunidade de Vigário. Se ela está o tempo inteiro dentro da história e concorda com a combinação de cores, não sou eu que vou discordar. Sou coerente com o que disse antes: a casa é deles. Obrigada pela sua cordialidade e receba a minha. Boa sorte.

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