Hélio Oiticica e a cultura dos escombros

Escultura de Franz Weissmann: obra também ameaçada, hoje armazenada num galpão em Ramos
Escultura de Franz Weissmann: também ameaçada, obra é armazenada com sacrifício pela família num galpão em Ramos

Passei o dia de ontem em clima de velório, recebendo ligações de artistas que, aos prantos, me passavam relatos dos escombros do incêndio que destruiu boa parte da obra de Hélio Oiticica,  na reserva técnica mantida por seus herdeiros numa casa no Jardim Botânico. Alguns, como a querida Suzana Queiroga, foram até a casa chorar pelo morto.  Sim, a destruição da obra de Hélio foi sua a segunda morte e, em se tratando de um artista, a extinção de sua anima, morte definitiva.

Mesmo em meio ao luto, é preciso evitar que novas tragédias aconteçam. Ontem, ao acordar com a notícia, escrevi neste blog que obra de arte não pode ser tratada como álbum de família (veja aqui). Continuo achando  a mesma coisa – há muito o que se discutir e regulamentar em relação ao papel dos parentes dos artistas na manutenção de acervos e autorizações de curadorias e livros, sem destitui-los dos direitos legítimos que têm como herdeiros.

É preciso,  no entanto, avançar na discussão. O fogo que lambeu obras fundamentais como os “Relevos espaciais” ou os caderninhos de anotação de HO – tão importantes para a compreensão de seu trabalho -, destruiu também todos os negativos de José Oiticica Filho, o JOF, pioneiro da fotografia nos anos 1940 e 1950, pai de Hélio e sua maior influência. Mais do que servir para que se crucifique apressadamente a família, o incêndio deve ser um alerta: estamos soterrados por uma cultura de escombros.

O que aconteceu à obra de HO também ameaça, neste exato momento, a obra de inúmeros artistas. Isso ocorre porque a lógica da Cultura no Brasil é completamente torta, precária, tacanha.  Vivemos em uma cidade, em um Estado e em um país onde o Poder Público deixa exclusivamente nas mãos das Leis de Incentivo – e, portanto, dos empresários da iniciativa privada – a decisão sobre a aplicação de verbas em projetos culturais.

Produtores, curadores e artistas vivem numa constante corrida do ouro, completamente desvalidos de diálogo, proteção e incentivo DIRETO por parte dos governos. A ação dos administradores públicos na Cultura não é um direito, é um dever. Eles foram eleitos para isso. Por tal motivo, não podem ser interventores nesta atuação: precisam ser sensíveis às demandas.

Se por um lado é espantoso que a família tenha mantido a obra de HO numa casa do Jardim Botânico, por outro é igualmente aterrador que nenhum grande museu do país tenha feito uma proposta concreta – e sustentada pelo poder público – para abrigar a obra do artista em regime de comodato, dando a ela toda a visibilidade e a segurança que um acervo como o de Hélio merecia.

É certo que o Centro de Artes Hélio Oiticica abrigou parte do acervo por um tempo, mas sem as condições necessárias para tal e sem uma política constante de exposições. Se por um lado a família atravancava mostras que não fossem diretamente sobre o acervo de Hélio – um erro absurdo num lugar que abrigou exposições como a de Richard Serra ou o último panorama da obra de Lygia Pape, ricas conversas com o “dono” da casa – por outro o município nunca tratou o CAHO com a prioridade necessária.

Fico pensando no acervo de Franz Weissmann (1911-2005), contemporâneo de HO no Grupo Frente, escultor essencial para a compreensão da arte brasileira recente.  Sua obra, parte integrante da paisagem do Rio de Janeiro, graças a esculturas públicas instaladas em pontos como a Rua Luís de Camões ou a Avenida Chile,  está ameaçada. Apesar de pedir  ajuda a todas as esferas do poder público há anos, a filha de Weissmann, Waltraud, a Wal, luta sozinha com seu marido para preservar a obra do pai. As peças estão armazenadas em condições precárias – de instalações e de segurança – em um galpão em Ramos,  na Zona Norte.  O GLOBO, maior jornal da cidade, deu uma capa de domingo de seu Segundo Caderno, assinada por Mauro Ventura, denunciando os riscos que a obra de Weissmann corria. De nada adiantou.

Weissmann em seu ateliê: estudos que ele fazia em arame e papelão podem virar pó se não forem cuidados
Weissmann em seu ateliê: estudos em arame e papelão podem virar pó se não forem cuidados

Wal também fez muitas reuniões com o Iphan e com a Secretaria Municipal de Cultura, tentando achar um lugar para a criação de um Instituto Weissmann, onde a obra possa ser abrigada e visitada pelo público.  Até agora, houve muita conversa, muita promessa de empenho, mas nenhuma ação concreta. No galpão em Ramos,  estão esculturas monumentais, peças de menores dimensões e os inúmeros estudos que Weissmann fazia com arame e papelão e revelam a minúcia de seu processo criativo.

Wal não quer vender este tesouro. Não pretende enriquecer com a obra de Weissmann e vive com simplicidade ao lado do marido, gastando suas reservas financeiras para preservar a obra. Afirma que, por não ter filhos, quer dar um destino para o legado do pai. Mas, diz, é claro, que precisa sentir firmeza, precisa se sentir segura. Está certíssima.

Houve uma grande mobilização pela restauração do painel de Aluísio Carvão na Lagoa (leia aqui). A Fundação Parques e Jardins se posicionou, dizendo que ia resolver o problema e conseguiu silenciar o movimento por um tempo. Mas não ouço falar sobre prazos. Quais são, então?

O mesmo Segundo Caderno do GLOBO, em reportagem assinada por Suzana Velasco, mostrou a precariedade das esculturas públicas de artistas da importância de Celeida Tostes, Angelo Venosa, Ivens Machado, José Rezende e Waltércio Caldas espalhadas por vários pontos da cidade. O que vai ser feito?

A secretária municipal de Cultura, Jandira Feghali, a secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, e o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, podem alegar que os orçamentos da Cultura são tão baixos que muitas vezes ficam de mãos atadas. Não estarão mentindo. Mas é preciso então que pressionemos os três para que de fato cobrem mais verba de seus superiores. Eles precisam dizer o que têm feito para conseguir mais dinheiro para cuidar de nosso patrimônio. Qual é a estratégia, além das lamentações?

Também é preciso perguntar ao Eduardo Paes: prefeito, o que o senhor pretende fazer com a obra de Franz Weissmann? A escultura pública de Ivens Machado, no Largo da Carioca, vai perecer até começar a soltar pedaços em cima dos passantes?

Escultura de Ivens Machado na Carioca, quando ainda estava em bom estado
Escultura de Ivens Machado na Carioca, quando ainda estava em bom estado

Outra pergunta, para Sergio Cabral: o senhor não acha que a construção espetacular do Museu da Imagem e do Som, na Praia de Copacabana, onde hoje funciona a boate Help, deveria gerar uma discussão mais consistente sobre a memória carioca, envolvendo DE FATO a classe artística?

Por fim, para o Juca Ferreira: ministro, como o senhor pretende armar o Iphan de recursos e de uma estratégia concreta para a preservação de nossa memória artística?

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A hora é de luto, mas também de debate e ações efetivas. Não dá mais para ficar lamentando o que não foi salvo no rescaldo. Eu fiz as minhas perguntas, quem vai fazer as suas? E quando vamos perguntar todos juntos?

37 thoughts on “Hélio Oiticica e a cultura dos escombros

  1. […] Incêndio da obra de Hélio Oiticica: o quadro acabou sendo muito menos catastrófico do que a avaliação inicial, graças a restauros e remontagens. Mas muitas peças importantes deste que é um dos maiores artistas do país em todos os tempos foram perdidas no incêndio da reserva técnica na casa de sua família,  no Jardim Botânico. O fogo que transformou HO em cinza evidenciou a fragilidade da política para aquisição e preservação de acervo do poder público brasileiro, assim como um despreparo das instituições, dos colecionadores particulares e dos herdeiros em lidar com o assunto.  Para lembrar do caso, clique aqui. […]

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    1. Pedi ao Fred para convocar uma reunião nossa – eu, vc, ele, guilherme, felipe – lá no escritório (sou vizinha dele na Villa Maurina). Vc toparia? beijos.

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  2. O trabalho do Hélio não queimou sozinho, queimou junto com as favelas em guerra, com o helicóptero, com os ônibus pegando fogo, queimou junto com os 3 policiais que morreram carbonizados, queimou junto com a dignidade dos moradores das favelas que saíram corrrendo pelas ruas, queimou junto com a vergonha na cara e da ética privada e pública, queimou junto com a “Cara de Cavalo” morto sem cara, queimou junto com a capa do jornal, queimou junto com os US Dollars que valem o seu trabalho, o meu de todos nós. Pensando assim parece que queimou do jeito que ele queria.

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  3. Copiei do meu facebook:
    Texto muito bonito. So acho que em um pais como o Brasil, nao e papel do poder publico preservar a cultura. Nos, cidadaos precisamos nos mobilizar para o que e importante. Se voce for contabilizar a maioria dos melhores museus do mundo, recebem pouca verba publica… A razao? Verba publica e incerta. Muda governo, muda economia, pode acabar…
    Precisamos de mais fundacoes, que nossos ricos, novos ricos, e classe media alta se interessem em criar fundacoes para preservacao e promocao da cultura do pais. Se o dono da Unimed pode dar 30 milhoes de reais ao Fluminense todo ano, porque nao poderia criar uma fundacao cultural com um deposito de 4, 5 mihoes? Rendendo a 10% ao ano, ja e possivel financiar a exibicao permanente de um artista no MAM.
    Precisamos tambem de mais profissionais das artes. Por exemplo, existem modalidades de venda de obras artisticas que impoe a exibicao em publico como condicao… E vendendo algumas obras menos conhecidas, pode se financiar a exibicao das mais conhecidas.
    O objetivo cultural pode ser parte do Rio 2014. Vcs sabiam que as fotos da historia de segregacao racial no futebol, e a incorporacao de jogadores negros no campeonato carioca, nao tem manutencao? Algumas estao decaindo nos arquivos de clubes cariocas… Nossa historia artistica, cultural, cientifica e esportiva merece muito mais amor dos cidadaos.
    Ate mesmo obras expostas estao sendo roubadas em RJ e SP, como fatos recentes nos mostraram.

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    1. Disse o acima, nao porque nao e obrigacao do governo cuidar da cultura, mas porque sei que isso nunca vai acontecer… Qual foi a ultima vez que tivemos um grande aporte honesto de verbas para cultura? E quando acontece, quando foi que as decisoes foram tomadas baseadas em merito tecnico historico? Como alguem que ama muito as artes e cultura brasileira, estou cansado de esperar por partidos politicos.

      O acervo de desenhos de engenharia brasileira, de 1850 para 1950, esta apodrecendo em galpoes de universidades e alguns museus mal cuidados na cidade do RJ… E uma grande tristeza. Sequer temos um estudo retrospectivo da evolucao da engenharia e do conhecimento tecnico, inclusive arquitetura, no nosso pais.

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  4. Daniela, concordo plenamente.

    O que eu falei foi em outro sentido que não o de fechar panelinhas, mas sim de fazer uma articulação para que cada um possa ajudar com o máximo de sua competência.

    Claro que eu acho que o simples fato de estudar, pensar e divulgar a obra do Hélio nesse momento já é algo importante – cada vez mais importante. Mas acho também que cabe estarmos próximos do projeto e tentar entender qual a melhor maneira de ajudá-los na árdua reconstrução que vem pela frente. Mas as notícias de sobreviventes inesperados dentre os escombros é animadora.

    E, como a discussão aqui já deixa bem claro, sem perder de vista o mais importante, que é repensar a preservação do nosso patrimônio artístico daqui pra frente.

    abs,
    Sergio

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    1. Menino, eu sei que vc não falou em se fechar em panelinhas!!! Acompanho seu trabalho de longe há tempos. Tá na horas de todos ficarmos mais perto. Bjks

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      1. Não, tá certo! Era só pra não ficar nenhum mal-entendido (comunicação por escrito tem dessas coisas…).

        Eu volto em dezembro pra me juntar aos debates fisicamente.

        bjs,
        Sergio

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  5. O Rio de Janeiro é a sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A cidade irá receber US$50 bilhões de dólares de investimentos, a sociedade terá que ficar de olho na gestão de todo esse dinheiro e seu destino. Evidente que no pacote bilionário haverá, sem dúvida, uma parte suficiente para a manutenção e restauração das obras públicas, centros de cultura, casas museus… É preciso elaborar projetos consistentes… Enfim, o momento é agora, ou a classe se mobiliza em comissões permanentes, ou teremos que lamentar as próximas perdas.
    Juca Ferreira terá que ser pressionado até a exaustão, como também seu sucessor.
    Roberto Silva, artista plástico – SP.

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  6. Dani,
    As ações começam assim, através do blog, do diálogo.
    Vivemos momentos de discussões em vários âmbitos, desde Copa, Olimpíada, Porto Maravilha, MIS, Cidade da Música…
    Há muito se reivindica um espaço e recursos à altura para abrigar com excelência a obra de HO e tantos outros artistas fundamentais para a cultura nacional e internacional, mas infelizmente este assunto ainda não encontrou uma solução dentro dos debates atuais.
    Quem sabe depois da tragédia alguma voz saltará, num momento de tantas vozes e tantas opiniões?
    Torçamos e façamos a nossa parte.

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  7. Excelente texto, Daniela.

    Discutindo o ocorrido com alguns colegas em Londres, a perplexidade era uma só: como um acervo destes estava todo num lugar só? E como esse lugar não era uma instituição devidamente aparelhada para preservá-lo?

    Diante da catástrofe há algum consolo: isso poderia ter acontecido antes de todo o programa de digitalização dos documentos. Poderia ter acontecido antes do trabalho ter começado a atrair atenção nacional e internacional (sabemos quão limitada era a recepção do HO antes da retrospectiva de 1992, e mesmo depois). Só não perdemos TODO o pensamento do Hélio por uma questão de poucos anos – o que, em termos históricos, é nada. Sorte, mesmo – ainda que dentro do contexto de um revés muito maior.

    É importante também entendermos neste momento como podemos ajudar o projeto a se reerguer. Qual o papel mais eficaz que podem desempenhar os diferentes grupos – curadores, pesquisadores, artistas, instituições, colecionadores etc – que zelam pelo trabalho do Hélio?

    Abraços,
    Sergio

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    1. Oi, Sergio. Eu e Fred somos mais velhos que vc, Felipe e Guilherme e eu tive/tenho uma outra profissão antes. Acho que o papel da nossa geração de críticos/curadores é meio árduo, mas pode ser muito gratificante. Talvez nossa tarefa neste momento deva ser não nos reunir em panelinhas estéticas e mergulhar nos acervos e na história como prioridade… Talvez eu não esteja conseguindo ser clara agora, mas acho que temos um mar para atravessar neste momento. A gente tem que se ver mais e marcar um chope quando o Felipe ficar bom. Beijoca e obrigada pela visita.

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  8. Como voce (d)escreve.

    Trabalho com exposições e caminho entre escombros. E ruinas.

    Me entrevistam às vezes perguntando sobre o que é ser curador.
    E respondo: entre outras coisas, é ser detetive.

    Muitas vezes para reunir obras desejadas numa mostra há que seguir pistas, catar arte entre os entulhos do tempo, do abandono, da má-conservação, da catalogação erronea
    nos acervos de herdeiros, em gavetas de redações/editoras, em reservas escuras de museus, com parentes distantes ou amigos diletantes….

    Os artistas se vão e as obras se espalham… se esgarçam… não é um país zeloso de memórias.
    Os zeladores que existem são abnegados. E enfrentam a negação do descaso.

    A arte vira pó, poeira, ferrugem, mofo, cinzas.

    E enquanto as traças agem
    O poder público cultural nada traça.

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    1. Ricky, isso quando as tracas ja nao comeram documentos importantissimos. Voce sabe que a primeira vez que vi um original de Machado de Assis foi em uma universidade no Texas, e nao no Rio de Janeiro? O carinho com que apresentaram a obra dele naquela univerisdade americana me chocou. Uma secao imensa da biblioteca, toda configurada, com um retrato do Machado, e com lupas para poder ler o original atraves do vidro de exibicao.

      Se um americano reconhece o valor do Oiticica, do Machado, porque nos brasileiros, e em particular, cariocas nao reconhecemos? Porque ninguem doa suas fortunas, quando da morte, para preservacao das artes, ciencias e cultura brasileira? Boa parte dos museus internacionais e financiado por tais herancas… Por isso que digo, assim como o Obama fez para se eleger, recebendo milhares de doacoes de 10 reais, precisamos salvar a arte brasileira com um movimento deste tipo… Se 200 milhoes de brasileiros doarem 5 reais por ano para preservacao das artes, ja serao 1 bilhao de reais anuais!!! Muito mais do que tudo que e gasto hoje com isso…

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  9. Nunca quis trabalhar com restauração antes. Sempre imaginei “deve ser um saco”. Mas, depois de ver essa tragédia, acho que mudei de idéia. Se nossos museus não adquirem essas obras alegando não poder preservá-las por falta de profissionais qualificados (e de recursos para financiá-los), me proponho a fazer um curso de qualificação em restauração e contribuir voluntariamente com meus serviços. É o melhor que posso fazer como ação. Acho que debater e questionar é válido, mas, conhecendo nossos políticos e quem ocupa cargos de confiança nessas gestões, sei que a conversa vai entrar por um ouvido e sair pelo outro. Prefiro apresentar algo concreto, só assim funciona. Estou cada vez mais convicta de que ações dizem e reverberam mais do que palavras.

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  10. Estamos diante do um fracasso imenso na preservação de uma obra alicerce da arte contemporânea brasileira, o maior artista, o mais influente, parte de uma constelação maior que o Brasil e que mais iluminou a cena internacional.
    Um país que consegue destruir a obra de um artista dessa magnitude o que é? Pode mesmo ser chamado de nação? Que projeto existiu algum dia na direção desse imenso patrimônio? Essa maior das mortes, a mais aterrorizante de Helio é uma dura lição para todas as partes envolvidas, jamais se conseguirá justificar essa tragédia. Morre mais um pouco do Brasil, do melhor dos brasis, a parte que nos dava orgulho imenso, alimento imenso a nós, gerações de artistas que tem Helio como uma energia implantada no DNA.
    Ontem, foi preciso ver de perto para poder crer, no cenário de dolorida fuligem e odor que ainda reverbera na minha mente, cores atravessavam as camadas negras e cintilavam, foi como reconhecer a magnitude de Helio no ar, na sua derradeira cremação.
    É urgente fazer esforços para preservar as obras de nossos artistas, as instituições não estão preparadas para reconhecer a grandeza do acervo contemporâneo, urge essa atualização, a discussão coletiva de propostas nobres para tanto, distantes da vaidade e da posse exacerbada. A obra de Helio era nosso patrimônio, meu e seu. E agora? Artistas produzem corpos que se prolongam no tempo, seu legado é amoroso, merece ser cuidado, ou, para que serve tudo isso?

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  11. estou de acordo sobre tudo o que você falou coletou etc todos nós temos que fazer algo para ajudar a salvar a arte e a memória cultural do nosso estado que é também do nosso país
    estou disponível para juntar forças para este fim
    contem comigo

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  12. 500 mil reais p/ duas exposições de um acervo que está na mesma cidade onde vai ser exposto e provavelmente sem publicação, é superfaturamento. o problema é a ganancia dos herdeiros.

    acho q o direito da familia sobre a obra é indiscutivel. a questão que deve ser trabalhada é a dinamica entre iniciativa privada e o donos de coleções já q o estado é ignorante e lento.

    quem tem um patrimonio de 200 milhoes de dolares, como foi avaliado o que foi perdido, tem um grande poder de barganha. ganancia e descaso foram o combustivel do incendio.

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  13. Prezada Daniela, que ótimo também esse novo texto! Vou divulgar o link, ok?Gostaria também de publicá-lo no jornal da Adufrj (seção sindical dos docentes da UFRJ)… o que vc acha?
    Abraços,
    Cris Miranda

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  14. 8 de julho de 1978
    a história se repete o descaso continua.
    até quando políticas tributárias ao invés de politícas culturais ?
    até quando menos de 1% do orçamento federal, estadual e municipal para a cultura ?
    até quando a ausência de políticas de fomento a produção ?
    excelente texto.

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  15. Excelente texto Dani, um texto que aborda de forma direta a questão do incêndio, para além da busca de culpados. A culpa é de toda uma visão que confunde cultura – a mania aterradora dos “eventos” e dos “planos de mídia” – com arte, que confunde a preservação da obra com a preservação do processo de relfexão, maturação e feitura da obra, que atropela qualquer plano de investimento em um acervo por uma mega exposição com capa de jornal, que interrompe investimentos ao primeiro susto orçamentário.. Ontem no globo online, mais aterrador do que a notícia do incêndio eram os comentários dos leitores (?) dizendo que o luto pela perda da obra de Oiticica (algo que ainda não dimensionamos, só lamentamos sob o impacto do evento) era palhaçada de elite que não tem o que fazer etc. Estas opiniões que desqualificam a arte e o pensamento estético são cada dia mais comuns entre os “formadores de opinião” e uma vasta parcela da população que aposta na simplicidade luciano huck para definir o que é cultura no país.

    A falta de uma política pública de acervos se articula ao completo desperdício de capital privado no quesito investimento em cultura. Os museus precisam consertar goteiras, pintar paredes, garantir a conta de luz do dia a dia enquanto fashion rocks e arvores de natal da lagoa consomem milhões. Não afirmo de jeito nenhum que não devam existir divertimentos e entretenimento para a população. Mas seu artigo diz tudo: enquanto batemos palmas para um MIS vistoso em copacabana, só quem frequenta mesmo o MIS como pesquisador sabe que se não mudar a política publica de acervos, teremos um belo shopping center midiático com um acervo cada dia mais podre, precário e decomposto.

    O projeto HO sofreu uma tragédia, que ainda se repetirá infelizmente, tenhamos certeza. Quem quer comprar a trajetória de um artista, e não a obra que vale mais? Quem quer armazenar um processo de mais de 6.000 documentos, fotos, anotações esparsas, que não servem como “commoditie” mas sim como salvaguarda da arte nacional? Qual museu no Rio, ou no Brasil, tinha condições de manter a vasta obra de HO, que só entre bólides e relevos espaciais passavam das centenas de peças? Quem se interessou em exibir isso em vida, de um artistas que morreu na merda, literalmente? Quando tivemos uma retrospectiva gigantesca de HO no Brasil como teve no exterior recentemente?

    Agora, como diria o Bide e o Marçal, é cinzas. Tudo acabado, e nada mais. Quer dizer, ainda restam o pensamento, as reproduções, a marca poética indelével na arte mundial e a indignação que sempre moveu HO frente aos limites e ignorâncias do sistema da arte e, principalmente, do poder. HO NUNCA esperou nada do poder público, muito menos do dinheiro privado. Viveu da adversidade, como sabemos. Mas creio que sua segunda morte foi um golpe duro demais. Torquato queimou seus escritos, HO teve seus escritos queimados….

    Desculpe o comentário gigantesco. Beijo grande.

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      1. Fred, ler o seu comentario me deixa uma tristeza no coracao. Mas nao podemos nos render. Nossos jovens e criancas merecem a inspiracao dos artistas do nosso pais. So para se ter uma ideia, meu pai gosta muito das obras do Oiticica. E vi algumas quando era crianca. Ate hoje lembro do bolide em caixinha, que me levou a pensar que as vezes ate engenharia pode ser arte. Acabei me tornando engenheiro projetista.

        Eu acho que por outro lado, precisamos criar um custeio da arte, historia e cultura a partir dos cidadaos. Pode ser baseado ate em descontos de imposto, mas somos nos, com nossos parcos reais, que juntando as centenas de milhares de pessoas, que iremos manter a cultura do nosso pais… A ultima defesa do saber e do conhecimento, tem que vir de quem valoriza isso, porque se formos esperar politicos ou este ou aquele empresario nada vai acontecer…

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  16. Dani, de novo seu texto é muito bom. No meio de todo esse caos, o único lado bom é essa mobilização que está surgindo em torno do assunto. Tomara que dê em alguma coisa. Gostei que voce lembrou do pai do HO – as fotografias do José Oiticica Filho são lindíssimas, ontem passei um bom tempo pesquisando sobre elas e é mínimo o material disponível online, uma pena.

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  17. Excelente, Daniela, pois é preciso ir além da tropicalmelancolia e trazer a baila as tensões entre arte e política, repensar e recolocar na ordem do dia as perguntas sobre políticas que regulam e definem o tipo de investimento em arte que vêm sendo feito por aqui, a eterna carência do básico tem consequências drásticas.

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