Ainda HO ou um pouco de história não faz mal a ninguém

Fred Coelho postou este ótimo texto em seu não menos ótimo blog objeto sim objeto não. Lê aqui, vai lá.

HO CATANDO LIXO

1) O texto abaixo é fruto de uma fala de Luciano Figueiredo, um dos curadores e principal articulador e divulgador da obra de Hélio Oiticica, feita em 1999 no Museu da República. O motivo da fala era um seminário intitulado Seminário Internacional Museu em Transformação: as novas identidades dos museus, entre 11 e 15 de setembro de 1996. Ou seja, treze anos atrás.

A fala de Luciano – e antes que digam algo contra Luciano, artistas plástico, designer, curador e crítico, deixo logo claro que prefiro alguém que cuide com zelo extremado de uma obra do que alguém que não cuida de nada e acha fácil transferir responsabilidades e apontar erros alheios com a bunda na cadeira – é um resumo sobre o SENTIDO da obra de HO e de sua manutenção que, venho insistindo, era (e ainda é, seja onde estiver pois ela não acabou por inteiro) extremamente complexa de ser guardada, mantida e preservada. A fala de Luciano é datada do momento em que o Centro de Arte Hélio Oiticica tinha sido fundado. Reparem como no começo de tudo, a família e o projeto HO estavam cem por cento voltados para a parceira, o comodato e a aceitação do Centro como espaço legítimo do acervo. O que ocorreu nesses últimos treze anos é que são elas. Antes de buscarmos culpados, estudemos as histórias.

2) Antes de transcrever o texto, uma opinião pessoal sobre a perda da obra de HO no incêndio: a dor maior, para além do valor financeiro, histórico e cultural, foi a frustração de um minucioso plano de vida/morte que Oiticica traçou para si mesmo e sua obra. Artista e pensador que equilibrou como poucos o arquivista voraz e metódico com o homem que vivia apenas a fugacidade do momento em sua plena potência, a queima de seu arquivo é, em parte, a morte de seu projeto de vida, como Luciano deixa claro no texto que reproduzo aqui. E por fim, precisa ser dito que as obras queimaram, mas o pensamento e os escritos (milhares!) de HO mal começaram a serem lidos e divulgados para além do circuito de pesquisadores interessados nele. Que a morte do acervo sirva como a libertação de suas idéias. Chega de fetiches sobre Mangueira e Parangolé, que venha a descoberta de um novo patamar de seu universos estico e poético.

3) texto de Luciano Figueiredo, 1996 (grifos meus)

Rigorosamente falando, podemos dizer que a coleção de obras que forma o acervo do Projeto Hélio Oiticica foi realizada e organizada por Hélio Oiticica como um só corpo, ou seja, toda a sua produção de obras que se inicia nas décadas de 50 e 60 foi por ele executada como um todo, ou, como o próprio Oiticica viria a defini-la em seus últimos anos como uma idéia de “work in progress”, trabalho em progresso.Não tivesse Hélio Oiticica mantido a sua produção artística praticamente fora do circuito comercial das especulações mercadológicas e também institucionais, conduzindo esta produção sob rigor pessoal e decidindo exatamente quando e onde mostrar suas obras nas pouquíssimas exposições em que participou, dificilmente seria possível hoje para nós fazer uma idéia de sua singularidade ou apreciá-la plenamente. Sabemos de sobra que a obra de Hélio Oiticica foi resultado da exploração artística brasileira da década de 60 e que este é um período de nossa História da Arte marcado pelo surgimento de novas idéias, novos caminhos e novas expressões.

As obras dos artistas do movimento neoconcreto questionaram irreversivelmente a exclusividade das categorias plásticas de então e, nesse sentido, a experiência neoconcreta representa um dos estágios mais originais da história das vanguardas no Brasil; novas individualizações e ideais fora dos cânones tradicionais da arte. Assim podemos situar a produção de Oiticica como um programa de proposições artística sem precedentes dentro do sistema museológico ou mesmo institucional. Diante disso, talvez explique-se a posição estratégica que o próprio Oiticica definiu e demarcou para sua obra, através de suas ordens conceituais. Estamos falando então de um artista que concebeu, fundamentou e refletiu a própria obra de maneira sui generis. Estamos falando de um artista que colecionou antes de todos nós sua própria obra, opondo-se ao sistema comercial e mercadológico da arte. Oiticica praticamente não permitiu que esses viessem de qualquer forma a interferir com seu rigor conceitual ou seu processo de criação.

Foi precisamente durante a década de 60 que Oiticica radicalizou posições artísticas, ética e ideológicas frente a possíveis incorporações ou mesmo absorções de suas obras pelo sistema institucional que duramente questionou. Portanto, quando lembramos hoje de tais posições e estratégias que o artista estabeleceu para a própria obra, queremos mostrar que as mesmas lograram êxito em seus objetivos, pois sua obra foi de fato preservada. Se hoje torna-se viável uma relação institucional com a obra de Oiticica e isto vem a parecer algo paradoxal, creio que devemos tentar discutir a questão aos olhos da dinâmica conceitual que possuímos hoje, pois facilmente podemos concluir que Hélio Oiticica – antimuseu, antimercado, anti-instituição – deveria permanecer como tal. Ora, o próprio fato de ter sido possível existir hoje uma instituição que tem o nome do artista e abriga o conjunto de obras que produziu é bastante revelador da vitória cultural desse legado artístico para a arte brasileira e universal. Tivesse esse conjunto de obras sido dispersado ou aleatoriamente espalhado em coleções privadas, ou em diversos museus, como teria sido possível a preservação de seu significado tal como o artista concebeu? Que lugar estaria ocupando hoje na arte brasileira? A instituição, o Projeto HO, foi criada em 1981 por César e Claudio Oiticica, irmãos de Hélio, e amigos com conhecimentos técnico e conceitual que voluntariamente realizaram estudos e pesquisas tornando possível hoje a apreciação pública da vasta produção desse artista.

Este post é dedicado aos Oiticica César e Cesar Filho, a Luciano Figueiredo, Waly Salomão e Andreas Valentin.

3 thoughts on “Ainda HO ou um pouco de história não faz mal a ninguém

  1. Excelente e oportuno este texto .
    E para quem estranhou este incendio porque não admitir intervenção de forças ocultas … tudo é energia e processos ultracientíficos existem e interferem em nossos mundos sem que tenhamos conhecimento … Quem se lembra do incêndio da obra do Torres Garcia no MAM – RJ ? Na época também se falou em atuação de forças ocultas , lembram-se ?

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  2. Adorei o post sobre o Helio. Quando aconteceu o incêndio cheguei a pensar em espiritismo rs rs. É horrível brincar com uma perda dessas mas achei que HO tinha desejado se autodestruir.

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    1. Oi, Helô! Entendo sua sensação. HO era mesmo da pá virada e este incêndio foi estranhíssimo, né? Mas o que acho mais bacana no texto do Fred é o modo como ele esclarece as características muito peculiares da obra do Hélio. Temos que abrir os debates sobre os acervos🙂

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