Na pick up do Dodô – 3

E se Hélio Oiticica tivesse um Ipod?

caetano veloso e parangoleDois sábados atrás, acordei com a notícia de que a obra de Hélio Oiticica tinha sido incendiada na casa de sua família.  Também chocado, Dodô resolveu preparar nesta Pick Up  uma homenagem nada fúnebre para HO. Se ele tivesse um Ipod, o que haveria dentro dele? Em vez de tentar imaginar, Dodô foi pesquisar nas cartas de Hélio, sempre verborrágico e metódico (guardava qualquer papelzinho), o que elas revelavam sobre a música.

Então fala aí, Hélio:

“Sempre estou com Caê, Gil, Dedé, Sandra e Guilherme, quando estou em Londres; tirei fotos de Caetano para o Pasquim (uma reportagem de Odete Lara), você viu? O lugar que Caetano e eu mais gostamos é a Round House; aos domingos eles fazem o “Implosion”, isto é, um espetáculo com grupos de pop-music, desde 3 da tarde até meia noite: todos dançam uma loucura desenfreada, é o único meio de fazer os ingleses dançarem bem, pois em geral são um fracasso; os grupos lá são sempre os maiores: Deep Purple, Who, Soft Machine etc. Marisa, escrevi um artigo sobre Bob Dylan (vi Bob Dylan a 10 metros de mim na Ilha de Wrigth, foi o show mais genial do mundo), creio que vai sair no Pasquim.”

Carta para Marisa Alvarez Lima. University of Sussex, Brighton, 9 nov. 1969

“Esse armário aqui é o Chelsea Hotel, essa geladeira é o Lower East Side. Você esteve no Filmore? Viu o MC-5? Você viu a boneca Dylan, lindíssima depois do acidente? Você entendeu aquele texto reacionário do Borroughs? Aquele boneca Christo enlouqueceu? Quer embrulhar o meu pau!! Boto o Cara de Cavalo atrás!!! Mando eliminar!!! Comigo é assim mando Johnny Karatê do Bronx correr atrás!”

Hélio apresentando sua casa no Jardim Botânico a Gerald Thomas, um adolescente recém-chegado de Nova York, 1970.


O IPOD DE HO, pelo DJ Dodô
Na continuação do post, clique no nome da música para ouvir

Tropicália, Caetano Veloso: uma escolha quase inevitável de nosso DJ. Caetano aparece na foto deste post experimentando um dos parangolés. O penetrável “Tropicália” ajudou-o a batizar a música.

Kick out the jams, MC5: Um pouco de contracultura não faz mal a ninguém. A MC5, banda de Michigan que começou em 1964 e ficou em atividade até 1972. Misturava psicodelia com rock de garagem e até um pouco de blues. “Kick out the jams” não foi escolhida por Dodô ao acaso: é a música-título do álbum de 1969 que fez a banda explodir.

Smoke on the water, Deep Purple: este clássico do rock inglês narra um incêndio que também afetou  na vida do Deep Purple. Em 1971, a banda foi a Montreaux, na Suíça, para fazer um show em um cassino. Na véspera, durante a apresentação de Frank Zappa e The Mothers of Invention, o sintetizador do Mothers pegou fogo durante o solo de “King Kong”. Alguém na plateia disparou um sinalizador, potencializando o fogo com a faísca (daí a letra falar em “some stupid with a flare gun” ). O prédio foi destruído, assim como todo o equipamento do Mothers. A “fumaça na água” do título da música foi a que cobriu o Lago de Genebra no dia seguinte à tragédia.

The Acid Queen, The Who: ao pinçar este dentre tantos clássicos do The Who, Dodô faz um link esperto da relação afetiva de Hélio com o traficante Cara de Cavalo e do envolvimento não menos passional com as drogas.

Hazard profile, Soft Machine: um bastião do rock psicodélico inglês e do movimento Canterbury, a Soft Machine teve o nome inspirado num livro do escritor – e doidão – William S. Burroughs, que Hélio chama de reacionário no texto para Gerald. HO teve um envolvimento afetivo com o então aspirante a diretor de teatro.

Positively 4th Street, Bob Dylan: Olha a “boneca Dylan” aí, gente! HO era apaixonado por ele. Maior colecionador de sua própria obra, anti-comercial por natureza, Hélio nunca se preocupou em estar, como diz a canção,  “on the side that’s winning”.

Geleia geral, Gilberto Gil: A mistureba de nosso ex-ministro, que pesca a melodia de Sinatra para fundi-la à batida da Mangueira nesta canção, é HO em estado bruto.

Exaltação a Mangueira, bateria da Estação Primeira de Mangueira e Jamelão: Lygia Pape me disse certa vez que a Mangueira tinha libertado Hélio Oiticica. Metódico e responsável ao extremo, ele teria sido um Apolo que virou Dionísio (as palavras são da própria Lygia, que ia com o amigo à favela) ao subir o morro. A bateria da Mangueira seria parceira de HO na experiência do parangolé em 1968, no Museu de Arte Moderna. Neste samba pinçado por Dodô, o conjunto de instrumentistas aparece valorizado no que tem de mais singular: diferentemente das outras escolas, a Mangueira só tem surdo de primeira. Não há um segundo surdo respondendo ao primeiro. Isso faz com que o compasso – que em outras baterias é um “tum-tum” – seja apenas um único “tum”, marcação aberta que permite o improvisso de tamborins, chocalhos, caixas e agogôs. Mais HO impossível.

=== + ===

Por causa da quantidade de músicas do Dodô, esta semana não teremos a participação de um convidado especial com seu Ipod. Esta sessão volta semana que vem, com a dica do cantor e compositor paulista Rômulo Fróes. Ele já mandou sua seleção, vai valer a pena esperar pela dobradinha que vai fazer com a sempre surpreendente Geleia Moderna de Jorge Lz.

4 thoughts on “Na pick up do Dodô – 3

  1. Pitadinhas musicais geniais do Dodô e um texto delicioso da Daniela,
    uma ótima receita para ajudar engolir o amargo da perda de quase todas as obras do Hélio.

    p.s: deixa o Caê aêê!

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