Regina Silveira na Bravo!

Escrevi para a revista Bravo! deste mês uma crítica sobre a  exposição “Linha de sombra”, panorama da obra de Regina Silveira, em cartaz no CCBB do Rio.  Ei-la:

Regina Silveira / Linha de Sombra
"Encuentro", obra feita por Regina Silveira em 1991. Não são nada sutis as sombras dos dirigentes dos países do G-7

A apropriação da apropriação

Um panorama da obra de Regina Silveira no Rio de Janeiro mostra como sua produção conversa com a história da arte

Percorrer a exposição de Regina Silveira no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro é como enfrentar os fantasmas que assombram e enriquecem a produção contemporânea. “Linha de Sombra” funciona como glossário visual da trajetória da artista gaúcha que, por sua vez, se mantém sempre de olho no passado: sua obra espelha o jogo de apropriações que tomou conta da arte a partir do século 20. “In Absentia” talvez seja a síntese dessa ideia. Planejada entre 1983 e 2000, a instalação projeta nas paredes de uma das salas duas peças de Marcel Duchamp (1887-1968) — “O Secador de Garrafas”, de 1914, e “Roda de Bicicleta”, de 1913, — e um móbile de Alexander Calder (1898-1976). A sensação é de vertigem e estranheza, como se as sombras confirmassem e fortalecessem a presença de corpos que não se encontram lá. A referência a Duchamp, fundador da arte conceitual, e à obra cinética de Calder, que se transforma ao sabor do vento, é a apropriação da apropriação — a artista escolhe dois artistas do século 20 que já haviam se valido das lições da história da arte.

A exposição, que engloba desde a série de gravuras “Anamorfas”, de 1980, até a instalação “Equinócio”, de 2002, compõe-se também de verbetes escritos pela própria Regina. Num deles, a artista nos lembra da definição de pintura, feita por Plínio, o Velho, que viveu entre 23 e 79 d.C. Segundo ele, a linguagem pictórica seria como uma sombra, a marca deixada no muro por um amante que partiu. As sombras de Regina espalhadas pelo CCBB-RJ nos põem de novo frente a frente com esse amante. Só que agora ele aparece na forma das experiências criativas acumuladas ao longo dos séculos e filtradas pela criatividade de Regina — uma das maiores artistas brasileiras da atualidade, dona de uma obra na qual nada é o que parece ser. É o caso de “Encuentro”, de 1991, que mistura a foto dos todo-poderosos do antigo G-7 — entre eles a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher — com sombras. E elas não reproduzem suas silhuetas, mas se transformam em projeções gigantescas de elementos nada amistosos, como um serrote, um revólver e uma tesoura.

Por fim, vale reparar na instalação “Irruption”, uma exibição luminosa de imagens de pegadas que recobrem uma área de mais de mil metros quadrados, a famosa rotunda do prédio. Nela, vislumbram-se, ainda que enviesados, todos os alicerces da pintura: a perspectiva, a relação do claro e escuro, a representação. E assim se completa uma exposição que demonstra bem como Regina é uma artista do nosso tempo — um tempo em que a arte se assenta sobre a arte de outros tempos.

Daniela Name é jornalista e crítica de arte.

A EXPOSIÇÃO Linha de Sombra. Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro, RJ, tel. 0++/21/3808-2020). Até 3/1/2010. De 3ª a dom., das 10h às 21h. Grátis.

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