Ó, deu Nuno Ramos

Nuno Ramos

Não é que Nuno Ramos venceu o Portugal Telecom ontem à noite? Um dos mais importantes do Brasil hoje, o prêmio é concedido a livros de autores que escrevam em português. Neste ano,  apostava-se nos bastidores na vitória de um lusitano – o jovem Gonçalo Tavares, que venceria pela segunda vez – mas os três primeiros lugares acabaram ficando com brasileiros, como noticiaria em tempo real (não fosse o apagão) Almir de Freitas em seu “Não me culpem pelo aspecto sinistro” (leia aqui).

o_nuno-ramosNuno ficou em primeiro com “Ó”, editado pela Iluminuras. Em alguns causou espanto; em mim, nenhum. Livro um tanto inclassificável – é romance? é novela? pequenos ensaios? uma série de contos? é uma única história contada em golfadas? ou várias histórias ligadas por um sopro? – “Ó” é, acima de qualquer coisa,  muito bom. E é isso que importa para os prêmios, não é verdade?

Talvez digam que o Portugal Telecom foi concedido a um artista plástico que está chegando na literatura. Eu prefiro dizer que o prêmio coroa a volta de um filho pródigo que, no fim das contas, nunca deixou o pai tão abandonado assim. Em uma fala de ontem à noite replicada no Twitter da Publish News, Nuno afirmou que, na juventude, não queria ser artista plástico e sim escritor. Ainda estudante, editou um fanzine na USP; mais tarde, manteve uma produção regular de poemas e de ensaios (o primeiro número da revista “Serrote”, lançada em março deste ano pelo Instituto Moreira Salles, inclui seu ensaio magistral sobre Nelson Cavaquinho).

Já artista plástico reconhecido, ele escreveu o livro de ficção “Cujo” (1993),  o livro-objeto “Balada”, em que um tiro de revólver atravessava as páginas (1995) e o de ensaios “O pão e o corvo” (2002), todos pela Editora 34; há ainda “Ensaio geral” (2007, Editora Globo). Também é letrista de canções, sobretudo as feitas em parcerias com seu assistente, o cantor e compositor Romulo Fróes, e com outro artista plástico, Eduardo Climachauskas, o Clima.

“Ó” mostra de maneira muito clara não só que Nuno é um ótimo escritor, mas também que nunca deixou de escrever como artista visual. O livro percorre temas muito importantes em sua trajetória nas artes plásticas: a morte;  o esgarçamento da linguagem; um corpo/conteúdo que não cabe mais num único modelo ou moldura; imagens e palavras à deriva, como mensagens na garrafa que de vez em quando encontram um cais. Tudo isso com grande capacidade de surpresa e de humor, como acontece em suas exposições.

nuno morte das casas
"Morte das casas"

Nuno já estava escrevendo quando criou instalações como “Morte nas casas”,  com a qual “fez chover” no CCBB de São Paulo em 2002.  A água que descia do teto alagava o foyer, onde se ouvia o poema de Drummond que dá título ao trabalho entoado por vozes masculinas, como num coro grego que anunciava a tragédia da enchente.  Na mesma exposição, o cofre do CCBB foi tomado por “Alvorada”, que tinha como ponto de partida o samba de Cartola.

No ano passado, levou para outro CCBB, o de Brasília, a exposição “Fala”, em que trabalhos como “Soap opera”, “Monólogo para um cachorro morto”  e  “Luz negra” se relacionavam diretamente com a palavra. (Clique aqui para ler sobre a mostra). Uma segunda versão de “Soap opera” tomou a galeria Anita Schwarcz no início deste ano. Barcos de duas toneladas foram cobertos por sabão produzido numa fábrica improvisada na própria galeria. Caixas de som foram instaladas nas proas destes barcos mumificados e alternavam dois blocos de texto entremeados por som de apito: trechos de coros gregos de Ésquilo e Sófocles e o ator Marat Descartes interpretando “Mar morto”, escrito pelo próprio Nuno.

Como se vê, o Portugal Telecom não saiu para um autor estreante.

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