Literatura ‘on the rocks’

O cabo da colher bate bem de levinho no corpo da taça de cristal – estamos em festa.  Hora do brinde, mas antes vem o discurso. Vou tentar ser breve: já está nas livrarias o “Guia de drinques dos grandes escritores americanos” ((Zahar, 104 páginas, R$ 34).  Edição caprichada, colorida, com capa dura e papel couché, o livro conta relação de 43 dos maiores nomes da literatura dos Estados Unidos – há 5 ganhadores do Nobel  e 15 do Pulitzer na lista – com a bebida. Truman Capote, Edgar Allan Poe, Dorothy Parker, Edmund Wilson, Charles Bukowski, Dashiell Hammett, Jack London e Tennesse Williams, entre outros,  são lembrados pelo seu amor por Martinis e Negronis, mas também pelo seu talento literário. Além de 43 receitas destes drinques (uns clássicos, outros redescobertos), o guia traz trechos da obra de cada um destes autores que os relacionam com a vida “on the rocks”.

O livro é uma parceria entre o ilustrador Edward Hemingway – neto exatamente de quem você está pensando, Ernest Hemingway, escritor e grande bebedor de Mojitos –  e o roteirista e escritor Mark Bailey (cujo nome não tem nada a ver, ele esclarece, com o famoso licor Bailey’s). A edição brasileira tem revisão técnica de Deise Novakoski, sommelière do restaurante Eça, no Rio de Janeiro, e colunista do “RioShow”, do jornal O Globo.

Hemingway e Bailey estavam numa festa literária um tanto chata,  sóbrios e encostados no balcão do bar, quando foram invadidos por uma onda nostálgica:  não era mais divertido quando John Steinbeck e Robert Benchley mergulhavam na piscina para resgatar garrafas de vinho?  Ou quando vovô Hemingway, já muitas doses acima, quebrava uma bengala na própria cabeça só para vencer uma aposta? Resolveram então sair em busca destes “bons tempos”. “Os coquetéis sobreviveram como a língua de uma civilização perdida”, dizem os autores, que recuperam receitas como a do drinque de champanhe e angostura de Dorothy Parker (ela adorava um Tom Collins, mas enjoava com o gim); do French 75, tomado por Djuna Barnes na Paris do Entre-Guerras, e do Mint Julep. Este último, feito com hortelã e uísque bourbon, está no capítulo de William Faulkner. Perfeito para alguém que disse que  “a civilização começou com a destilação”.

“Somos bebedores com problemas de escrita”, afirmou Truman Capote já no fim da vida, num momento em que se parecia mais com um frequentador de festas do high society do que com o autor de “Bonequinha de luxo” e “A sangue frio”. Seu coquetel no livro é o Screwdriver, que mistura vodca e suco de laranja fresco. O trecho é de “Senhor desgraça”, de 1939, em que o personagem Oreilly diz para Sylvia: “Tenho roubado, mendigado e vendido meus sonhos – tudo tendo como meta o uísque. Um homem não pode viajar pelo azul sem uma garrafa.”

“Por três vezes me confundiram  com um agente da Lei Seca, mas nunca tive dificuldade em desfazer o engano”. A frase é de Dashiell Hammett, que viveu um estranho amor com Lillian Hellman e outro não menos conturbado com os drinques. Pode-se dizer que os dois escritores passaram os 30 anos em que estiveram juntos em eterno ménage à trois com o álcool.  Nick e Nora, os personagens de “O homem magro”, de Hammett, eram provavelmente ele mesmo e Lillian, grandes bebedores de Martinis.  No livro, a receita aparece à brasileira, menos dry e mais “molhada”, com bastante vermute. Durante a Lei Seca, o gim que chegava aos Estados Unidos era da pior espécie e certamente o 21 Club, frequentado por Nick/Hammett e Nora/Liliam usava o vermute para encobrir o gosto de bebida vagabunda. Lillian também merece seu próprio capítulo. Nas receitas de coquetéis, defende o Daiquiri, criado com rum, limão taiti e xarope de açúcar na vila homônima de Cuba.

“Primeiro você toma um drinque, então o drinque toma um drinque e depois o drinque toma você”. F. Scott Fitzgerald sabia o que estava dizendo: frequentador, anfitrião e cronista das noites mais animadas dos anos 20, fazia o estilo bêbado brincalhão e chegou a pular na fonte do Hotel Plaza e a cozinhar os relógios dos convidados de uma festa em sopa de tomate.

Tennessee Williams morreu bêbado, engasgado com uma tampa de remédio.  A receita de um de seus drinques favoritos foi recuperada pelos autores: é o Ramos Fizz, criado em Nova Orleans e dificílimo de fazer. Além de levar água de flor de laranjeira, exige que se sacuda a coqueteleira vigorosamente por três minutos ininterruptos. A morte misteriosa de Edgar Allan Poe também tem a ver com bebedeira. Depois de prometer publicamente que se absteria do álcool, o escritor foi visto tomando todas numa festa de aniversário na Virgínia. Sumiu no meio do evento e só foi reaparecer tempos depois, usando roupas que não eram suas e completamente embriagado. Morreu em quatro dias e a causa do óbito até hoje não foi esclarecida. Grande entusiasta do absinto,  Poe é homenageado com o Sazerac, coquetel do Sul dos EUA que levava o ingrediente até ele ser proibido. Na receita do guia, o  substituto é o Pernod, que se mistura ao uísque e ganha um toque refrescante de limão siciliano.

“Beber é uma forma de suicídio em que a gente pode voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte”.  Para quem tomava tantos porres – difícil era vê-lo sóbrio – Bukowski até que viveu muito: chegou aos 74 anos. Abria e fechava os bares e reza a lenda que entornava 30 cervejas de uma só vez.  Seu drinque no livro não é para iniciantes: o Boilermaker mistura uísque bourbon e cerveja tipo lager. Exige fígado em dia.

Em copos longos ou shots, “Guia de drinques dos grandes escritores americanos” é para ler e beber sem moderação.

(Ah, podem brindar. Acabou o discurso. Vou sair do computador e só volto depois que comprar uma coqueteleira.)

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