Design feito pra durar

As canetas Bic aí em cima fazem parte da exposição “Ícones do design- França-Brasil”, que se despede amanhã do Paço Imperial e se encaixa perfeitamente nas últimas discussões sobre as embalagens de biscoito da Piraquê feitas por Lygia Pape, que estão sendo substituídas por uma versão mais “moderna” (leia aqui). Ao falar da Piraquê e das embalagens  das sardinhas Coqueiro criadas por Alexandre Wollner (leia aqui) – e também trocadas por uma versão inferior – não quis fazer uma ode ao saudosismo. O que está em jogo não é tradição, e sim afeto.  É ele a base da história e da longevidade de um produto de design. E, para chegar ao afeto dos usuários, um bom projeto precisa ser bom. Muito bom.

É uma equação quase igual à do ovo e da galinha, mas vou tentar explicar dando uma voltinha. Quando  montei a exposição “Diálogo concreto”, na qual Piraquê e Coqueiro foram grandes destaques, a frase que mais ouvia nas galerias da Caixa Cultural, tanto no Rio quanto em São Paulo, era “Eu me lembro”. A chave está aí: o bom design consegue se incorporar ao nosso cotidiano até se transformar num companheiro de jornada. Comi outros biscoitos na infância, mas lembro de detalhes das embalagens da Piraquê assim que fecho os olhos. Também lembro das inúmeras vezes que um saco de Bolinha ou Presuntinho foi posto em minha merendeira.  Ou da minha avó abrindo o pacote turquesa do Água. Ou do Maisena chegando à mesa para ser salpicado num prato fundo cheio de café com leite. Eu tomava aquela mistura como sopa, como café da manhã, todo inverno.

Na mostra do Paço Imperial, uma galeria de produtos inesquecíveis e sem substitutos. A maioria absoluta ainda é fabricada, alguns com pequenas alterações.

Abaixo, dois exemplos franceses e dois brazucas.

FRANÇA

CANETAS BIC – Parte do lado francês da exposição, elas representam a sedimentação da ideia de caneta esferográfica. Lazlo Biro apreentou a patente do produto em 1943, mas já trabalhava no invento há 20 anos. Mas foi Marcel Bich quem desenvolveu a versão moderna “cristal” inspirada no hexágono de cristal. Reeditando a ideia de um lápis preto, de grafite, a Bic tem ergonomia perfeita. Sua transparência permite que se veja o nível da tinta e as tampas coloridas indicam o tom da carga. Perfeição.

BANCO TAM TAM: Criado por Henry Massonet em 1924, também é conhecido como Diabolô, por causa da semelhança com o brinquedo homônimo. Foi produzido em larga escala, em inúmeras cores, a partir do boom do plástico nos anos 1960.  Banco-fetiche depois que Brigitte Bardot posou para fotos sentada em uma das versões, o Tam Tam sobrevive ao tempo também por sua funcionalidade – divide-se em duas partes com encaixe perfeito e é fácil de transportar e armazenar. O assento é removível e transforma o corpo do banco em um mini-baú.

BRASIL

O lado brazuca da mostra tem outros produtos vitoriosos, como a rede – invenção das tribos indígenas para o descanso -, as sandálias Havaianas ou o clássico desenho de Burle Marx para o Calçadão de Copacabana.  Mas tive que pinçar apenas dois.

COPOS NADIR FIGUEIREDO – Recebeu o nome de “americano”, mas não há copo mais brasileiro do que este. Como explica o texto do catálogo de “Ícones do design”, o Nadir Figueiredo se incorporou à vida no país, servindo da cerveja no boteco ao café pingado na padaria. A versão menor é perfeita para a cachacinha. Vendido por cerca de R$ 3, com mais de 10 milhões de unidades vendidas anualmente, o produto passou a figurar em restaurantes mais sofisticados, preocupados em se afinar com uma identidade brazuca.

ORELHÃO: Os desenhos das cabines telefônicas nacionais variavam muito até que, em 1971,  a Companhia Telefônica Brasileira decidiu elaborar um projeto padronizado para o país.  Diz o catálogo de “Ícones do design”: “A intenção foi criara um equipamento resistente às depredações, que protegesse o usuário da chuva, mas, ao mesmo tempo, fosse adequado ao clima tropical e que isolasse tanto quanto fosse possível o som das ruas barulhentas. O projeto de Chu Ming Silveira, arquiteta formada pela Faculdade Mackensie, logo se incorporou à paisagem brasileira”. Oficialmente adotado em 1972, o Orelhão é mesmo um show de forma e função.

15 thoughts on “Design feito pra durar

  1. Adorei este post. Realmente hoje em dia existem novas embalagens que poderiam ir direto para o lixo, emquanto outras são inovadoras e trazem maior qualidade e visibilidade, fazendo o seu papel de vitrine do produto e proteção do mesmo.
    A definição da palavra “Design” (junção do funcional com o belo) já diz quando um produto foi realmente pensado e tem uma base conceitual por trás, ou simplismente elaborado para ser mais uma mudança pela mudança.
    Um beijo.

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  2. Dani –
    acabei te conhecendo por tabela, mas já sou sua fã… até porque, pelo que sei você anda rodeada de gente boa, portanto, deve ser gente boa igualmente! Não tenho como julgar ainda!
    Mas posso julgar o que leio aqui, e julgo que acho sua forma de pensar e seus textos maravilhosos… nota mil mesmo.
    Estou me divertindo com a sessão “nostalgia”, que, não só me deu o prazer de relembrar coisas muito legais do meu passado, mas também me deu a chance de ver que não sou a única que acho que aquilo que funciona não precisa ser mudado só por conta da necessidade intensa de renovação e modernização do mercado de consumo!
    Concordo plenamente que as embalagens piraquê só perdem ao deixar para trás a sua identidade visual. Confesso que quano vou escolher um biscoito para a minha pequena, vou direto nas embalagens da Piraquê, talvez porque ao ver que é um produto que se mantem (ou mantinha) inalterado desde minha infância, me passa confiança. Sem contar que da mesma forma que mantinham a identidade visual, mantinham (não sei isso mudará também) a receita original, ou seja, livre das malditas gorduras trans, um outro subproduto da modernização… enfim… neuras maternas que não cabem na discussão…
    Mas, permanece o fato de que com a mudança da embalagem me sinto compelida a ler cuidadosamente o rótulo do produto novamente, pois eu perco a confiança no produto que me era tão conhecido… isso é uma opinião de consumidora!
    No mais, que tudo rever o banquinho Tam Tam original… na minha casa tínhamos vários desses, eu os adorava. Agora relançaram o banquinho na Tok Stok, mas, novamente, não me pareceram tão “sólidos” como os que eu tinha na minha casa… talvez seja um truque da memória!
    Diz uma coisa, nessa expo não constava a embagagem das balinhas de hortelã da Garoto? Recentemente dei de cara com uma… a embalagem foi um pouco alterada, nada demais, mas não a achei mais tão bonita quanto era… novamente talvez um truque da memória afetiva que eu tenho das taizinhas!
    Beijos e Parabéns!

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    1. Ahhhhhhhhhhhhhh que lindinha! Quando vamos nos conhecer pessoalmente, dona moça?
      A mostra do Paço era mais design de produto, sem tanta embalagem e programação visual. Mas acho a Juquinha TUDO!

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  3. Daniela, eu sou formada em artes visuais e AMEI o seu blog. Tem muita informação legal. Não sabia que a Lygia Pape tinha feito as embalagens dos biscoitos Piraquê. Seus textos são ótimos, estou devorando o blog. Já está nos meus favoritos pra eu ler diariamente!

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    1. Oi, Helena, que delícia te ler! A gente escreve exatamente pra isso – pra passar informação adiante e receber outras tantas de leitores como você. Obrigada e volte sempre.

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  4. Essa discussão aqui vai longe!
    Não vou entrar nela, só vim dizer que adorei a qualidade, sutileza e sensibilidade dos posts do blog!

    Parabéns =]

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    1. Ser chamada de sutil é o maior elogio que uma mulher – ainda mais uma mulher que vive escrevendo – pode receber. Obrigada, Arthur. Uma beijoca e volte sempre.

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  5. Como comentei em outro blog e reitero aqui, o fato de lembrar não obriga a permanência de uma embalagem no mercado. O mais adequado, a meu ver, parece ser uma espécie de museu com essas criações, ou exposições como essas q relembram a trajetória do design de produtos cotidianos. As embalagens da Piraquê são claramente ultrapassadas, basta ver as embalagens dos vários concorrentes no mercado (a Bauducco, por exemplo). É uma visualidade q não chama mais atenção nos dias do hoje. Já pensou se a Nestlé mantivesse o design original de todos os seus produtos, ou mesmo a Coca-Cola? A gente precisa ter mais cuidado com essa sanha preservacionista q parece querer manter tudo q está: a História está aí pra dizer q o mundo anda, em diferentes direções, por diversos motivos e diversificadas forças, mas o cotidiano, especialmente ele, não permanece. Não só porque a roda histórica gira como tb seria um tédio viver num mundo imutável nesses detalhes q compõem um mosaico do nosso dia-a-dia. Lembrança e memória certamente fazem bem, para não perdermos por absoluto o passado; persistência e/ou permanência da lembrança é excessivo, e até patológico em certos casos.

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    1. Discordo completamente de você. Nenhuma embalagem chama mais atenção na gôndola do supermercado do que o conjunto de embalagens vermelhas da Piraquê: Creme Cracker, Maria, Maisena e Bolinha. São sedutoras e muito chamativas. A Coca-Cola é um péssimo exemplo para você dar: o design da Coca-Cola normal é praticamente o mesmo desde sua criação. O que foi feito, depois disso, foi acrescentar novos desenhos para novos produtos e variações nas embalagens comemorativas. A Pepsi, que mudou a vida inteira, nunca conseguiu fixar um padrão na cebeça do consumidor. Não sou contra a mudança e acho que poderiam ser feitas adaptações. Jamais para pior. A nova embalagem do Presuntinho é um horror. Ninguém está defendendo um mundo imutável. As mudanças, sobretudo as funcionais, são muito bem vindas, sempre. Mas guardando semelhança com a história da identidade visual daquele produto. Esta ruptura é radical demais – e por isso mesmo burríssima. Não leva em conta o caminho trilhado pelo projeto gráfico com seus consumidores. Isso tem que ser levado em conta.

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      1. Estou extremamente ansioso por ver os novos designs na pratileira, embora aposte q a qualidade do produto (q é mais importante do q o invólucro no fim das contas) permanecerá a mesma. Vi gente aqui dizendo q a Piraquê está copiando as embalagens estrangeiras. De um lado, a Piraquê é grande exportadora para os países centrais, inclusive, como se pode ver nas próprias embalagens. Por outro, acho q há um misto de cópia e boa ideia. Pq não utilizar algo interessante q está em outro produto q nem chega aqui no Brasil? Vi a foto do “novo” Presuntinho e achei bacana. Repito q aquelas embalagens de Cream Cracker, Maizena, Maria e salgadinhos estão totalmente cafonas. Ninguém tem coragem de admitir isso e fica de saudosismo técnico. Do ponto de vista do mercado e mesmo do design, está realmente fora de moda e chama pouco a atenção. Adoro as embalagens da Bauducco, não só coloridas como tb com uma dinamicidade própria das fotos do produto e dos grafismos utilizados. E discordo q a embalagem da Coca-Cola permaneça com poucas alterações. Basta ver anúncios antigos ou qdo passam imagens antigas na TV ou fotos em exposições q se notam tamanhas diferenças, sobretudo gráficas. Diferentemente do q vc sugere, a identidade de consumo tb se modifica ao longo do tempo, pq as pessoas mudam e o mercado tb se transforma: embora haja mudanças nas embalagens de Coca-Cola, sempre achei q a Pepsi tinha mais personalidade justamente por ousar ter sua embalagem modificada periodicamente. Quem permanece parado não fica só ultrapassado. É atropelado mesmo, especialmente qdo se trata de mercado. Uma embalagem recente q mudou foi a do Café Pimpinela, a do refil. E a embalagem do Cream Cracker da Bauducco tb. Eu adoro qdo vou ao mercado e encontro os mesmos produtos com caras novas. Sempre fico achando q estou levando algo novo, ou mesmo q essas mudanças indicam preocupação e dinamismo da empresa. Novidades para os olhos fazem extremamente bem, assim como qualidade para o q está de dentro. Quem sempre se preocupa em mudar é pq não está parado, e já há uns 10 anos ao sempre ver a mesma embalagem da Piraquê tenho a (ruim) sensação de q a empresa parou e acha q a melhor maneira de enfrentar a concorrência é manter os clientes antigos pela aparência e não pela qualidade dos biscoitos. Ledo engano. Quem vive de glórias passadas é pq enfrenta dificuldades presentes e teme o futuro. Espero q não entendam q eu esteja dizendo q se possam jogar fora as embalagens de produtos, não é isso. Mas o espaço disso é outro. Mercado consumidor tem muito a ver com a marca enquanto nome, e as mudanças na aparência sempre dão a impressão de frescor e vitalidade, enquanto a permanência por muito tempo passa a ideia de estagnação e tédio. Falo tudo isso aqui como pouco conhecedor de design ou arte aplicada e mais como alguém q sempre vai ao mercado e observa a aparência, o conteúdo e o custo das embalagens dos produtos q compra cotidianamente. (Já estava eu imaginando se usássemos a mesma moda de 1920 ou de 1960, o mundo seria tão chato pq o sentimento geral seria de q as coisas não andam!)

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      2. Comentarista, lamento que vc não se identifique, do contrário poderíamos debater mais francamente. Se vc é do marketing ou o designer das novas embalagens da Piraquê, não tem problema… a gente sabe que elas vão vigorar. A Bauducco é outro péssimo exemplo pra sua argumentação. A embalagem do panetona foi modernizada no material e na dobra. Mas o design e o básico do projeto visual é o mesmo há mais de duas décadas. Abraços

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