Na Pick Up do Dodô – 4 (parte 1)

Eu e Dodô conversamos muito sobre “500 dias com ela”, comédia romântica de Marc Webb que é o meio do caminho entre o mundo cor-de-rosa de “Amélie Poulin” e a visão totalmente masculina de  “Alta fidelidade”.  Ecocardiograma do Clube do Bolinha – mas sem perder a escuta e a visão das garotas – esta é a história de Tom (Joseph Gordon-Levitt), um arquiteto frustrado que cai de amores por  Summer (Zooey Deschanel), a menina nova na firma que desfila nos corredores toda vez que precisa tirar xerox.

Summer é aquele tipo de criatura que deixa tudo meio no ar… até que um dia quem fica no vácuo brabo, sem nenhum chão,  é quem estava envolvido com ela. Crônica do fim de um amor e de seus muitos recomeços, “500 dias” vai gerar uma segunda parte desta Pick Up, porque eu vou ser cara-de-pau o suficiente para sacar a trilha sonora do filme diretamente do meu Ipod para o Pitadinhas.

Ah, sim, este é um ponto em comum entre este filme e “Amélie Poulin” e “Alta fidelidade”: trilha sonora impecável. Mas a trilha de hoje não vem da telona.  Dodô fez outra especialmente para nós, meninas.  Todo mundo já foi Tom, mas atire a primeira pedra quem não foi possuído pelo espírito de Summer e deu sinais trocados para aquela pessoa apaixonadíssima que estava ali do lado, babando. A gente já respirou fundo e dispensou caras bacanas, malas, canalhas e aquela antiga paixão louca, que tacava a gente na parede chamando nosso corpinho de lagartixa, mas um dia acordou no travesseiro vizinho parecendo nosso irmãozinho.

Os Bolinhas também vão amar o som. Mas, se estiverem na fossa, meninos, por favor: afastem-se de comprimidos e objetos cortantes.

TRILHA PARA TERMINAR UM RELACIONAMENTO COM UM RAPAZ, pelo DJ Dodô Azevedo.

Clique na música e escute enquanto lê a explicação do moço.  Ele é o cara.



1 – Cry Me A River – Shirley Bassey. Eu, se fosse mulher, terminaria comigo colocando essa música no meu ipod a todo o volume. Seja na interpretação bluseira de Etta James, na brejeirice de Shirley Bassey, ou na lânguida voz de Julie London, Cry Me A River atinge seu objetivo. Que é fazer o homem entender a qualidade de mulher que perdeu e conseqüentemente chorar um rio de lágrimas. Clássico da canção americana, Cry me a River é mãe de “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque, que você só não vai colocar para um homem escutar porque homem que é homem não entende “Olhos nos olhos”!

2 – With or Without you – U2. Taí. A maioria dos homens escuta, entende e concorda com Bono Vox. E é exatamente por isso que você está dando um pé na bunda dele: ele é maioria, é apenas mais um. Integrante do disco The Joshua Tree, With or Without you é um clássico dos últimos 20 anos. “Eu posso viver com ou sem você”, frase que encerra o refrão e é baseada em um verso de Ovídio, é auto-explicativa. O clima do arranjo, feito por Brian Eno e seus teclados new-romantic-anos-80, completa o serviço.

3 – Hit the Road, Jack – Ray Charles. Para as meninas cantarem fazendo o sinal de negativo com o dedo, bem na hora que se canta “Hit The road Jack and don’t you come back no more, no more”. “E não volte nunca mais, nunca mais, nunca mais!”. Sorrindo, claro, porque vocês, nessa hora sabem ser más. E se você não sabe, tá mais do que na hora de aprender. Com bastate bom humor, porque, como diria uma ex-namorada: “Homem é tudo palhaço!”

4 – Material Girl – Madonna. Madonna acabou sendo, na prática, a última das feministas-ao-avesso: apanhava do Sean Penn e por isso era apaixonada por ele. Estive com ela em Buenos Aires, cobrindo para a Folha de SP as filmagens do longa metragem Evita. Todo final de manhã atirava objetos pela janela, de ciúme de seu namorado que todos os dias perdia-se na noite portenha. Era uma amélia. Na vida pública, era o que de mais feminista podia-se ser. A moral da história na música Material Girl é a do desculpe, querido, você é legal, mas o limite do seu cartão crédito não é suficiente. E petê saudações.

5 – Violet – Hole. Conheci Courtney Love no mesmo dia em que conheci o seu marido, Kurt Cobain, em 1993. Ela acompanhava a turnê do Nirvana, e eu cobria a presença da banda no Rio de Janeiro para a extinta Rádio Fluminense FM. O garoto doce e triste Kurt adorava a controladora e nada confiável Courtney. Compôs e deu para ela assinar uma dúzia de músicas. Violet é uma delas. E na voz de Cournay Love e com arranjo roqueiro de sua banda, o Hole, Violet é música de pé na bunda de homem. Diz a letra: “Eu te avisei desde o início como isso ia terminar: quando eu consigo o que eu quero, eu não quero mais”. Entendeu, otário?

5 – I will survive – Gloria Gaynor. Se além de tomar um pé na bunda o rapaz ainda for obrigado a fazê-lo escutando “I will survive”, olha, vou dizer: parabéns para ele. Se livrou de uma ingrata. E sem imaginação. Mas se, no final das contas, o rapaz não se importar, pode se deliciar com esse que um dos melhores versos feministas jamais escritos: “I should have changed my stupid lock/ I should have made you leave your key.” E “trocar a fechadura” é uma ótima metáfora para quem está dando um pé na bunda de alguém. Porque é importante que o coração esteja trancado por dentro e com fechadura trocada.

6 – Goodbye Love – Brenda Lee. Interpretada por essa que é a Edith Piaf do pop para as adolescentes americanas dos anos 50, Goodbye Love é o hino do adeus sincero de uma mulher para um homem. Porque dizer que, no fundo, você está é arrasada com isso tudo, que você é pele, osso e decepção, e decepção na pele e no osso, admitir isso com sinceridade, palavrinha tão fundamental nessa hora, é perceber-se melhor. É preciso aprender a dizer adeus. Trata-se do primeiro passo para que você ensine o outro a ouvir adeus.

7 – Limp – Fiona Apple – Desta nova geração de mulheres modernas, novinhas e muito maduras, Fiona Apple é a tal grande mulher por trás do diretor PT Anderson. São dela as idéias iniciais de tudo o que o marido faz e leva os créditos. Bem casada, sabe o que se passa na cabeça de uma mulher, para quem terminar relacionamento é necessariamente um atestado de fracasso. Freqüentemente essa frustração se transforma em ressentimento com a bunda do rapaz que acabou de experimentar o peso do seu pé. “It won’t be long till you’ll be/ Lying limp in your own hand”, sem precisar dizer mais nada.

8 – Demole meu Barraco – Tati Quebra Barraco. Bom, se você está dando o pé na bunda do sujeito é porque ele, em linhas gerais, te decepcionou. Seja um chato que não te despertou paixões, um cafajeste que não valia nada, ou aquele homem maduro, de voz mansa e uma habilidade enorme em arrumar vaga que concluiu que não quer ter filhos, é alguém que te decepcionou. E você vai dar um pé na bunda dele, esquecê-lo de vez, se apaixonar de novo, ter esperança e se decepcionar de novo. É para rir ou para chorar? É pra chorar, rindo. Exatamente como ouvir o funk carioca da Tati Quebra Barraco.

9 – Gayane, ballet in 4 acts. Adagio – Filarmônica de Leningrado. Essa peça de música clássica da escola formalista quase foi escolhida para integrar a lista de músicas para se ouvir comendo trufas. Porque ela vai muito bem com vinho de Chardonnay bem gelado ou com a brisa vindo pela praça Wenceslas numa noite de verão na sacada do hotel Adria, em Praga, no verão. Ou vamos estabelecer o seguinte. A peça do compositor soviético Khachaturian foi conduzida pelo lendário maestro Rozhdestvensky como se ela tivese sido composta para exatamente isso. Ouça e pense no assunto.

10 – Olhos nos Olhos – Maria Bethânia. Não são os versos “Quando você me deixou, meu bem/ Me disse pra ser feliz e passar bem/ Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci/ Mas depois, como era de costume, obedeci” que tornam essa uma música especial. É em “Quando talvez precisar de mim/ Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim”, que está o que há de indecifrável na natureza da mulher e que, vamos supor, o rapaz a poucos minutos de tomar o pé na bunda é precisa aprender. Se ele é capaz de ouvir Chico Buarque com humildade, pense bem: talvez ele não mereça sentir o peso do seu pé.



9 thoughts on “Na Pick Up do Dodô – 4 (parte 1)

    1. É, Tatiana. O Dodô escreve tão bem que entra na alma da gente e a gente até duvida que ele comentou cada uma das músicas, né? Mas foi ele mesmo, juro. Beijos.

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  1. Quem nunca tomou um pé na bunda que atire a primeira música.
    500 Dias Com Ela é um barato. Mas será que a Summer deu mesmo sinais trocados?

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    1. Henrique, querido, isso é que eu acho fascinante no filme: Summer não é vilã, não é louca e não é santinha, como as mulheres de “Alta fidelidade” (um filme que eu AMO, não é uma crítica). Ela é gente-como-a-gente e, se desde o início diz que não quer namorar… ela também sai desfilando com Tom pela loja de decoração, brincando de casinha. Na boa, quem não quer namorar não faz isso, né? Se beijo mede amor e envolvimento, mão dada, pra mim, é compromisso🙂

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