No ateliê – Daniel Senise (parte 1)

A produção dos tijolos para "Eva" no ateliê de Senise na Lapa
Tijolos para "Eva", obra em progresso no Centro Cultural SP, no ateliê de Senise

Não poderia começar a relatar esta série de visitas que tenho feito aos artistas por outro ateliê que não fosse o de Daniel Senise, aquele onde mais estive nos últimos anos. A obra de Senise, um dos maiores nomes da chamada “Geração 80”, é o fio-condutor de minha dissertação no mestrado de História e Crítica da Arte na Escola de Belas Artes da UFRJ. Através dela e do trabalho de contemporâneos como  Beatriz Milhazes, Leda Catunda, Nuno Ramos, Luiz Zerbini e Suzana Queiroga investigo as estratégias que a pintura engendrou para permanecer como linguagem autônoma, com suas características próprias, depois da radicalização da arte conceitual.

Uma das hipóteses possíveis é a de que Senise e o grupo de artistas que sobreviveram à explosão mercadológica e um tanto marqueteira da “retomada da pintura” (muitas aspas aqui, por favor) só conseguiram esta longevidade justamente ao romper com o discurso nostálgico e eufórico daqueles primeiros anos de Parque Lage, Faap e Casa 7.

Com pontos de partida e filtros muito distintos, eles se apropriaram de procedimentos da arte conceitual para criar um projeto de pintura híbrida e expandida, que já não tem as mesmas motivações da pintura clássica, mas guarda em si toda a memória de séculos e séculos de relação com o plano, a cor, a perspectiva, o espaço arquitetônico, o retrato. É uma pintura que devora esta herança e esta história, transformando-a em outra coisa, ainda pictórica em sua espinha dorsal, mas com outras informações em sua construção.

Feita desta memória coletiva e  histórica, ela se mistura à rede de referências e de imagens de segunda geração típica dos tempos pós-modernos, importando iconografias alheias e arrasando com as hierarquias. Um dos quadros de Senise, “Last Supper” , de 1993 (clique aqui para ver), mostra isso com clareza ao mesclar um anúncio publicitário de panelas com uma das obras-primas de Michelangelo, o “Juízo final”,  na Capela Sistina, em Roma.  A chaleira do anúncio faz uma paródia ao Cristo em sua Última Ceia, cercado pelos apóstolos, e se aproxima do braço divino levantado na cena de Michelangelo a partir de seu cabo arredondado:  a alça da panela e o braço renascentista têm, na tela de Senise, gestos não só equivalentes como convergentes.

Esta pintura da geração pós-conceitual é um caleidoscópio de memórias coletivas e da própria arte, mas ecoa no repertório de cada artista e cada espectador. Talvez aí se explique, aliás, sua grande empatia com o público.

É uma longa conversa, que pode ser levada a cabo durante a visita. Vamos ao ateliê.

"Eva", no CCSPSenise trabalha  na Rua Silvio Romero, na Lapa, numa casa quase em frente ao sobrado onde ele manteve seu primeiro ateliê, nos anos 1980, com Angelo Venosa, Luiz Pizarro e João Magalhães.  Na minha última visita, o artista e seus assistentes – Manoel, o braço-direito há anos; Felipe;  Arthur e Lady – preparavam os tijolos para uma intervenção no Centro Cultural São Paulo, no bairro paulistano do Vergueiro. Inaugurada no último dia 14 de novembro, a obra em progresso se relaciona diretamente com “Eva”, escultura de Victor Brecheret que é a principal peça do acervo do centro cultural.

O trabalho no ateliê já apontava para o que se veria na exposição, que reúne ainda excelentes propostas de Ricardo Basbaum e Rochelle Costi relacionadas ao prédio. “Eva” (o nome da escultura batiza também a intervenção)  é um momento importantíssimo na carreira de Senise.  Marca um salto ousado – é sua primeira obra fora do plano – mas, ao mesmo tempo, faz uma síntese poderosa de sua história.

Nesta instalação/intervenção, a peça de Brecheret, nome seminal para a a arte de São Paulo, está sendo coberta paulatinamente por um muro feito pelos tijolos.  Na massa destas peças, Senise e seus assistentes processaram convites e catálogos de exposições descartados por galerias e museus como refugo.

A olaria foi transferida do ateliê para dentro do CCSP. Enquanto é coberta por tijolos – até o fim da exposição, vai ser completamente emparedada – “Eva”, a escultura, parece ter o pescoço virado para o lugar onde o muro está sendo produzido, passarela abaixo.

Já “Eva”, a instalação, reúne três caminhos muito importantes na carreira de Senise.

A escultura de Brecheret "olha" para a olaria onde estão sendo feitos os tijolos que vão cubri-la até o fim da mostra

O primeiro deles é traduzido pelo refugo dos convites, pelos restos. Ao longo de sua carreira, Senise  sempre trabalhou com os restos de imagem, com as sobras e a memória da história da arte.  Foi assim quando releu as paisagens e o sublime do romântico alemão Caspar Friedrich ou se aproximou da história da pintura religiosa em “São Sebastião” ou na tela sem título de 1993, em que uma auréola é  “pintada” a partir da ferrugem que se desprende de pregos.

O segundo ponto tem a ver com esta “tinta” dos  pregos e com a técnica desenvolvida por Senise a partir de 1989 e batizada por ele de “Sudário”. Falarei dela na continuação deste texto sobre o ateliê, mas é importante destacar que “Eva” reúne duas imagens poderosas no trabalho do artista: a mãe/ mulher e a não-imagem, a falta. Encobrir Eva, a primeira mulher, não é um gesto pouco significativo para alguém que criou, em 1992, um grupo de pinturas baseado no “Retrato da mãe do artista”, de James Whistler. Também não é trivial para alguém que tem na série “Ela que não está”  (1994) – a pintura reproduz a falha que uma sepultura causou num afresco de Giotto – um dos marcos de sua trajetória. A mãe e a falta talvez apontem para o mesmo lugar – o da pintura. Mas isso é conversa para o segundo tempo desta visita, prometo voltar a este ponto.

Antes, quero abrir o terceiro caminho de “Eva”. O mais evidente, mas nem por isso menos importante: a relação da obra de Senise com a arquitetura – a história dela ao longo dos séculos e o próprio espaço/escala onde cada obra nova está inserida. Este é um ponto que vem sendo aprofundado nos últimos anos. O  artista reproduziu espaços – alguns deles identificáveis, como o prédio de Niemeyer para a Bienal de São Paulo – a partir da poeira e dos vestígios “roubados” do próprio piso destes lugares. Não há tinta no processo: é a própria memória do lugar que o reconstrói virtualmente.

“Eva” está pousada sobre este tripé.  É dele que falarei com mais calma na continuação da visita, no próximo post. Até.

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