Maravilha é o Rio de São Sebastião

Não costumo misturar meu trabalho em comunicação com o Pitadinhas, mas hoje vou abrir uma exceção, porque “Canções do Rio” foi muito mais do que um desafio profissional: cantarolei lendo cada capítulo e, depois disso – percebam o milagre – desencaixotei meus CDs e não uso meu Ipod há duas semanas. Queria ouvir música sem shuffle, para cada verso ser degustado como se deve sambar, com passos miudinhos.

O livro da editora Casa da Palavra vai ser lançado hoje, feriado de São Sebastião, padroeiro desta Cidade Maravilhosa, a partir das 14h, na livraria Folha Seca, na Rua do Ouvidor. A loja de Rodrigo Ferrari, que tanto já fez pelo meio literário carioca, também comemora seu aniversário e uma edição especial da já clássica roda de samba e choro da Ouvidor anima a festa dupla.

Organizado por Marcelo Moutinho, “Canções do Rio”  traz textos de João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger mostrando como o Rio foi cantado pelos mais diversos estilos musicais através do tempo. Ler cada um dos pequenos ensaios é entender que, se o Rio foi o ponto de partida para muitas canções, as canções podem ser o primeiro passo para entender a cidade.  Moutinho sugere láááá embaixo trechos de cada autor. Antes disso, fiz uma pequena trilha para a leitura do livro, com uma canção por capítulo.

1. “Dos primórdios à Era de Ouro”, João Máximo – Palpite infeliz, de Noel Rosa (por Lucas Santtana e Seleção Natural)

2. “As marchinhas – Elas contam tudo”, Sérgio Cabral – Cidade Maravilhosa, no vídeo da campanha pelas Olimpíadas no Rio em 2016, dirigido por Rodrigo Meirelles. O arranjo  é de Antonio Pinto.

3. “O samba – Cidade, quem te fala é um sambista”, Nei Lopes – O meu lugar, de Arlindo Cruz

4. “Bossa nova – Brigas, nunca mais”,  Ruy Castro – Corcovado, de Tom Jobim (por Tom e Elis Regina, com “Águas de março” de brinde)


5. “A canção moderna – Uma cidade bonitinha e má ou os dois sentidos da palavra arrastão”, Hugo Sukman – Estação derradeira, de Chico Buarque (por Luiza Dionísio)

6. “Rock, rap, funk – E o gringo, quem diria, foi parar em Jacarepaguá”, Silvio Essinger – “Rap da felicidade”, de Cidinho e Doca

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A seguir,  os trechos  selecionados pelo Moutinho:

“Não deixa de ser curioso que, antes dos bairros da moda, do Centro mais agitado e da emergente Zona Sul, tenham sido os morros e os subúrbios os pontos mais frequentados pelas letras de música. O caso dos morros deve ser visto primeiro. Estão cobertos de razão os que dizem que a maior parte das canções enaltecendo os morros da cidade foi feita a distância, por compositores e poetas cá de baixo, movidos por uma visão idealizada da vida lá de cima. Há exceções, tanto de letras do asfalto a desglamourizar o morro, como esta, de Luís Antônio e Aldemar Magalhães: “Ai, barracão, pendurado no morro/ Pedindo socorro à cidade aos seus pés”

João Máximo

“Nasceu no Andaraí um gênero musical que o carioca viria a adotar como uma linguagem para todas as circunstâncias. Quando, por exemplo, a seleção brasileira goleava a Espanha por seis a um, na Copa do Mundo de 1950, uma multidão calculada em 200 mil pessoas festejou cantando “Touradas de Madri”, de João de Barro e Alberto Ribeiro. João de Barro, que assistia ao jogo na arquibancada, não conseguia parar de chorar, nem mesmo quando um torcedor, irritado com o pranto, berrou: “Pode chorar, espanhol!”

Sérgio Cabral

“Se Freud explicasse o samba carioca, certamente diria que nossa relação com a cidade é, antes de tudo, “uterina”. Porque uma das primeiras formas de abordagem do tema, nos primeiros tempos, foi essa, em que a cidade cantada é o ventre materno, como expressou Paulo da Portela, louvando a baía carioca, útero da cidade: “Como é linda a nossa Guanabara!/ Joia rara!/ Que beleza/ Quando o nosso céu está todo azul…/ Anoitece e o céu se resplandece/ Em seu bordado de estrelas/ Vê -se o Cruzeiro do Sul…”

Nei Lopes

“Às vezes, Tom associava o mar à solidão, como em “Inútil paisagem”, em parceria com Aloysio de Oliveira: “Mas pra que/ Pra que tanto céu/ Pra que tanto mar, pra quê?/ De que serve essa onda que quebra/ E o vento da tarde/ De que serve a tarde? Inútil paisagem”. Por sorte, nem sempre a paisagem era tão inútil, como em “Fotografia”: “Eu, você, nós dois/ Sozinhos neste bar à meia -luz/ E uma grande lua saiu do mar/ Parece que este bar já vai fechar/ há sempre uma canção para contar/ Aquela velha história de um desejo/ Que todas as canções têm pra contar/ E veio aquele beijo…”. Ou em “Wave”: “Agora eu já sei/ Da onda que se ergueu no mar/ E das estrelas que esquecemos de contar/ O amor se deixa surpreender/ Enquanto a noite vem nos envolver…”

Ruy Castro

“Já se aproximando do final do século XX, seu mais festejado compositor, Chico Buarque, definia com melancólica crueza essa nova cidade ainda linda e já brutalizada: “Rio de ladeiras/ Civilização encruzilhada/ Cada ribanceira é uma nação/ À sua maneira/ Com ladrão/ Lavadeiras, honra, tradição/ Fronteiras, munição pesada” (“Estação derradeira”, Chico Buarque, 1987). Arrancando um resto de lirismo de dentro de si (e da mais profunda tradição musical carioca, representada pelas escolas de samba), Chico complementa a nova visão que a música brasileira tem de sua cidade-símbolo: “SãoSebastião crivado/ Nublai minha visão na noite/ Da grande fogueira desvairada/ Quero ver a Mangueira/ Derradeira estação/ Quero ouvir sua batucada, ai, ai, ai”.

Hugo Sukman

“O rock pode ter começado sua caminhada pela cidade em Copacabana, mas, desde cedo, apontou para a Zona Norte e os subúrbios. Quem deu um toque foi Alberto Borges de Barros, o Betinho, um dos primeiros brasileiros a empunhar uma guitarra elétrica. No pré-rock “Neurastênico”, que ele gravou em 1954, seu aviso era um só: “Preciso me tratar/ Se não, eu vou pra Jacarepaguá”. E deve ter ido mesmo, porque, anos depois, Copa, Ipanema, Leblon… toda a Zona Sul, enfim, viraria campo livre para os bossanovistas, com seus violões e canções de amor e flores. Era a época em que os futuros ídolos do rock brasileiro Roberto e Erasmo Carlos rondavam a turma da rua do Matoso, na Tijuca (“Haddock Lobo/ Esquina com Matoso/ Foi lá que toda confusão começou”, cantaria, muitos anos depois, outro integrante da turma, o soulman Tim Maia), e sonhavam com um convite para um dos saraus bossa no apartamento de Nara Leão. Em vão”

Sivio Essinger

4 thoughts on “Maravilha é o Rio de São Sebastião

  1. Dani, pena não poder ir, mas to de boca aberta aqui…. tenho orgulho de ser carioca e de terem tão grandes compositores no nosso Rio..me emocionei com a música q o Arlindo canta … esse livro deve ser o máximo.

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    1. Oi, Marco, desculpe nossa falha técnica. Isso é que dá postar tão cedo, o cérebro ainda não pegou no tranco. Ainda bem que tenho leitores revisores… Uma beijoca!

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  2. Caro, o vídeo da campanha das Olimpíadas não foi dirigido pelo FERNANDO Meirelles e sim pelo RODRIGO Meirelles. E vale também citar que a adaptação e arranjo da canção são do Antonio Pinto, nosso grande trilheiro de cinema.

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