O canto de um lugar – Waltercio Caldas

Waltercio e os livros: relação antiga e riquíssima

Waltercio Caldas está lançando, pela Cosac Naify, o livro  “Salas e abismos”  (R$120). Catálogo para sua exposição homônima em  cartaz no Museu Vale, em Vila Velha, no Espírito Santo, a edição acabou se transformando em uma  espécie de visita-guiada gráfica ao trabalho do artista. Colaborei com a Cosac no material de divulgação do livro, realizando uma longa entrevista com Waltercio.

Na conversa que reproduzo abaixo, ele fala de como foi fundindo as noções de escultura e ambiente em sua obra, fazendo também com que cada trabalho de arte se transformasse em sua própria exposição. As salas e abismos que dão título ao livro são, segundo ele, um resumo de sua trajetória:

“Não tenho fases, existe um núcleo invisível percorrendo todas as obras. Minha intenção sempre foi fazer que um lugar cante”.

Qual a relação entre a exposição homônima ao livro, em cartaz no Museu Vale (Vila Velha-ES), e esta edição da Cosac Naify?

WALTERCIO CALDAS: A exposição apresenta 11 ambientes e tem mais de 1000 metros quadrados de área, o que me deu a possibilidade de montar trabalhos grandes e criar um percurso de visitação. O espectador visita uma sequência predeterminada de salas. Seguir este percurso é esclarecedor pois cada uma destas salas tem sua propria poética mas também interfere na seguinte.  Sendo assim a  exposição complementa  os próprios trabalhos.  Já no livro,  foram reproduzidos 25 ambientes, alguns  montados no Brasil pela primeira vez.  Tentamos criar um novo espaço , um espaco impresso , digamos assim, e também ai há a intenção de que uma obra  pode e deve  interferir na experiencia  de outra.

O título Salas e abismos parece fazer uma síntese de seu trabalho. Como se dá a relação entre ideias aparentemente tão díspares, as salas, ambientes fechados e conclusos, e os abismos?

WALTERCIO: Fiquei muito contente ao ver a reunião destes trabalhos no livro e me surpreendeu  a evidência deste  fio invisível que une todas as imagens. Em um dos textos, a  (crítica de arte) Sonia Salzstein  diz que estes trabalhos  são sempre “contemporâneos,no sentido forte do termo” talvez porque  não estejam submetidos apenas `as questões da época.  Ao longo de todos estes anos, minha intenção sempre foi fazer com que os lugares surjam, cantem,  e celebrem sua capacidade inicial de aparecer. O “lugar” é a questão fundamental no trabalho. Meus esforços são no sentido de criar objetos que se assemelhem ao lugar que ocupam, formando um conjunto que só ganha sentido  a partir da relação entre eles. Estas salas desvelam novas situações ambientais.  A partir daí, em suspensão, o visitante encontra  sua própria visão  antecipada na vertigem, no abismo.

No texto de apresentação da exposição e do livro, o crítico Paulo Venâncio Filho escreve que uma de suas características de seu trabalho é esta capacidade de aparecer, isto é, a maneira como o ambiente é montado e “aparece” aos olhos do público é importantíssimo, com a exposição se confundindo com o próprio trabalho. Ele também diz que as antigas caixas, que você fazia muito na virada dos anos 1960 para os anos 1970, foram se transformando nas salas. Como se deu este processo?

WALTERCIO:  Trato os ambientes como esculturas.  No início estas relações de aproximação e contradição  se davam dentro de caixas (caso de Condutores de Percepção, de 1969, reproduzido no livro). Aos poucos, a escultura foi se confundindo com o espaço, reforçando a ideia do lugar como questão fundamental do trabalho.  Nas grutas de Lascaux pesquisas revelaram que não havia vestígios de fuligem no teto das cavernas onde foram feitas as  pinturas. Se aquelas figuras foram pintadas no escuro, vejo aí uma tentativa inequívoca de expandir o  mundo, representando-o;  aquela sala, aquela gruta queria ser mais ampla do que o espaço físico que a limitava. Tento algo semelhante: criar novos limites para os objeto a partir do espaço que os constrange ou, quem sabe, um objeto tal qual  a pele de sua presença.

Voltando ao livro: ele também é uma visita ao seu trabalho ao longo do tempo. Você poderia falar mais destas questões de época que percebeu em algumas obras?

WALTERCIO: Creio haver um núcleo invisível que percorre todas estas obras, um núcleo que é a interseção dos meus desejos inconfessáveis. . Mesmo em salas  realizadas  em épocas distintas este núcleo está lá esclarecendo  diferenças e  semelhanças. Mas há questões de cada período que aparecem claras, também. Em Ping ping (1980), uma ironia muito grande e o jogo aparecem como protagonistas deste trabalho que fala da cegueira. O livro estabelece  uma relação  interessante entre ele e O silêncio do mundo (2009). Outro trabalho que fala muito de sua época e até mesmo antecipa as questões de um período é  “A Velocidade”, que apresentei na Bienal de São Paulo  em 1983). As paredes eram forradas por embalagens de chiclete Adam´s alteradas especialmente para a ocasião, sem a logomarca e com apenas as cores correspondentes a cada sabor…

E também se relacionavam diretamente com a escala monumental da pintura deste período, não é? Além de lembrar do pontilhismo do Seurat…

WALTERCIO: Havia uma relação com a pintura e como esta era tratada em eventos como  as bienais mas também com as questões industriais e de mercado que foram marcantes na arte desta época. Uma vertigem bem humorada- e critica- sobre a “industria cultural”

O livro dá oportunidade aos brasileiros de verem trabalhos como Quarto amarelo (1999), nunca apresentados aqui no Brasil. Este ambiente mostra como você constrói seu trabalho a partir de coisas muito simples, não?

"Quarto amarelo" em mostra na Espanha: inédito no Brasil, ambiente foi incluído no livro-exposição

WALTERCIO:  Paulo Venâncio menciona no  texto de apresentação de Salas e abismos que  consigo realizar minhas operações esteticas sem usar nenhuma tecnologia. E é exatamente isso: não adultero a natureza de nenhum dos materiais com que trabalho. O aço continua aço, mantem suas carcteristicas originais,  o mesmo acontecendo com as tintas, as pedras, os fios e os vidros. Em Quarto amarelo, enfatizei a arquitetura do Centro Galego de Arte Contemporánea, em Santiago de Compostella. O  vão da sala formava um ângulo e  pintei as duas paredes com o mesmo tom de amarelo. De frente uma para outra, as paredes eram duas  imensas regiões , irradiando o amarelo para o chão e as outras paredes. Os fios de lã que pendiam do teto, também amarelos, prosseguiam no reflexo do chão, mudando a percepção do ambiente arqutetônico.

O livro apresenta relações entre os trabalhos. Maçãs falsas (2008), por exemplo, se comunica com a Série Veneza (1997) ao falar da relação com a história da arte e com as naturezas-mortas, não? Por isso os trabalhos são mostrados em sequência na edição?

WALTERCIO: Esta é a intenção do livro, criar novas visitações situações impressas. Velocidade(1983) se complementa em Orquestra (2005), ambas com sugestões sinfônicas por camadas transparentes. É como  suspeitar  da localização  improvável dos  sons. Desconfio que esta  obra ainda me trará muitas surpresas.

Os livros sempre foram uma questão em seu trabalho. Você criou livros-objeto, trabalhou com palavras e também fez do livro  o ponto central de algumas obras, caso de Uma sala para Velásquez (2000). Agora a edição da Cosac e Naify também tem uma versão para colecionadores, que vem com um segundo livro, numerado e assinado, com desenhos e aforismos, pequenas anotações suas. Qual é a intenção?

WALTERCIO: Creio que os livros também podem ser  salas… ou abismos. São objetos maiores por dentro que por fora, mas que se abrem para a suspensão e a vertigem.  Na realidade livros são objetos da família dos espelhos e dos relógios. Este segundo livro  foi pensado como um espaço gráfico de visitação  irrestrita. Um passeio  através  de  palavras  impressas.

Em seu texto, Paulo Venâncio Filho também relaciona os fios de lã e hastes de aço que sempre fizeram parte de seu léxico visual com os sinais de parênteses, que você também usa muito. Os parênteses são, ao mesmo tempo, limite e suspensão?

WALTERCIO: É isso. Os parênteses sugerem um lugar além da linguagem  e retiram do texto o seu lugar de origem. Tenho uma confiança ilimitada no desconhecido, afinal sempre existirão outras salas e outros abismos.

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