O texto da parede

"Toda pessoa tem sua vida secreta", de Fernanda Figueiredo & Eduardo Mattos, um dos trabalhos no Memorial da Am. Latina

Este é o texto que apresenta a exposição “Jogos de guerra”, que será inaugurada no dia 6 de março, no Memorial da América Latina. É um texto curto e informal, para a parede, mas sofri como nunca.  Escrever é sempre penoso, mas um “texto da parede” é um sofrimento em público, do qual não se esquiva. Aliás, é impossível desviar de qualquer texto. Escrever é sempre uma guerra, mas é um vício.  Estou me armando para o catálogo…  E vou distribuir escudos para os mais íntimos para a hora em que eu soltar faísca.

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O embate com o outro está na raiz dos países, das paixões, da economia e dos idiomas.  Se quem ama morre um pouco, perdendo ou vencendo batalhas íntimas, quem fala vira assassino de outros falares. Não se cria uma língua sem arrasar com outras.

O português que aprendemos no Brasil só se afirmou como idioma oficial ao destruir os léxicos de tupis e guaranis, roubando para seu corpo parte da alma dos vencidos. Mais tarde, os dialetos dos escravos africanos arredondaram frases e destacaram as vogais, adoçando nossa fala rumo à música.

Por que estou falando de língua numa exposição de arte? Porque uma de minhas tarefas nestes Jogos de guerra é escrever. Um texto é uma sucessão de batalhas, da qual dificilmente se sai ileso.  O consolo é não estar sozinha: esta mostra conta com trabalhos que apresentam o confronto dos artistas com sua própria obra ou o meio que os cerca.

Nesta arquitetura desafiadora criada por Oscar Niemeyer, que muitas vezes duela com o que ousa ocupar seu espaço interno, apresentamos uma sequência de obras de arte em um ciclo de conflitos e tréguas.

Vemos a antropofagia dos tempos coloniais, em que os tupinambás engoliam o homem branco para tirar dele sua força, mas também a guerra de todos os exércitos, do dinheiro, da religião, da cultura de massa e das raças.

É a guerra que começa na infância, quando aprendemos num tabuleiro de “War” a arrasar com os exércitos azuis conquistando Aral, Dudinka ou Vladvostoki. Ou a odiar o time de futebol do vizinho do apartamento 32, transformando o playground em batalha campal depois da disputa de pênaltis no Parque Antártica (ou no Morumbi, ou no Pacaembu, ou em Vila Belmiro, não fiquem nervosos, por favor).

É a trincheira urbana do tráfico, com suas balas traçantes, mas também o bunker do isolamento, que impede a visão de semitons e diferenças. É a violência doméstica, do inimigo mais próximo,  e as depressões e pesadelos que estão apenas dentro de cada um e são um tipo de tormento para chamar de seu.

Jogar com a guerra é encontrar o jeitinho, a fresta, a metáfora, a trilha que ilumina a estrada principal.  A arte é um dos melhores modos de começar a partida. Os negros derramaram melado de cana nas consoantes brancas e plantaram em nossa língua a herança que é sua pequena-grande vitória. A ironia, o humor e as sutilezas que constituem alguns dos trabalhos apresentados aqui vão na mesma direção. Rir da desgraça, purgar o crime e satirizar o algoz é enxergar a briga de outro ângulo, revisando estratégias.

A arte é bandeira branca e ao mesmo tempo munição e revide.  Às armas, então.


9 thoughts on “O texto da parede

    1. sim, a parede onde vai estar o texto é em sp. mas a menção ao Parque Antártica também é uma homenagem ao meu revisor paulistano, um craque.

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