Assassina de Glauco foi a loucura, não a violência

Glauco como "padrinho" do Santo Daime, tocando acordeão em um dos cultos da Igreja Céu de Maria
Peço desculpas aos leitores, mas vou mudar hoje o tom do blog para discutir um pouco as mortes do cartunista Glauco, criador do Geraldão, e de seu filho Raoni, ontem de madrugada, em Osasco, grande São Paulo.
Quando ainda se acreditava que os dois haviam sido mortos num assalto, li no Twitter, estarrecida, inúmeros pedidos de execução sumária “dos bandidos”.  “É por isso que não tenho pena quando bandido é morto pela polîcia”, disse uma conhecida. Um absurdo, já que a lei do olho por olho e dente por dente nunca funcionou, desde que o mundo é mundo.  Aqui no Brasil,  a aplicação desta moral bíblica chega sempre encobrindo um desejo de faxina social e racial muito perigoso. Meu assunto é outro, no entanto.
Glauco, sabe-se agora, não foi vítima “dos bandidos” e sim de um rapaz branco, olhos claros, classe média alta, matriculado em universidade e morador de Alto dos Pinheiros ou do Pacaembu (as reportagens divergem sobre seu endereço, já que os pais – isso também não está claro – parecem separados), dois barros nobres de São Paulo.
O cartunista não foi morto “pela violência”, esta coisa tão concreta e ao mesmo tempo tão abstrata quando passa para o plano do discurso. Não adianta pedir paz, não adianta levantar bandeira branca, porque o que matou Glauco nenhuma polícia controla. A assassina de Glauco e Raoni foi a loucura. Neste caso específico, desequilíbrio psicológico temperado com ervas alucinógenas da Amazônia e uma congregação religiosa em que as hierarquias são muito claras (e, portanto, a ascensão muito desejada).
Sou a favor do respeito às crenças, sejam elas quais forem, embora as minhas andem cada vez mais frágeis. Mas tenho fé inabalável em Sigmund Freud e todos os estudos sobre psiquiatria e psicanálise. A combinação entre juventude, instabilidade psicológica, drogas e religião é nitroglicerina pura.
Vejam bem: religião e drogas, separadamente, podem não trazer problemas. Alguns podem até achar a solução. Para quem tem a cabeça boa, religião COM drogas também pode não ser risco. Mas para quem, como tudo indica, tem a mente fissurada e necessita de acompanhamento psiquiátrico, este binômio pode  ser a chama que acende o pavio da bomba.
Acredito que há no Santo Daime, uma doutrina cristã, uma mensagem de paz e congraçamento interessante, a mesma que está no pano de fundo de todas as religiões. O problema, neste caso, é a superfície. Transes, cantorias, alucinações com estímulo externo (o chá da Amazônia) e hierarquia forte dentro de uma “comunidade” não são para qualquer cabeça. É preciso ser forte para aguentar o tranco… Ou fraco demais, para tombar de vez diante da mistura. Quem está no meio do caminho – é alguém ainda de pé, mas com uma ferida grave no campo psíquico, como parece ser o caso do assassino – pode não aguentar.
Hoje se sabe que o chá não causa dependência química, tanto que foi liberado pelo Conad. Mas a viagem xamânica que proporciona pode não ser plenamente administrável para alguém com tendências psicóticas. Também não acho plausível uma comunidade religiosa se aventurar na reabilitação de ex-dependentes, porque é um processo tortuoso, que exige acompanhamento médico e todas a proteções possíveis. Se isso era realmente feito pela Igreja Céu de Maria, toda a comunidade estava muito exposta, especialmente Glauco, que era o líder, e sua família.
É bom que se esclareça: NADA justifica as mortes e torço para que o suspeito seja encontrado e, provada sua culpa, que pague por estes crimes bárbaros que cometeu. Mas é preciso ponderar que a cobertura da  imprensa para a morte de Glauco e Raoni está passando ao largo destas questões importantes, talvez pelo fato de ele conviver com repórteres e editores do maior jornal do país – a Folha de S. Paulo, onde publicava sua tiras.  Além de talentoso, Glauco era uma figura adóravel, muito querido por todos.  Talvez ainda não haja distanciamento, mas precisa haver. É um caso para uma análise que vai além da comoção e da ocorrência policial.
Loucura é coisa séria.  Os pais da classe média tem que estar mais atentos aos seus filhos… e os jornais podem dar uma ajudinha.  Qualquer grupo mexe com noções de pertencimento. Uma rejeição como a que parece ter acontecido com o assassino – o rapaz estava afastado na marra da Igreja Céu de Maria  há seis meses, dizem as reportagens – somada a dependência química, mergulho místico e fissura psíquica… Alguma chance de isso terminar bem?
A loucura, as drogas e um mergulho místico sem rede de proteção podem ter matado Glauco.  A violência não tem nada a ver com isso. É consequência e moldura, não é a causa.

11 thoughts on “Assassina de Glauco foi a loucura, não a violência

  1. O assassinato de pai e filho e a tentativa de fulga do Brasil frustrada onde o criminoso trocou tiros com um policial da para ter uma ideia de como pensa o assassino, não tem nada de fanatismo religioso quem atira na policia tem medo de perder a liberdade o confronto poderia ser fatal para o assassino,Homicida fanatico não tem medo de ser preso e não esbolsa reação quando e preso existe mais de 5 versões sobre o caso as investigações vao trabalhar com todas o criminoso tinha uma relação com a familia isso demostra uma execução anunciada prevendo a logistica da fuga e ganho com o serviço as vidas ceifadas valeram milhões isso sim é fanatismo pelo dinheiro….dificilmente vão mudar a historia pois as leis do Brasil favorece criminosos, queria ver se tivese pena de morte no país os criminosos entregaria até mãe…

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  2. Oi, Daniela. Em primeiro lugar, acabo de descobrir o blog, e gostando muito.
    Fiquei chocado como todos com a morte do Glauco, e, como quase todos, pensei na violência etc. Quando surgiram os esclarecimentos, fiquei perplexo, mas ao mesmo tempo um pouco aliviado ao ver o respeito como ele geral foi tratado o Daime nas reportagens. A Globo se referiu a ele como “doutrina cristã”, nitidamente com a preocupação de não soar sensacionalista culpando os adeptos de fanatismo, ou coisa assim. Pelo menos isso. Que um acontecimento tão triste não seja usado para amplificar preconceitos e terrorismos, como quando aparecem pessoas clamando por pena de morte logo depois de crimes terríveis, como se uma morte justificasse outra.
    Quanto ao tema em si, indico o comentário feito no sítio “Saindo da Matrix” sobre o uso de substâncias alucinógenas em rituais religiosos. O link (pode botar?) é http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2010/03/o_contexto_da_a.html . É tão lúcido quanto o que você escreveu. Beijão.

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    1. Oi, Tulio!
      Atualizei o texto depois das minhas últimas leituras, relativizando algumas de minhas opiniões. Mas continuo achando que a comunidade da Céu de Maria estava muito desprotegida. Se puder, lê de novo. Smack!

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  3. Isso me remete tanto ao caso John Lennon, essa fixacao, esse destempero. A questao das religioes sempre permeando a questao da liberdade. Imagino que as vitimas de agora, pai e filho, tenham usado os dogmas e doutrinas da congregacao em prol da propria sociedade. Mas obviamente ha hierarquia em toda comunidade, mesmo na ideologia anarquista, onde mentores sao ouvidos e estudados. O poder, a politica, a psicopatia, neurose, seja la que nome tenha. Mas Lennon tambem morreu seguindo sua doutrina, e morreu por ela por assim dizer. Acho que aqui este homem cumpriu sua missao, que e bem maior que seus quadrinhos. Algo me diz que este caso sera o redemoinho que ha de gerar questionamentos adormecidos ou atirados para debaixo do tapete…Acordemos, despertemos de nossos sonhos. Ha um punhado de pessoas enxergando e uma maioria esmagadora que ainda acha que camisinha nao e tao importante assim, ou que ler e escrever sao artigos de luxo, ou que montar um templo evangelico e futuro garantido…ou que e Jesus encarnado…PZ! E Dani, voce e guerreira!

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  4. Daniela, não entendi botar o daime no mesmo saco de outras drogas, uma vez que o seu uso para fins religiosos e terapêuticos já foi reconhecido legalmente há muitos anos. não sei se você sabe mas o Glauco (e a sua comunidade) desenvolvia um trabalho social importante com dependentes químicos, e infelizmente, por isso mesmo, estava muito mais exposto, como se viu nesse triste acontecimento.

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    1. Oi, Livia. Não sabia. Uma pena que num primeiro momento o advogado da própria família (!) tenha tentado dar outra versão para o ocorrido em vez de falar de assalto (!). As reportagens estão incompletas, está na hora de esclarecer justamente todas estas relações. O Glauco era o máximo e em nenhum momento estou condenando a religião ou o trabalho dele. Só acho que religião e catarse, para uma mente frágil, pode não ser uma boa coisa. O assassino tem que ser encontrado e punido pelo que fez.

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  5. Enfim, alguém. Daniela, muito bom. A discussão não trata de choque devido à secular desigualdade social, ausência de educação ou da força esmagadora do tráfico. Trata de outro fenômeno: a busca do intangível, a obsessão por ascender a um plano “superior” e, dessa forma, distanciar-se do nosso pequeno mundo. Alienar-se diante das questões práticas, chatas e repetitivas do dia a dia. Religiosidade que desconecta empobrece, adoece e mata.

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    1. Daniela considero muito importante seu olhar sobre o caso Glauco céu de maria, precisamos ser humildes diante de patologias severas como a esquizofrenia e a psicose, ainda mais quando não se tem experiência e muito menos conhecimento adequado para isso, são paulo tem excelentes clinicas de recuperação e tratamento especializado, Glauco era um cartunista um artista me parece que não tinha conhecimento sobre psicopatologia e seus tratamentos, não é, me parece que ele nao tinha lastro nessa área. Tratar alguem exige anos de labuta e experiencia clinica, Não seria mais humilde reconhecer os limites do Daime e respeitar a si mesmo e aos doentes que necessitam de tratamento, tratamento mesmo, pois com a loucura nao se brinca.
      paulo da silva
      psicologo

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