E eles abriram a Caixa (Parte 1)

"Até onde o mar vinha. Até onde o Rio ia": trabalho de Guga Ferraz mostra com a gigantesca faixa de sal grosso o limite da praia antes do aterro da região do Castelo

“Projetos (in)provados”, exposição em cartaz na Caixa Cultural do Rio de Janeiro,  é muito feliz ao testar as fronteiras entre arte, arquitetura e urbanismo.  A curadora Sonia Salcedo del Castillo propos a 12 artistas que se relacionassem com o prédio da instituição, na esquina das avenidas Rio Branco e Almirante Barroso, no Centro, e com os arredores do Largo da Carioca e do Castelo. Fernanda Junqueira, Guga Ferraz, Jarbas Lopes Luiz Monke, Marcos Chaves, Neno del Castillo, Raul Mourão, Regina de Paula, Ricardo Becker, Ronald Duarte, Suely Farhi e Zalinda Cartaxo aceitaram o desafio.

A relação com o espaço está na origem da arte. As pinturas de Lascaux não estavam em árvores ou na terra, mas nas salas escuras das cavernas,  onde ganharam escala, resguardo e sobrevida. Muito mais tarde, fosse nas capelas  da Renascença ou nos murais modernos, nos apartamentos rococó de Paris ou no jardim de esculturas da nossa Praça Paris… arte, arquitetura e urbanismo sempre andaram próximos, frequentemente com a primeira subordinada aos outros.

Na Alemanha da República de Weimar, a Bauhaus já tinha testado estas fronteiras, propondo ambientes em que três pilares intercambiáveis – arte, design e arquitetura – eram igualmente importantes.  Modernistas brasileiros como Oscar Niemeyer também tentaram a fusão, embora nem sempre com muito êxito: costumeiramente, a obra de arte foi usada como ilustração do projeto arquitetônico, quase um apêndice da arquitetura “pronta”.  Contemporâneos como Frank Gehry, Jean Nouvel ou Rem Khoolhas têm provado que as distâncias podem ser cada vez menores: em vez de usar obras de arte, eles fazem prédios que são um pouco estas obras.

A exposição na Caixa mostra que o diálogo na mão inversa também é possível.  Se a escultura contemporânea pode influenciar o prédio multifacetado e espelhado do Guggenheim de Bilbao, de Gehry,  também é legítimo que a cidade e suas construções deixem de ser apenas imagens para passar a constituir as obras de arte.

Guga Ferraz demonstra isso de maneira lírica, mas muito objetiva e potente.  Em “Até onde o mar vinha. Até onde o Rio ia” (veja o álbum de fotos aqui), o artista criou uma faixa de sal grosso quilométrica margeando a avenida Presidente Wilson e chegando quase à escadaria da Igreja de Santa Luzia. O mar realmente ia até ali antes do desmonte do Morro do Castelo e do aterro da região.  Fotos mostram que, em dias de maré cheia, a água chegava a subir a escadaria da igreja.

Ferraz sempre fez das questões urbanas um motor para a sua obra. É dele a placa (real) de ônibus que mostra labaredas nas janelas do veículo, em clara menção ao “método” para barricadas e retaliações em zonas cariocas de conflito. Mas agora acrescenta a seu antigo repertório um dado novo e muito poderoso: a memória. Ela não vai impedir que o artista atue em territórios com calos e arestas. Este trabalho prova isso, ao desaguar num passado às vezes incômodo. Ferraz amplia seu mapa ao usar a memória de toda uma cidade para pensar sua autofagia: o concreto engoliu o mar, um Centro foi soterrado por outro.

Obra de Raul Mourão para o foyer usa o movimento para testar os limites entre o dentro e o fora

Parte de um segmento da exposição da Caixa que apresenta intervenções escultóricas e arquitetônicas para o foyer da instituição, Raul Mourão também dá um passo decisivo rumo a uma nova etapa em sua carreira.  Ele apresenta duas esculturas cinéticas geométricas, constituídas por grades.  As peças estão dentro de um ambiente igualmente gradeado e a percepção de cada peça muda se o espectador está do lado de dentro ou de fora, já que há aberturas nesta “jaula”, como janelas, em formatos semelhantes (às vezes invertidos) das peças do lado de dentro em estado de repouso.

As grades de prédios do Rio estão no início da pesquisa do escultor, que trabalhou inicialmente com sua padronagem,  em fotos, e depois foi transformando-as na base de seu repertório. Mourão já havia confrontado a grade – forçoso limite das construções – com a escala interna da arquitetura (há trabalhos de chão e de parede em que a grade se mistura a cadeiras) e também com a natureza (recentemente, gradeou pedras em exposição nos jardins do Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, veja aqui).

É curioso perceber que o mesmo artista tem uma longa série de trabalhos sobre futebol. Começou  “desenhando” em ferro a geometria dos gramados. Nas esculturas mais recentes, criou peças a partir da perspectiva do pênalti e fragmentou a grande área em múltiplas arestas. Já existia aí um desejo de movimento, com a bola rompendo os limites de espaço e linha, com pênaltis traçando trajetórias incalculáveis, tanto para quem está embaixo da trave quanto para quem sofre nas arquibancadas.

A obra/ambiente na Caixa, no entanto, leva isso ainda mais longe ao testar o olho nos encaixes e limites entre o que está dentro e o que está fora, entre o que é estático ou movimento. Agora estou vendo uma escultura ou o que está a seu redor? Consigo enxergar pelo vão da janela? Ou é uma das passagens entre as grades? Tudo é arquitetura e tudo se move.

(Este texto continua em um próximo post. Até lá)

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