Viviane Matesco e o corpo

Escrevi resenha sobre “Corpo, imagem e representação”, livro de Viviane Matesco publicado pela editora Zahar, para o Prosa e  Verso de O Globo publicado ontem, sábado, 17 de abril.  Abaixo, o texto na íntegra.

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A complexa anatomia do corpo

Ensaio expõe e analisa transformações na representação da figura humana

+++ “Corpo, imagem e representação”, de Viviane Matesco, Zahar, 64 páginas, R$ 19.

Daniela Name*

"LES DEMOISELLES D´AVIGNON", de Picasso: perda de totalidade e ponto de partida para uma nova abordagem

Viviane Matesco sempre soube falar e ser entendida. Professora há muitos anos, ela consegue prender a atenção de suas salas lotadas embalando pensamentos profundos em um discurso bem humorado e direto. Seu livro “Corpo, imagem e representação”, que acaba de ser lançado pela Coleção Arte +, da Zahar, usa a mesma estratégia e tem na clareza seu grande trunfo de sedução.

Uso aqui esta palavra, “sedução”, porque a Arte +, coleção coordenada por Glória Ferreira, surgiu com o desejo de ampliar o público de leitores de arte. Os livros de bolso adaptam dissertações de mestrado ou doutorado de todo o país e  lançam textos curtos especialmente pensados para o formato.

Adaptar a linguagem acadêmica para uma edição tão enxuta é um desafio, e talvez este lançamento encontre o tom perfeito para série. A adaptação de um dos capítulos da tese de doutorado da autora conquista o leitor com uma história bem contada, em que ela vai destilando sua visão crítica a conta-gotas.

Viviane sabe que não precisa demonstrar o coração de suas hipóteses teóricas de uma maneira monolítica, pesada. O mote para seu texto está presente o tempo inteiro, mas ele se insinua como algo natural, parte do passeio pela história da representação do corpo na arte, da Grécia Antiga ao século XX .

Viviane inicia seu trajeto com uma síntese: “Vê-nus” (1976), de Tunga.  Com um trocadilho no título – entre o nome da deusa e as palavras “ver” e “nus” – a obra é um ponto de partida para investigação da autora. Com duas bases muito fortes – a ideia de corpo perfeito do mundo grego e a interdição do corpo na tradição judaico-cristã – a arte do Ocidente vai manter um fluxo de aproximações e bloqueios do nu ao longo dos séculos.

Antes da polis grega, o corpo era um catalisador de códigos para as sociedades primitivas. As energias que moviam o universo eram indissociáveis do próprio homem, e não havia distinção entre corpo e os mundos vegetal e animal. Depois do surgimento da filosofia, especialmente de Platão, o corpo é pensado como algo ideal e norteado por valores exteriores a ele – “mais pensados do que vividos”, como lembra Viviane – já que precisava estar em equilíbrio com a alma imortal.

O corpo é despido de características peculiares nesta busca incessante da beleza. O belo do campo físico era entendido como uma cópia esforçada e imperfeita do conceito filosófico do belo, uma realidade transcendente e imutável. Por tudo isso, nu grego não representava  o corpo, ele mesmo, e sim uma tentativa de dar forma à ideia de homem.

Viviane mostra como o desenvolvimento da anatomia provoca mudanças. Antes representado a partir de relações de semelhanças e profundamente influenciado pela teologia, o corpo ganha uma identidade complexa a partir das diferenças e peculiaridades anatômicas. No século XVII, a filosofia rompe com a religião através de autores como Copérnico, Galileu e Kepler. Mais tarde, Descartes e seus discípulos transformam o corpo do homem em algo próximo de seu lado animal, que deve ser transcendido ou até mesmo excluído.

As vanguardas do início do século XX, caso do Surrealismo, do Expressionismo e do Cubismo, fragmentam a imagem do corpo. O corte, a distorção e a sobreposição das partes deste corpo são uma metáfora para a “perda da totalidade que caracteriza a modernidade”. Neste segmento, Viviane usa obras como “Demoiselles d’ Avignon” (1906-1907), de Picasso, como ponto de partida para um novo campo de representação, que se aproxima do corpo psicológica e emocionalmente.

A pesquisa de “Corpo, imagem e representação” deságua nas relações entre corpo e arte depois da Segunda Guerra. A tela passa a ser um corpo salpicado de tinta por Jackson Pollock, rasgada por Lucio Fontana e perfurada por Shozo Shimamoto. Viviane analisa os happenings, performances e a body art que sacodem os EUA e a Europa nos anos 1960 e 1970, com a proeminência de artistas como Allan Kaprow e Robert Rauschenberg e de grupos como o Fluxus.

Numa volta para Afrodite, o ensaio lembra a ação “Degradação de Vênus” (1963), de Otto Mühl, em que o artista jogava lama em cima de uma modelo nua, para depois envolvê-la num pano com dejetos. “A quebra do especular para afirmação de um corpo primário era vista (nos anos 1960) como maneira de subverter a repressão dos suportes tradicionais e o distanciamento imposto pela perspectiva”, escreve Viviane.

A autora volta à arte brasileira no fim de sua viagem, transformando as trouxas ensanguentadas de Artur Barrio em síntese para a questão fundamental do livro. “Compreendemos como não só a arte, mas todo o pensamento ocidental é construído através de dualidades como matéria e espírito, aparência e essência, corpo e alma (…) criadas pelo homem em momentos históricos diferentes para tentar compreender este enigma que nos constitui”, diz ela.

Viviane mergulha no enigma – e mais do que isso, na batalha da arte para decifrá-lo. Sua grande virtude é compreender que os mistérios são os da arte, não os do texto.

*Daniela Name é curadora, crítica de arte e jornalista.

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