Alice não caiu no buraco

O problema não é o suposto desrespeito a Lewis Carroll, muito pelo contrário. Encontrar brechas que se insinuavam na obra do genial autor de “Alice no País das Maravilhas” e criar outras histórias para tentar preenchê-las  são as maiores virtudes do filme de Tim Burton.  Mas a impressão que fica ao sair da sala de cinema e devolver os óculos 3D é que a de que, desta vez, Alice não caiu no buraco.  Burton encadeia uma série de boas ideias sem mergulhar em nenhuma delas, aprisionando na superfície uma das personagens mais interessantes que a literatura já produziu.

Uma ótima ideia é contrariar todas as interpretações anteriores sobre a viagem de Alice. Elas transformaram o País das Maravilhas num sonho da menina, que acorda com sua gatinha no colo depois de cochilar numa tarde de calor intenso.  Na versão de Burton, Alice (Mia Wasikowska) tem 19 anos e se vê compelida a casar com o filho boçal do ex-sócio de seu pai depois que este morre, deixando a família empobrecida. Quando criança, Alice sonhava com um mundo estranho, onde chegava seguindo um coelho falante e encontrava um gato que desaparecia, uma lagarta azul e mil outras criaturas incríveis. A visão noturna – ela descobre depois que chega novamente ao País das Maravilhas – não era um pesadelo, e sim uma recordação da outra visita àquele mundo fantástico, feita na infância.

Outra excelente sacada é dar mais elementos à relação entre as Rainhas Vermelha (Helena Bonhan Carter, ótima) e Branca (Anne Hathaway, dois tons acima, caricatural quando não precisava ser). Com mil simbolismos que podem ser associados às disputas entre casas na própria nobreza inglesa, as duas irmãs representam, também, a briga entre duas formas possíveis de personificação feminina: a mãe tirana, devoradora de seus filhos, que exige que cortem a cabeça de quem a contraria;  e a fêmea conciliadora, banhada de compreensão, útero seguro para todas as criaturas.

Por fim, é ainda de fato  maravilhoso imaginar que o Chapeleiro (Johnny Depp) ficou maluco depois que a Rainha Branca foi deposta e exilada e ele perdeu seu antigo ofício na corte “do bem”. Depp dá ao personagem o alicerce da compaixão, transformando sua loucura numa espécie de alienação daquele mundo hostil, numa forma de ser fiel à verdadeira rainha. É ótima escolha, assim como são  escalações certeiras as vozes de Alan Rickman e Stephen Fry para, respectivamente, a Lagarta Azul e o Gato de Cheshire.  São dois atores incríveis para personagens fundamentais, que, no entanto, perderam muita força nesta adaptação.

Construído em ritmo de aventura e com um resultado bem parecido com o de um “O Senhor dos Anéis”* ou qualquer adaptação cinematográfica do universo dos RPG,  a nova versão de “Alice” dilui os jogos verbais e embaralha os elementos principais que constituem sua protagonista.  Os fios de interpretação apresentados no início do filme – e expostos nos parágrafos acima – se perdem num excesso de monstros e de batalhas. A heróina curiosa se transforma, de uma hora para outra, no Valete perdido da Rainha Branca, usando armadura e desembainhando espada para matar o Jaguadarte.

Ok, Alice é uma mocinha diferente, uma bofetada em luva de pelica nas princesas insossas. Mas ser diferente não significa, necessariamente, ter que virar menino. O desfecho do filme – que não revelo aqui por respeito a quem ainda vai ver – é ainda mais carta fora do baralho do que esta batalha… hum, épica, digamos assim.

As possibilidades descortinadas pelo diretor poderiam mergulhar fundo na liberdade de interpretação e criar novas estradas neste País das Maravilhas.  Mas o ritmo de blockbuster bota tudo no liquidificador, e comete pecados como a apresentação meteórica da Lagarta e do Gato, feita logo depois de a moça pisar naquele mundo estranho.

O Gato, sobretudo, perde muito em potência. O que é um duplo desperdício, levando-se em consideração que ele tem a alma e a voz de Fry, um dos mais refinados atores britânicos.  Com aparições burlescas, ele agora ficou parecendo um bobo da corte, abandonando o posto de grande companheiro de Alice em sua odisseia. A Lagarta acerta no tom da arrogância – e Rickman é perfeito para isso – mas o roteiro não aprofunda seu papel de Grilo Falante, de consciência da  viajante.

O que é mais frustrante é que Burton  também parecia a escalação perfeita para esta história onírica, um tanto lisérgica, que ora é sonho e ora é pesadelo.  Afinal, ele ganhou fama com “Os fantasmas se divertem” e dirigiu “Edward Mãos de Tesoura” e “Ed Wood”, entre outras maravilhas.  Mas a não ser pelo nonsense da corte da Rainha Vermelha e uma ou outra árvore retorcida à la “O estranho mundo de Jack”… pouco se reconhece de seu universo.  Ele certamente estaria mais perto de Alice se fosse fiel ao espírito de Carroll justamente ao reinterpretá-lo e desrespeitá-lo.

Para virar este espelho às avessas, bem ao estilo do escritor e reverendo inglês, bastava Burton ser ele mesmo. Não foi.

*A comparação com “O Senhor dos Anéis” foi feita pela artista Gisele Camargo, uma de minhas companhias na sessão de “Alice” neste feriadão.

7 thoughts on “Alice não caiu no buraco

  1. Adorei a análise – “alienação de um mundo hostil” é ótimo. Tb gostei e não gostei do filme. A justificativa para a escolha final dela não se segura em pé. Mas há uma série de outros problemas, tb, e vários deles vc elencou aqui.

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  2. Nâo vi o filme ainda, mas pelo que você está falando, parece que ficou de fora o grande trunfo do livro, que era o desafio à lógica. O Carroll não era nonsense, ele tinha uma lógica interna em cada livro, espelhada à realidade. Não é à toa que o País das Maravilhas é um imenso tabuleiro de xadrez e os movimentos de Alice e dos personagens como peças são apresentados no início do livro. Fiquei com a impressão de que o Burton não levou isso em conta. E aí fica difícil estruturar a história da volta. Mas é claro que vou conferir, e de repente é tudo ao contrário do que eu disse. Seria a cara do Burton e do Caroll. Beijão.

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  3. “Alice não caiu no buraco”. Gostei da frase. Especialmente porque sai do cinema um pouco confuso. Se de uma lado não achei o filme ruim por outro não fui levado naquela viagem.

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