Efrain, olhos nos olhos

Estar diante de um trabalho de Efrain Almeida dificilmente  gera uma sensação de conforto.  Esta é, aliás, uma das grandes qualidades do artista, cuja exposição, “Handmade”,  está em cartaz no Galpão da Fortes Vilaça, em São Paulo, até 19 de junho.

Não é leve e açucarado o primeiro contato com a instalação formada for inúmeros olhos de madeira policromada, que ocupa a parede principal do galpão na Barra Funda. Presas na altura do rosto de um brasileiro de estatura média, as peças nos obrigam a ficar olhos nos olhos com Efrain e seu legado.

Irregulares, às vezes ligeiramente estrábicos, estes olhos parecem, numa primeira leitura, mais uma menção religiosa do artista. Podem ser ex-votos, fruto de uma promessa para Santa Luzia, a padroeira da visão que, diz a lenda, teve os olhos furados depois de recusar o casamento com um marido pagão, recuperando-se da cegueira milagrosamente no dia seguinte.

Mas há outros caminhos. Podem também ser olhos de Sampaku, aqueles em que a íris se perde no branco vazio. Os donos destes olhos, garante outra crendice, acabam tendo destino trágico e morrendo cedo. Podem ainda ser olhos de ressaca, como os de Capitu: nos encaram sem deixar claro se são infiéis ou inocentes, se nos enxergam com indulgência ou acusação. Ora sanguíneos, ora cansados, poderiam também estar numa canção de Antonio Cícero, nos mandando um olhar  “que não só já viu quase tudo, mas que acha tudo dejà vu mesmo antes de ver”.

Por tudo isso, encarar os olhos de Efrain é, mais do que descobrir, confessar.  E pode haver algo mais religioso do que estar diante de um mistério e reencontrar seus mundos a partir dele? A religião, que sempre marcou o trabalho do artista, ganha aqui, talvez, seu sentido mais profundo.

Religião vem do latim “religare”, religar.  Em toda a sua história, Efrain sempre trabalhou com a ideia de superação a partir da vitória sobre a dor. Criou delicados beija-flores de madeira com olhos feitos de cristal vermelho, fruto de uma sofrida memória de infância: horrorizado, assistiu muitas vezes o irmão e outros meninos mais velhos engolindo o coração dos passarinhos ainda batendo para provar sua coragem.

Vieram do  mesmo baú de recordações as coroas de espinho, os cordões de Lágrimas de Nossa Senhora feitos com veludo, inúmeros carneiros.  Neste último caso, os animais são uma clara alusão a Jesus Cristo batizado e renascido (“Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós”, diz a ladainha da missa).

Há uma escultura de madeira em forma de carneiro e outra representando um bode na Fortes Vilaça. No interior do Nordeste, estes animais enfrentam um sacrifício menos litúrgico: de companheiros de estimação das crianças passam a carne morta e refeição do dia assim que atingem a maturidade. Esta transformação muitas vezes se dá com choros e berros, tanto de bichos quanto de meninos.

O que é bonito nesta exposição de Efrain é que, como em tantos outros momentos de sua carreira, ele faz o caminho de volta. Se por um lado expõe a ferida como uma lâmpada acesa, também apresenta o recomeço, a mudança, a ressurreição.  Em frente ao bode e ao carneiro, está uma terceira escultura de madeira, ramo de árvore que rasga a parede como a promessa de um novo mundo.

Ao lado desta peça – e da parede com os olhos – está a segunda instalação, quinto e último trabalho desta individual, um voo com inúmeras mariposas.  Popularmente chamadas de bruxas, elas são as borboletas noturnas, que pousam asas abertas sobre a superfície.

Feitas com finîssimas lâminas de madeira, ganham o espaço com a alegria de ter deixado a reclusão da crisálida. Assim como as borboletas, mariposas vivem uma morte em vida, deixando de ser lagartas para virar o que são. Diferentemente de suas “primas” solares, no entanto, elas não têm cores exuberantes. Castanhas, não se exibem para o sol, mas se camuflam em cercas de madeira e galhos – como o da escultura, bem próxima a esta instalação – para evitar seus pedradores.  Tímidas, fugidias, mariposas são quase os patinhos feios do reino das lepdópteras. Aproximam-se bastante dos  “Cisnes” que Efrain criou em 2004, percorrendo um outro tipo de metamorfose redentora.

Para além desta transformação, o trabalho nos leva a uma expressão popular na América Latina e na Espanha: “Mariposas en la pança”. Aqui no Brasil, “borboletas no estômago”,  o tal frio na barriga que toma conta dos que estão apaixonados. E o amor, no fim das contas, não é ressurreição, metamorfose, mimetismo, uma certa camuflagem?

Amor é  religare, religião. Comungamos desta fé diante da obra de Efrain.

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As fotos deste post são de Nara Reis.

6 thoughts on “Efrain, olhos nos olhos

  1. Oi Daniela Name,

    Tive o prazer de encontrar seu site, e gostei muito do seu texto sobre o Efrain… E como faço parte do site Reticências…crítica de arte (www.reticenciascritica.com), espaço destinado a reflexão sobre arte contemporânea, fincado em Fortaleza, mas com desejo de aproximação com outros lugares…Então, gostaria de saber se podemos publicar esse texto no nosso site, com os devidos creditos, inclusive com o link do seu site.
    Aguardo o seu retorno e mais uma vez parabéns pelos textos…e agora vou ficar acompanhando, já esta nos favoritos, até mais…

    Abraço,

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  2. Captou tudo. È isso aí … vi sem conseguir traduzir tão bem. Vc abriu os meus olhos, espero q não sampakus… meus olhos, minha lembrança (interpretação) em seus olhos. Thanks tbm ao Efrain.

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