O corpo como paisagem

Escrevi este texto de apresentação da obra do Leo Ayres para o Canal Contemporâneo, que criou um índice de artistas para o Prêmio PIPA deste ano.

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Uma imagem, muitos silêncios. Na obra do carioca Leo Ayres, a impossibilidade de realização do desejo – e, mais do que isso, de comunicar este desejo – é o espelho que rebate e multiplica as imagens num labirinto. Sem fio de Ariadne para achar o caminho de volta, percorremos as paisagens propostas pelo artista imersos em contradição.

Se por um lado a obra de Ayres tem um vetor poderoso e sensual, por outro mergulha seus objetos na solidão e na melancolia profundas. A tréplica neste jogo de forças é o humor que banha alguns trabalhos, acionando risos nervosos e cumplicidades, escapes.

A graça, em sua obra, nunca é piada de escárnio, mas a busca de empatia, no sentido original do termo grego. In (para dentro) e pathos (sentimento): sentir-se no lugar do outro, mergulhar no ponto de vista alheio: esta é a chave do humor do artista.

As paisagens são o próprio corpo, que aparece sempre insinuado, fragmentado ou mutante. É um corpo quase metáfora, como no vídeo sobre o Incrível Hulk. É corpo entrevisto em “Amor ao próximo” e “The boy next door”, que acentuam o voyeurismo da obra de Ayres e a mistura que ele faz entre paixão… e compaixão.

É corpo sobreposto nas árvores de acrílico – em seus galhos poderia estar a maçã que Eva mordeu para ganhar consciência-, oculta identidades em “Operação: camuflagem” e é território expandido, que mimetiza horizontes, na foto em que o braço do artista aparece como limite para as nuvens e o céu.

É ainda um corpo ausente, mas visível e demarcado, nas fotos feitas na Academia Militar das Agulhas Negras. Encerra ciclos e deixa vestígios, ora nas folhas feitas com embalagens de preservativos, ora nos desenhos fotografados com fios de barba.

Na obra de Leo Ayres, o corpo é uma ilha demonstrando o quanto desejamos sós, náufragos. Mas é também mensagem na garrafa, uma busca de contato – no verbo, no riso, na carne.

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Para ver outros trabalhos de Leo Ayres, clique aqui ou vá na barra da direita do blog.

3 thoughts on “O corpo como paisagem

    1. Oi, Andrea! O Leo vai estar numa exposição que vou fazer na galeria Amarelonegro em julho. Chama-se: “Além do horizonte – Paisagens contemporâneas” e, além dele, haverá mais 11 artistas muito bacanas. Mas podemos marcar de vc conhecê-lo antes!

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