Piraquê: agora é mesmo o fim

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A Piraquê acaba de mudar a embalagem do clássico Cream Cracker e do biscoito Água e Sal. O desenho atual do Cream Cracker, que você vê acima em fotos de Leo Ayres e Monica Vicencio, é um pavor: excesso de elementos, fundo com uma retícula quadriculada que gera uma atmosfera anos 70 bem menos neutra que a da embalagem original e supressão de boa parte da área em vermelho, marca registrada da Piraquê. A mudança dá o golpe final no projeto gráfico original de Lygia Pape para a marca carioca, datado do fim dos anos 1960.

O post com maior leitura na história do blog foi “O crime da Piraquê” (leia aqui), em novembro do ano passado, quando anunciamos em primeira mão a mudança nas embalagens nos biscoitos Presuntinho e Queijinho (vulgo Bolinha). Na ocasião, profissionais de programação visual e marketing discutiram o assunto no blog, em outros sites ligados ao design gráfico e até na capa da Ilustrada, da Folha de S. Paulo. O repórter Silas Martí  acabou suitando a notícia dada aqui no Pitadinhas.

Atualizar uma marca não só é permitido, como necessário. Mas uma das chaves para este up date dar certo é guardar coerência com o projeto original, com a história que vinculou inúmeros consumidores visual e afetivamente ao produto. Não é o que está acontecendo com a Piraquê.

Ao comprar uma embalagem de Cream Cracker no mercado ontem, antes de bater a foto para este post, Monica Vicencio, que é publicitária, se deparou com um casal de consumidores com a mesma intenção. A mulher instruía o marido a pegar um Cream Cracker Piraquê, mas o coitado não localizava o produto na gôndola. “É o vermelho”, ela dizia. E ele continuava sem achar. O vermelho, uma das marcas de Lygia, diminuiu muito no novo projeto, que é semelhante ao do novo Água e Sal, outro biscoito clássico da fábrica.

A mudança nesta embalagem, que era toda branca e apenas com a fotografia de um grupo de biscoitos, acaba com a referência que Lygia fez aos “Metaesquemas” , de Hélio Oiticica. Com o Água e Sal, a artista uniu de forma exemplar design e o sonho mais ambicioso da vanguarda neoconcreta: usar geometria e ritmo para acessar a sensibilidade e a imaginação do espectador de arte. Ao encampar o projeto de Lygia, a Piraquê levou esta utopia para as massas, para as prateleiras do supermercado.

O sonho acabou.

11 thoughts on “Piraquê: agora é mesmo o fim

  1. Comecei a ler os posts e confesso que eles tomaram um bom tempo do meu dia e grande parte do meu pensamento. Não quero aqui impor ou tentar mudar opiniões, vou apenas apresentar uma de várias possiveis interpretações que possam ser dadas, quando o assunto é um projeto gráfico.

    Primeiramente acredito ser complicado analisar um projeto gráfico sem ao menos ter acesso ao briefing do mesmo, “documento” este essencial para atender as necessidades e as oportunidades do projeto envolvido. Como profissional de design compreendo e reforço sempre a importância de um bom briefing para que o resultado supra as necessidades ressaltadas.

    Quanto ao projeto de redesign das embalagens Piraquê, posso aproveitar os embalos de palpites, que mesmo sem fundamentos de um briefing estão sendo divulgados, para postar aqui a minha análise, que com certeza não irá desprezar a valiosa arte de Lygia Pape, mas levará em consideração as mudanças demográficas que deturpam os comportamentos atuais, ou seja, o publico é outro, o entendimento é outro, portanto a comunicação deve ser outra.

    Vivemos em uma sociedade caótica e saturada da rotina, precisamos de mudanças para alimantar nosso dia-a-dia e é por isso que empresas, cada vez mais, buscam caminhar junto ao seu consumidor e as necessidades dos mesmos, obviamente sem perder sua essência e seu posicionamento, que geralmente nascem junto à marca.

    Portanto acredito que para uma análise quase que “mais justa” deste projeto, se faz necessário entender uma complexidade, que hoje em dia vai além dos desejos artísticos, mas que precisam e devem cumprir com as necessidades embasadas em estudos de comportamento sócio-econômico.

    Não afirmo assim que devemos “assasinar” a arte como exageradamente dito, mas é preciso ter critérios ao avaliar um projeto, que obviamente foi elaborado por profissionais da área de design e mais do que isso, por profissionais que com certeza devem estar envolvidos no universo de Piraquê e que na minha opinião, fizeram uma minuciosa reileitura da embalagem antiga, atendendo as constantes mudanças encontradas nos hábitos de consumo.

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  2. Nossa!
    olha como são as coisas: hoje mesmo no estágio estavamos circulando um pacote de Piraquê e eu disse “é inspirador comer essa bolacha! vem com a arte de Lygia Pape”
    Eu nem sabia da mudança ainda.

    É uma pena mesmo, Daniela!
    vou mandar uma mensagem para o fale conosco deles também! vamos divulgar!

    abraços

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  3. Também enviei mensagem no site da Piraquê. Eu uso esse exemplo de mau design em minhas aulas do curso de publicidade, e os alunos, em peso, concordam e reconhecem o equívoco da marca. Até estudantes percebem o erro!

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    1. Aparecida, que legal, vc dá aula em que faculdade? A Lygia teve um papel pioneiro não só no design gráfico, mas também no de produto. Ela inventou o modelo de corte e dobra que envolve os biscoitos com papel de embalar. Antes dela, os biscoitos vinham em caixinhas e saquinhos que não revelavam seu formato geométrico. Além disso, se a gente reparar bem, em qualquer lugar que a bobina do papel fosse cortada, o projeto dela é preservado intacto. Um absurdo esta mudança mal feita. Modernizar é necessário, mas guardando coerência.

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      1. É um absurdo o desrespeito com a arte e Com a memória da Lygia, fui aluna da Cristina filha dela, imagina o que ela deve estar sentindo com esse descaso. Também vou mandar uma mensagem para eles !!

        Dani ou alguém de São Paulo, viu alguma instalação de um grupo chamado Vulto Coletivo? Queria saber se são boas mesmo? Andam falando muito desses caras aqui no Rio, que eles misturam natureza e máquina nos seus trabalhos e tal. Obrigada.

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