Nuno, antíteses

 

Nuno na montagem de "Fruto estranho"

 

Ele cantarola um Noel Rosa e se derrama em mesuras, para depois subir nos andaimes e ser o operário mais ativo dentre os mais de 20 homens que despejam sabão na estrutura de “Fruto estranho”, mais uma obra monumental que inaugura hoje, a partir das 19h, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.  É uma instalação que mistura um vídeo com Max von Sidow sacudindo uma árvore, Billie Holliday cantando “Strange fruit” – música que fazia alusão aos “frutos estranhos” que eram os negros enforcados em árvores pela Ku Klux Khan – e dois aviões monomotores chocados contra troncos gigantescos e suas respectivas galhadas. Muito ruído e ao mesmo tempo um silêncio profundo no MAM.

Nuno Ramos é assim, um amarrado de antíteses. Lidar com a aflição e o desconforto causados por estes contrários faz parte da experiência de estar diante de um dos artistas mais potentes em atividade no Brasil.  O sabão de origem imunda vira uma coisa que limpa; o voo mecânico dos aviões é interrompido pela natureza das árvores, congelado pela banha fervente, deslizante. “Verme”, que vi ainda muito incompleta, sugere formas  do corpo, com todas as suas reentrâncias, aludindo ao vídeo pornográfico que completa a obra. O desejo e suas repulsas, seu expurgo, seus dados impublicáveis.

Grandiloquente, operístico, mas ao mesmo tempo extremamente sintético, Nuno já fez chover do alto da cúpula do Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, com o trabalho “Morte nas casas”, de 2004.  A instalação dava título  a uma exposição com vários outros trabalhos importantes, caso de “Alvorada”. O conjunto apontava para uma radicalização em direçao à palavra. Disse aqui, quando Nuno recebeu o prêmio literário Portugal Telecom por “Ó”, um livro tão inclassificável quanto alguns de seus trabalhos visuais, que ele sempre foi um artista que escrevia através de sua obra plástica, que não se tratava de um escritor quase estreante, recém-saído de outra área.

O que posso dizer agora, depois de acompanhar os bastidores da montagem de “Fruto estranho” e “Verme”, – nesta exposição que tem curadoria de Vanda Klabin – é que, se a obra visual de Nuno sempre foi um vetor para a palavra, agora fica mais claro que nunca que a palavra ajudou a iluminar e fortalecer sua obra visual. Na música, nos vídeos, em trechos de textos lidos por atores, a palavra é sempre um farol e também um chamado para o duelo.

Nuno parece estar sempre armando arapucas para si mesmo, rompendo seus próprios parâmetros e esperando que alguma voz – ainda que seja a dele mesmo – se levante para dar réplicas ao seu discurso, no papel ou no museu. Recentemente, me surpreendeu ao elogiar uma crítica literária que fazia restrições ao seu primeiro livro depois do Portugal Telecom, “O mau vidraceiro”, recém-publicado pela editora Globo. “As pessoas batem palma demais, todo mundo é gênio”. Um argumento coerente, pensei depois, para alguém que é tão dialético e está sempre inventando a próxima trincheira.

“Fruto estranho” e “Verme”  fazem com que ele ultrapasse mais uma fronteira rumo ao risco.  Nuno transformou o MAM  em uma oficina em progresso. O sabão, derretido a 80 graus com soda cáustica, era produzido ali, ao lado da linha de montagem em que se transformou o Salão Monumental, onde também foram socadas toneladas de terra negra para dar forma a “Verme”. Numa obra que desde seu nascedouro fala tanto de morte – e dos gozos do sexo e da alma que levam a outras mortes, provisórias e efêmeras – chama atenção a presença da vida e de seus ciclos.

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Voltarei a Nuno e a “Fruto estranho” depois que vir também “Bandeira branca” na Bienal de São Paulo. Mas estou certa de que hoje teremos uma grande noite no MAM.

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