Inhotim – Dominique Gonzalez-Foerster*

A série de posts sobre as novas obras e galerias de Inhotim continua com o site-specific da artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster.

+++

Ruína moderna

Desert Park, de Dominique Gonzalez-Foerster, é uma intervenção direta e bastante contundente na paisagem de Inhotim. Também estabelece uma relação curiosa com a arquitetura de Belo Horizonte. A uma hora de carro de Brumadinho, onde fica o museu criado por Bernardo Paz, a capital mineira sofre de uma certa esquizofrenia em relação ao resto do Estado, sobretudo por sua história urbana.

As fachadas coloniais de cidades muito próximas – como Ouro Preto, Mariana e Tiradentes – são nubladas em Belo Horizonte pela herança modernista, que começa a ganhar corpo com o projeto de Oscar Niemeyer para a Pampulha. Nos anos seguintes, operários que trabalharam construindo mansões modernistas nos bairros nobres da cidade adaptaram o léxico visual das brise soleil e das varandas em triângulo para suas residências em áreas periféricas. Hoje, a paisagem de BH e adjacências se parece muito como uma ruína do futuro. Esta sensação é ampliada pela imobilidade da obra do próprio Niemeyer: assinada pelo arquiteto, a Cidade Administrativa de Minas Gerais, conjunto de prédios que vai abrigar o funcionalismo do governo e fica a caminho do Aeroporto de Confins, é próxima a um pastiche de um passado glorioso, mas que não soube se renovar no tempo.

Dominique se apropria de uma referência importante do mobiliário urbano modernista, que resiste na paisagem mineira. Seu Desert Park é uma grande praça apinhada de pontos de ônibus de diferentes formatos. Com telhados e bancos típicos do período entre 1940 e 1960 e construídos em concreto armado, eles são lugares de espera de um transporte que nunca virá. A areia branca, que substitui o gramado dos jardins de Inhotim, cria uma paisagem inóspita, lunar, quase fantástica.

Não vimos Desert Park totalmente pronto, mas ficou a impressão de que, com o sol a pino, a areia vai funcionar como um grande rebatedor, provocando vertigens e uma sensação de cegueira temporária. Oásis às avessas, o trabalho da artista francesa instiga justamente por se recusar a oferecer refúgio para a miragem moderna.

+++

*O blog viajou a convite de Inhotim.

2 thoughts on “Inhotim – Dominique Gonzalez-Foerster*

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s